Posted on: 8 de janeiro de 2021 Posted by: Teia dos Povos Comments: 21

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* Por Hamilton Borges dos Santos da Organização Reaja ou Será Mort@

Eu escrevo mais uma vez para meus irmãos. Escrevo sobre nós, para mais ninguém. Nenhuma pessoa privilegiada, bem-sucedida, vitoriosa dentro dos protocolos que parece que todos perseguem.

Não escrevo para nenhum intelectual do enfrentamento virtual, ativistas radicais de performance, nenhuma dessas lideranças que mal sabem o caminho para acessar a comunidade em seus dilemas mais dilacerantes, nenhum papa centrado em seus pergaminhos e concursos super remunerados, É só nós, aqui nos portões desse inferno que são nossas quebradas.

Vejam! O que estou falando é desse ciclo hedonista que festeja e faz farra mesmo diante da desgraça dos mortos enterrados em covas rasas, vítimas de uma pandemia, os mortos vítimas do ódio que se explanam em livros e teses como fenômeno de fim do mundo. Os jovens mortos pela violência, os mortos velhos\adultos vítimas de doenças prevalentes, sem atendimento de saúde. Esse hedonismo todo ocorre diante dessas mortes e eu compreendo que não tememos a morte porque não damos o devido valor a vida.

Mas repare, como dar valor a uma vida desgraçada, indigna, arriscada? Eu sei o que é a vida em escassez, a vida com violência, com medo e insegurança. Querer acessar o consumo e não poder e todo dia ouvir por várias redes de comunicação que você tem que consumir, dai, você liga o foda-se e quer consumir tudo que chega. Numa situação dessas, você não se importa muito com a vida, nem se vai ser consumido. Cancelado.

Mas eu posso te provar irmão que com o senso mínimo de responsabilidade você pode ir pegando as oportunidades e vencendo palmo a palmo sua liberdade.

Morei com dois filhos numa casa sem luz, com quatro metros quadrados, sai de lá com o respeito comunitário porque nunca abandonei meus filhos e apresentava a eles um mundo mais colorido do que aquilo que vivíamos, eles cresceram e agora seguem suas vidas perante suas escolhas e seus caminhos, mas ninguém ficou sem pai. Eis um círculo que pode ser quebrado.

Mano, não faça filho sem planejamento, sem condições para dar uma vida digna, cuidar de sua família, você não constrói uma família entrando e saindo de relacionamentos sem responsabilidade afetiva, não cometa esse erro que eu cometi e corrigi a tempo. Pense, se prepare, mas se a criança nascer, não suma, não fuja, assuma, nós estamos aqui pra isso, pra te fortalecer, mas nós não fazemos caridade e nem vamos passar a mãos por sua cabeça.

Aqui não é lugar para Rei, Rainhas, Príncipes e Guerreiros, aqui é a vida real e não a porra de um instagram afrodescendente em que você posta coisas coloridas, cheia de filtros e se passa como verdade. Aqui é vida real, você não é príncipe, você é preto numa terra ruim para pretos.

Aprenda que as mulheres pretas são suas únicas aliadas nesse pantanal de desgraça e dor, elas querem que você progrida, que você cresça, que você estude, limpe a unha, se vista adequadamente como um homem necessário pra comunidade e não como um pombo sujo, largado, mal educado e pagando de descontruído em festas afrocentradas, sem um real para comprar o cimento e bater a lage da casa em que você mora com sua mãe. A mulher preta é liberdade e qualquer teoria que te oponha as mulheres é frágil, indelicada e mente.

A mulher preta quer dar continuidade a esse código genético que te fez com a pele preta, fora disso, você vai sendo apagado e some, seus ancestrais não vão te reconhecer depois da travessia.

Estou querendo pensar em nosso comportamento como homens, seres humanos, homens que carregam marcas indistintas de inferioridade, medo, sofrimento, suplício, violação e muita dor acumulada em séculos. Não se trata aqui te analisarmos as mulheres, nossas mães, companheiras, namoradas, irmãos ou a desconhecida que merece de nós todo respeito e distinção. Entenda, caralho! Esse respeito é fundamental para alimentar seu espírito caído e perdido. Homem preto, acorde! Respeite a mulher preta como portadora do poder fundamental que gestará nossa libertação. Ela é o comando vital.

Esse comportamento desnorteado, desrespeitoso e violento que estamos tendo coletivamente com as mulheres só irá nos destruir enquanto povo. Temos o dever, enquanto povo preto, de respeitar os seres humanos sagrados que nos geram e nos inspiram.

Mas você deve concordar comigo, nossa atitude diante das mulheres é uma atitude de ódio, de desprezo, de agressividade mesmo quando dizemos que amamos, que desejamos e essas coisas de casais.

Mano vivemos numa homossociabilidade deletéria1 (estude irmão, busque um dicionário, se informe), uma homossociabilidade que nos ensina a ser cínicos, que nos impulsiona a ser quem não somos, ali criamos piadas, fazemos chacotas, nos achando lindos.

Você tem que admitir que você quer apenas a companhia dos homens, quer ficar entre os homens o tempo todo, disputando força, beleza e essa inteligência tosca que resume tudo a conhecimento sobre carros e a melhor forma de se afastar das mulheres: o futebol, os bares, a balada, as rodas misóginas2

Você não sabe transar, se acha a fonte de prazer do mundo civilizado, pensa que conhece segredos ocultos sobre gozo, mas não conhece nada, além de meter como um motor e gozar na boca como um robô programado. Isso não é transar! Esqueça tudo que você aprendeu no XXX vídeos, é tudo uma porcaria pornográfica que te deixa bem distante do prazer.

Não importa sua preferencia sexual, se você ama um homem, uma mulher, os dois gêneros ou alguém não binário, aprenda a tocar, sentir o aroma da pele, lamber, sentir o gosto do sexo da outra ou das outras pessoas em sua língua, penetre ou seja penetrado como se isso fosse uma coisa sagrada e a oferenda é seu corpo entregue com sentimento de gratidão pelo gozo que você também terá por fim. Para de boicotar seu prazer e o prazer alheio com essas performances brochas.

Não vamos culpar ninguém por nossa dor, não vamos chamar nenhum grupo para dividir nossa dor, vamos tratar dessa dor entre nós. E será entre nós mesmo que faremos um plano de cura: vamos nos livrar dessa corda no pescoço enquanto estamos no precipício.

Não dá pra chamar de sadio essa quantidade de álcool que nós ingerimos. Gastamos dinheiro com álcool para nos alegrarmos entre nós, mas as estatísticas não metem! O álcool nos deixa mais tristes, melancólicos, vulneráveis e violentos. A bebida nos coloca como algozes de nossa própria gente. Nós, através do álcool, temos perdido tudo, temos destruído nosso futuro, temos adoecido de maus físicos e psicológicos. A bebida e outras drogas nos deixam numa sensação de poder e de força de coração e desprendimento que nos tornam pessoas mergulhadas em dilemas sem importância que nos levam a cometer homicídios, lesões corporais, estupros, abusos sexuais, injurias, suicídio e sentir tanta vergonha.

Essa cultura do machão não é nossa, nós não temos que provar nada a ninguém sobre nossa masculinidade. O que precisamos definitivamente é nos convencermos que somos seres humanos e dai partir para uma militância, informando a todo preto ao nosso lado que eles são seres humanos e que devem viver uma vida digna de seres humanos, sem destruição de nossos espaços, sem fugir de nossas aparências, sem rejeitar pessoas iguais a gente como parceiros sexuais, parceiros econômicos, parceiros religiosos. É isso que um Povo faz, porra! Um Povo fica junto e não trocando insulto na internet para ver quem é o mais fhoda da roda de dialogo afrocentrada. Isso é uma merda. São só negócios e uma escada para dar entrevista na TV. Precisamos de outras coisas. Nós abrimos hortas, escolas e livrarias, junte-se a nós ou faça algo relevante para o Povo Preto.

O problema é nosso, coletivamente. Cada irmão na porta do bar gastando seus parcos recursos em drogas lícitas ou na ponta da biqueira fumando o dinheiro do futuro dos filhos e da família é um problema nosso enquanto povo. Você é preto irmão, tem a pele preta, é odiado pela rua, sua presença gera uma raiva sem explicação das pessoas de um modo geral. Brancos e mestiços parecem que se sentem um povo do mesmo grupo racial e eles não estão nem ai pra você.

Mas nós buscamos essa estatística de sermos uma minoria em um país que propaga que somos maioria, somos 60 a 70% do povo. Fomos eliminados por transporte negreiro, planos de extermínio, bala, fome, acidentes, doenças e pela miscigenação. No primeiro momento que tiramos a cabeça da lama para respirar, buscamos um casamento fora do nosso povo para nos afastar de nossa raça. Então isso é responsabilidade nossa. Não culpe os outros porque você anda dormindo.

Irmão eu não sou sociólogo, estatístico e nem influencer da internet, mas eu não sou cego, eu não sou trouxa. Estamos muito distantes de um processo de libertação nacional. Da forma que chegamos aqui, com pessoal fazendo tutorial de maquiagem como militância, não teremos o que importa.

Precisamos de terra, tomar território, defesa, precisamos de recursos e educação. Precisamos de poder real para nos defendermos das agressões dos racistas e das pessoas pretas que são muito valentes para nos desafiar.

Eu vou voltar a essa conversa, semana que vem nós conversamos.

Essa carta vai chegar nas ruas, nas cadeias, nos becos e quebradas, eu vou pessoalmente panfletar, eu quero te ouvir.

Imprima e espalhe essas questões que eu coloco.

Semana que vem nos encontramos novamente, nessas ideia

Paz


1 Prejudicial; que causa destruição; que é nocivo.

2 Pessoa que sofre de misoginia, aversão patológica às mulheres.

21 People reacted on this

  1. Que maravilha disse tudo. Obs: enquanto o povo preto não entender que permanece escravos não haverá mudanças. Pior tratamos os nossos irmãos como sempre formos tratados. Muito axé para vc

  2. Essa é uma Questão pertinente. Lutar pelo mundo que acreditamos e construir esse mundo. Pois é possível, por está a alguns passos de todos e todas nós

  3. Poderoso! Não conhecia o trabalho, mal completei o ensino médio, dentro do meu ciclo nada me salta os olhos, me sinto solitário em uma vida miserável.
    Há vários pontos do texto que queria debater, principalmente a questão do “poder real” e “socioeconômico” , mas foi um puxão na orelha que reverberou na planta do ser.

  4. Pesado demais.
    Que isso alcance o máximo de irmãos possíveis e que seja tão impactante quanto foi para mim. Obrigado por isso, meu mais velho.

  5. Papo reto no foco da emancipação .
    Muito obrigado pelas palavras, ideias e visão a ser passada. Nossa luta de não abandona os filhos estar próximo deles e da família é um desafio pra não cairmos e deixa Los cair
    Seguimos inspirado por vc e sua luta irmão…
    Salve Hamilton Borges..

  6. Grande Hamilton, granda Ingrinde muito grato pela partilha. Esta luta é mesmo 100 focada em nós povo preto!!!
    Racismo não vai acabar sem a União e a consciência do nosso povo Preto!!!
    #alutacontinua
    Abcs, Moçambique
    Féling Capela, soldado preto!

  7. Parabéns irmão! E meu eterno respeito!
    Pela primeira vez vejo um texto tão verdadeiro, dedicado a nós gente preta, nos colocando frente ao espelho. Pois sempre
    acreditei que como comunidade negra temos a obrigação, e necessidade de pararmos para dialogar e muito sobre nós mesmos. Debruçarmos sobre nossos problemas, defeitos, e mazelas começando a limpar as sujeiras aparando as arestas de tudo que nos ,degrada e assim irmos nos fortalecendo, para o enfrentamento ao racismo e aos opressores Grande Axé irmão sempre ✊🏾

  8. Maravilha o texto! Pois quebra um ciclo vicioso, nociso, que resulta em feminicidios e em nossas mortes tambem; gera adoecimento mental, emocional; cria gerações sem pai. Que possamos continuar esta discussão! Que Ogun lhe abençõe pela fenda feita nos permitindo olhar noutros ângulos!

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