Posted on: 4 de junho de 2026 Posted by: Teia dos Povos Comments: 0

por Clara Alfonsina, [la abigarrada], La Paz, Estado Plurinacional de Bolivia1

Desde o dia 1º de maio, quando o secretário executivo da Central Obrera Boliviana, Mario Argollo, anunciou uma greve por tempo indeterminado, a cidade de La Paz vem enfrentando uma escassez crescente de alimentos.

Desde as regiões de Beni e Pando chegaram manifestantes, indígenas das chamadas “tierras bajas”, exigindo a revogação da Lei 1720, uma “lei armadilha” que pretendia restabelecer o latifúndio e despojar de suas terras as comunidades indígenas e camponesas. Em seguida, foram os trabalhadores camponeses e indígenas originários que fazem parte da Federação Departamental de Trabalhadores Camponeses de La Paz “Tupaj Katari”, mais conhecidos como “la Tupaj”, que se juntaram às medidas de pressão, enquanto na cidade se juntavam os professores do ensino rural e, em seguida, o setor de transportes aderiu às mobilizações, fruto de um descontentamento social acumulado, não apenas pela escassez de gasolina e diesel, mas pela “gasolina de baixa qualidade” que o governo introduziu e que destruiu seus automóveis.

O objetivo de todos os setores mobilizados é o mesmo: exigir que o governo de Rodrigo Paz Pereira governe para o povo e não apenas em benefício das elites que hoje compõem seu governo e que, em seis meses de mandato, deram sinais de estar distantes das demandas do eleitorado que possibilitou sua vitória.

Tenho certeza de que vocês já sabem disso, mas essa introdução é necessária para que eu possa escrever sobre o que não é visível, sobre o que não se fala, o que permanece imerso no cotidiano da vida da cidade e se mistura entre verduras, frutas, sacolas de compras e moedas de troco: o trabalho de cuidar da cidade.

Enquanto tudo isso acontece em La Paz, uma rede social — não digital — entrou em ação: as vendedoras nas feiras já perceberam a escassez e estão colocando à prova seus conhecimentos para conservar e priorizar os produtos. Elas conservam os vegetais da melhor maneira possível para evitar que se estraguem e priorizam certos produtos em detrimento de outros, a fim de manter os preços acessíveis.

Alguém dirá: “Mas é claro que elas sabem disso, é por isso que lhes pagamos”.

Sim, Rodrigo, mas esse trabalho basado em conhecimentos transmitidos de geração em geração, não é algo que qualquer pessoa na cidade saiba fazer. E é justamente esse o valor que adquirimos: frutas e verduras frescas e em bom estado. É por isso que pagamos: pelo cuidado, pela informação e pelo conhecimento que essas mulheres — as chamadas “caseras” — oferecem e com os quais se sustenta a vida na cidade.

Normalmente, uma vendedora, que comercializa o produto final na feira local, precisa acordar às cinco ou seis da manhã e ir às feiras principais em Villa Dolores, Chamoco Chico ou do Tejar, para “garantir” verduras e frutas frescas, que mais tarde são vendidas e chegam às nossas casas. O valor do esforço dessa mulher — dessas mulheres — é o que não se percebe e muito menos se valoriza. É por isso que esses dois ou três pesos a mais que pagamos compensam esses esforços.

Mas será que estamos realmente compensando esse esforço?

É bem sabido, ou talvez mal conhecido, que nos arredores da cidade de La Paz existem centros de produção agrícola que fornecem alimentos, mas que muitas vezes não abastecem os consumidores da chamada “Hoyada” – o vale que abraça o centro da cidade de La Paz.

As produtoras de Río Abajo, Chicani, Chinchaya, Hampaturi, Achocalla, entre outras, fazem parte de organizações sociais e sindicatos agrícolas. Pois é, bem perto da nossa cidade, onde vivemos uma profunda individualidade, elas resistem, persistem e sobrevivem em terras comunitárias que têm uma finalidade social: a de alimentar uma cidade: a metrópole de La Paz.

Essas mulheres e homens que trabalham a terra, que produzem de forma orgânica e com um senso de cuidado pela terra, e o fazem da maneira mais silenciosa, são eles que nos alimentam, nos dão vida e colocam em nossas mesas o raminho de coentro, de salsa, de manjericão, rabanetes, alfaces, acelgas, cebolas, feijão e ervilhas. Esses “pacotinhos” que compramos por dois ou três pesos bolivianos são os que chegaram até nós para viver.

Essas mesmas mulheres que compõem o sistema de cuidados e abastecimento alimentar das cidades são as que hoje exercem seu direito de protestar contra a injustiça, o desrespeito e o racismo que se agravam em conjunturas e momentos como aquele que estamos vivendo.

Não escrevo este artigo com o objetivo de descrever ou investigar as razões por trás disso, mas sim para lembrar aos moradores de La Paz quem são as pessoas que hoje fazem parte das cadeias de abastecimento alimentar, que cuidam para que não nos falte nada e que garantem a alimentação da “nossa” cidade. 

“A solidariedade não se impõe, ela se cultiva e se compartilha”.

Essa frase resume uma ética territorial. As mulheres e os homens que fazem parte desse sistema de cuidados não agem por caridade nem por uma obrigação moral abstrata, mas por uma reciprocidade construída no dia a dia. O que hoje levam para La Paz, amanhã retorna à comunidade na forma de ferramentas, sementes, remédios ou simplesmente no reconhecimento de que seu trabalho é reconhecido e valorizado. É uma rede de intercâmbio, mas hoje quero chamá-la também de uma rede de afetos que desafia a frieza das cadeias de abastecimento convencionais.

Não é por acaso que são elas que se mobilizam. Quem sustenta a vida cotidiana sabe melhor do que ninguém o que acontece quando essa vida se torna insustentável. É por isso que uma vendedora “casera”, que trabalha na feira com sua “wawa” – sua criança – no colo e depois vai para a manifestação, não faz distinção entre cuidar e resistir, entre plantar e exigir que sua dignidade e seus direitos sejam reconhecidos.

As cidades não existem por causa dos supermercados cheios de enlatados, mas por causa dessas redes silenciosas que esperam nas feiras de rua e nos mercados com frutas e verduras frescas todas as manhãs, antes mesmo de alguém acordar.


Clara Alfonsina é neta de avós aimarás e quíchuas, feminista antipatriarcal, psicóloga e mãe. É colunista da plataforma [la abigarrada] www.laabigarrada.com . Instagram: @la_abigarrada

Fotografia: Mauricio Aguilar, “Passeata de mulheres organizada pela Central Obrera Boliviana por ocasião do Dia das Mães na cidade de La Paz”
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  1.  Clara Alfonsina é neta de avós aimarás e quíchuas, feminista antipatriarcal, psicóloga e mãe. É colunista da plataforma [la abigarrada] www.laabigarrada.com . Instagram: @la_abigarrada ↩︎

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