
No estado da Bahia, a luta pela terra ganhou força com a chegada do MST. De 1987 a 1988, essa luta concentrou-se principalmente no extremo sul do estado. Em 1989, o MST decidiu expandir suas ações para todo o território baiano, um momento crucial, pois estávamos cercados pelo movimento de latifundiários – União Democrática Ruralista (UDR) no extremo sul da Bahia e precisávamos romper esse cerco. Foi então que seguimos para o sul da Bahia e ocupamos a primeira terra em Camamu, na Fazenda Mariana, replicando a estratégia de ocupar terras marginais, similar ao que fazíamos no extremo sul, com foco na produção nas terras ocupadas na região cacaueira.
Em 1991, decidimos ocupar terras férteis, próximas aos grandes centros e às BRs. Essa decisão estratégica levou, em 1992, à ocupação da Fazenda Bela Vista, no coração da região cacaueira, próxima a Camacã e Itabuna-BA. Essa mudança qualificou o enfrentamento, colocando-nos frente a frente com as elites cacaueiras e a UDR. Essa sofisticação no enfrentamento nos permitiu retomar terras produtivas. O Assentamento Terra Vista tornou-se um marco histórico na luta pela terra na região cacaueira, ocupando 913 hectares no município de Arataca, Bahia.

Essa decisão nos colocou em confronto direto com latifundiários, a mídia e as forças repressivas do estado, juntamente com o poder judiciário. A terra, espólio do coronel Elias Cavanhaque, era administrada por suas três filhas, residentes no Rio de Janeiro, na Avenida Vieira Souto. Elas contrataram o renomado escritório de advocacia do Dr. Carlos Burgo, em Itabuna, para enfrentar as 360 famílias que, em homenagem às mulheres, iniciaram a ocupação em 8 de março de 1992.
Foram cinco despejos, prisões e torturas, mas os Sem Terra resistiram. Em março de 1993, restavam apenas 28 famílias. Realizamos uma viagem a Brasília e ocupamos o Ministério da Economia, resultando no decreto de desapropriação por interesse social. Em julho de 1994, a posse foi concedida a 100 famílias. A vitória do Terra Vista transformou a conjuntura de uma região em crise, marcada pela vassoura-de-bruxa e pela luta de posseiros em Canavieiras e Poxim Sarampo.

Essa vitória foi possível graças a diversas alianças, incluindo a Igreja dos Pobres (Teologia da Libertação), liderada pelo bispo Dom Paulo, a CUT cacaueira, o Partido dos Trabalhadores, o Sindicato Rural de Arataca (liderado por Nicodemos e Marlon Brandon), o Sindicato dos Comerciários de Itabuna, o PCdoB (representado por Angélica e Denise) e muitos outros que nos apoiaram anonimamente.
A partir daí, o MST da Bahia expandiu-se para sete regiões do estado. Durante a crise do Banco Econômico, ocupamos terras de Ângelo Calmon de Sá e da família Mendes Sá. Essa conquista incentivou grandes lutas contra o poder judiciário e os governos estaduais, colocando em pauta a questão do latifúndio improdutivo e produtivo. O Assentamento Terra Vista despertou a luta dos povos indígenas Tupinambá e Pataxó Hã Hã Hães, que, desde 1986, retomaram a luta pelas suas terras, culminando na conquista de 54 mil hectares em 2012. Essa trajetória demonstra a importância da vitória do Assentamento Terra Vista para a retomada de terras e territórios na Bahia.

Em 1995, retomamos o enfrentamento da questão produtiva, buscando ocupar terras próximas às BRs e aos grandes centros consumidores, com o objetivo de fortalecer a aliança entre campo e cidade através dos produtos da Reforma Agrária. Conquistamos o crédito do PROCERA, um programa de crédito específico que fortalecia os assentamentos de Reforma Agrária. Considerado por muitos como o melhor programa de crédito criado em 1985, o PROCERA foi desmantelado por governos de direita, que o substituíram pelo PRONAF. Este, por sua vez, com suas burocracias, dificultou o acesso ao crédito tanto para a agricultura familiar quanto para os assentamentos.
Em 1999, o desenvolvimento dos assentamentos foi paralisado e a reforma agrária estagnou, um golpe sentido profundamente na Terra Vista. Enfrentamos uma crise silenciosa, pouco conhecida, mas que se transformou em uma experiência valiosa para renascermos das cinzas. Diante desse cenário desafiador, o Assentamento Terra Vista buscou alternativas, iniciando a transição agroecológica, um processo que continua a florescer após 25 anos.

Em 8 de março, completaremos 33 anos de luta e resistência. Desde 2000, estamos em transição da agricultura convencional para a agroecologia popular, um processo contínuo de debates, estudos, pesquisas participativas, diálogos e enfrentamentos. Buscamos incansavelmente que a sociedade, as famílias assentadas e a militância compreendam o verdadeiro significado da agroecologia.
As fotografias testemunham a intensidade dessa transição, que visa encontrar caminhos e um modo de vida mais simples e sustentável, capaz de promover a coletividade, a tranquilidade e a prosperidade econômica, sem explorar a natureza, fortalecendo os laços comunitários. Nesse sentido, muitos já reconhecem a importância dessa transição e da necessidade de considerar as realidades locais e realizar estudos aprofundados sobre a região.
Nesse conjunto de ações, os desafios serviram para o aprendizado. Desde 2010, propomos um programa não só para o assentamento, mas para a região cacaueira, visando recuperar 200 mil hectares de cacau cabruca e implantar 200 mil hectares de sistemas agroflorestais, beneficiando 92 municípios e 32 mil famílias. Para superar a crise da vassoura-de-bruxa, é necessário unir os movimentos sociais, povos originários e agricultores/as da região.

Acreditamos que, juntos, podemos superar a crise e construir um futuro virtuoso, combatendo a fome e a pobreza, promovendo educação, ciência e pesquisa, assim como demonstra o exemplo do Assentamento Terra Vista – um espaço de resistência e transformações cotidianas. Ao considerar essa sequência de ações, podemos constatar que o ‘sentido’ da ocupação de terra no Assentamento Terra Vista vai além da simples posse da terra. Envolve a busca por justiça social, a retomada e construção de um modo de produção autônomo, coletivo e culturalmente rico. A vitória do Assentamento Terra Vista pode inspirar a construção de riqueza social e ambiental e a retomada da luta pela terra, através da agroecologia e da educação, envolvendo campo e cidade em um projeto de enfrentamento às emergências climáticas, deixando um legado de riqueza e força para as futuras gerações. Valeu a pena, e esperamos que outras Terra Vistas ressurjam.
Viva os 33 anos de existência, resistência e luta!
Joelson Ferreira Oliveira
Solange Brito Santos