Posted on: 11 de março de 2025 Posted by: Teia dos Povos Comments: 0

por Priscila Fazio Rabelo

Assim como as plantas brotam das rachaduras do concreto, formas de existir, aprender e ensinar também brotam em um contexto marcado pela dificuldade de imaginar um mundo por vir. Assim também são os rios avôs que num movimento espiralar (re)brotam nas terras férteis das matas curadas, das agroflorestas a partir da consolidação de uma aliança cosmológica entre seres humanos, não humanos e mais-que-humanos. 

O que quero ressaltar é que se, por um lado, estamos diante de um contexto marcado pela precariedade global (Tsing, 2022), pelas mudanças climáticas, pela anunciação do fim do mundo, ou seja, um contexto marcado desde a colonização, pela violência disseminada pelo par Capitalismo/Estado que tem como fundamento, o que Malcom Ferdinand (2022) chama de habitar colonial, uma forma específica de habitar o mundo que é em sua própria constituição uma forma escravagista e ecocida. Mas também, como diria o mestre Nêgo Bispo (2023) cosmofóbica. Por outro lado, vivemos diante de um contexto marcado pela intensificação das retomadas de terras e territórios (Ferreira e Felício, 2021; Andrade, 2021). Isso significa também atentar que mesmo perante um Estado que reatualiza a colonização (Santos, 2015), uma pluralidade de povos em movimento confluem em um processo insurgente de retomada. 

Aqui em solo afropindorâmico a retomada acontece, como lembra Nêgo Bispo, desde o início da colonização. Essas retomadas vão sendo tecidas a partir da confluência de modos, pensamentos e alianças cosmológicas entre indígenas, povos da diáspora africana e outros seres. Nêgo Bispo ainda fala de outros dois movimentos de confluências, o segundo a partir da constituição de 1988 frente discussão sobre a regularização de terras e o terceiro que nos últimos anos, que vem acontecendo tanto dentro dos próprios territórios, como também na atual intensificação das retomadas de terra.ed

As retomadas acontecem em diferentes camadas: da terra ao corpo; do território à identidade; dos sonhos aos encantados. Nesse processo vai se tecendo a reafirmação de um modo de vida que tem como horizonte o bem viver, o respeito à Mãe-Terra,  a responsabilidade e solidariedade com seres humanos, plantas e animais, mas também com a terra, a água, elementos fundamentais para a continuidade da vida. A reafirmação desse modo de vida orgânico e integrado à natureza é tecido a partir dos processos de aprendizagem e ensino. Isso significa que em meio às ruínas que constituem o mundo o qual o conhecemos, mestras e mestres em comunhão com outros seres vão plantando e manejando uma prática pedagógica insurgente. E aqui, compreendo a insurgência enquanto práticas coletivas e individuais de reação e resistência frente a violência do Estado/Capital como também outras estruturas de dominação como o colonialismo, o especismo, o racismo, a misoginia, a transfobia, o capacitismo etc. 

As práticas pedagógicas insurgentes são tecidas nos próprios processos de luta por terra e território. Como lembra mestre Joelson (2021, p.38)  a luta singular de cada território ensina: seja o respeito pelo mar na luta das comunidades pesqueiras, o respeito e reverência aos orixás nos terreiros ou ainda a indivisibilidade entre o corpo e a terra pelos povos indígenas. Além disso, como o mestre nos ensina um mutirão, a construção de uma horta, a confecção de uma panela de barro são experiências pedagógicas, assim como brincar no rio é didático. 

Somos também contemplados com a presença viva de Mestra Mayá, educadora fundamental no processo de retomada e de práticas pedagógicas insurgentes. A educadora da etnia Tupinambá de Olivença, que nasceu em meio a dois massacres, ouviu o gemido da terra, ensinou e cantou guiada pelos encantados e caminhou tecendo escola e “sala de aula” por 396 retomadas. Mestra Mayá, em Escola da Reconquista (2021), nos lembra do grande poder da música na sua prática de ensino, da importância fundamental de escutar anciães e anciões, e que, nas retomadas a escola vai se tecendo caminhando de casa em casa. Foi assim que a mestra foi se transformando numa professora andarilha e tecendo a educação “trabalhando, caminhando, cantando e conversando” (Andrade, 2021, p.62). Nas beiras dos rios, embaixo das árvores, em casas de farinhas, em um grande curral que pertencia à nossa comunidade.” (Ibidem, p.63). A mestra lembra que diante o ataque de pistoleiros e fazendeiros quem a ajudou no trabalho de educação foram os seres ancestrais, os seres espirituais” (Ibidem, p.66)

Outras duas contribuições pertinentes a essa discussão são as publicações dos livro Composto Escola (2022) e Terra: Antologia afro-indígena (2023), que resgatam tanto o fechamento das mais de 60 mil escolas em áreas rurais nos últimos 20 anos, como também abordam a necessidade de considerar outros seres para além do humano como agentes no processo pedagógico. Esses livros apresentam experiências em diferentes territórios que destacam outros elementos e seres na construção de pedagogias insurgentes, como é o caso do Barro e do Jenipapo para o povo Xakriabá, em que o Barro é tanto corpo  do território, como também morada da alma e o Jenipapo é um elemento fundamental na preparação do espírito, no fortalecimento da identidade e da forma de fazer educação indígena no cotidiano deste povo. Em Composto Escola, Glicéria Tupinambá defende que o conhecimento vem de um processo de escuta dos seres que compõem a natureza e que os ensinamentos são transmitidos pelos encantados e pelo cosmos. Além disso, é importante destacar que a educadora tem feito um trabalho de revitalização sobre o modo de vida Tupinambá também a partir dos sonhos. 

Se estamos considerando que uma educação emancipadora, crítica e, portanto, insurgente é tecida a partir de uma aliança cosmológica entre uma pluralidade de seres, também temos que considerar que há, nesse processo pedagógico, múltiplas temporalidades. Práticas pedagógicas insurgentes, que rompem com a mentalidade moderna e colonial são tecidas a partir das temporalidades diversas: o tempo do Barro, do Jenipapo, das Águas, das Penas. Essas temporalidades multiespécies em movimento espiralar tecem um saber orgânico que é compartilhado: a planta ensina e também aprende, inclusive a sobreviver em ambientes hostis, assim como os vírus. 

Diversos territórios em retomadas têm nos últimos anos resgatado o cuidado da terra a partir do que Mestre Joelson chama de agroecologia contra-hegemônica, que é fincada na prática e está intimamente ligada aos povos originários e ao povo preto. Nesse sentido o mestre defende que a partir da  agroecologia contra-hegemônica podemos recriar um modo de vida e um modelo de escola em que “a escola é o assentamento e o assentamento é escola”, ou seja, indicando que não há separabilidade entre escola e território. (Firmeza, et. al; 2022, p.42). Se não há separabilidade entre escola e território, também não há separabilidade entre corpo e terra ou do próprio tempo. Diferente do tempo que rege a escola oficial, a partir de uma educação bancária e instrumentalista que tem como seu fundamento um projeto político pedagógico pautado pela concepção de finitude, o tempo espiralar, circular tanto dos povos contracoloniais quanto da própria dinâmica das florestas é um tempo insurgente diante a tirania do relógio. 

Se o modo de vida dos povos indígenas, pretos e que lutam por terra e território são tecidos por práticas insurgentes e se estamos diante da dilatação da ferida colonial e ambiental, a agroecologia contra-hegemônica aparece não como uma resposta paliativa, até porque o processo de cura da Mãe-Terra não é imediato. A partir de práticas pedagógicas insurgentes e anti-especistas caminhamos para a consolidação de saberes e conhecimentos que lembram que fazer mundos não é algo exclusivo dos seres humanos, isso porque, como pontua Anna Tsing, esses “projetos de fazer-mundos surgem de atividades práticas do fazer da vida” (Tsing, 2021, p.66). Isso significa dizer que todos os organismos, vivos e não vivos são capazes de criar refúgios de habitabilidade diante de um mundo em ruínas. 

Em território Afropindorâmico, uma das articulações que tem se destacado na produção de conhecimento e práticas pedagógicas insurgentes é a própria Teia dos Povos, Como ensina mestre Joelson “Cada pedacinho de terra, cada território que conquistamos, queremos transformar com a ciência da agroecologia na prática, no dia a dia. Aprendemos com as formigas, com os passarinhos, com as árvores. Eles nos ensinam como se faz a transição, como se morre para dar vida a outros seres, como se faz a biodiversidade” (Carnevalli, et. al; 2023, p.66). Além disso, mestre Joelson nos lembra que, na sociedade ocidental, as pessoas são orientadas por uma lógica capitalista e educadas como se fossem superiores a natureza, esse direcionamento legitima práticas de destruição e ausência de cuidado com a terra. Nessa caminhada, Joelson defende que somos partes da terra e não seus proprietários, além disso lembra que a terra é viva, embora não seja isso que aprendemos na escola. 

A terra é viva e o saber é orgânico. É  nas retomadas e ocupações que vão se tecendo saberes e modos de vida que tem como fundamento o respeito a Mãe-Terra, a luta por terra e território, a solidariedade, o envolvimento, o compartilhamento e o bem viver. Também importa destacar que para além do fundamento da luta no coração dessas práticas pedagógicas, essa insurgência não se resume a seu caráter combativo e de resistência ativa à colonização contemporânea, ao epistemicídio e ao neoextrativismo da agropecuária e da mineração. Essas práticas pedagógicas também tecem a reconexão espiritual com os territórios sagrados e conduz ao exercício de imaginar outras possibilidades de vida diante das ruínas do mundo moderno. 

ANDRADE, Maria Muniz de  (Mayá). A escola da reconquista. Maria Muniz de Andrade

(Mayá); organizado por Rosângela Pereira de Tugny – Aracata, BA: Teia dos Povos,

2021.

CARNEVALLI, Felipe et al. (Ed.). Terra: antologia afro-indígena. Ubu Editora, 2023.

FERDINAND, Malcom. Uma ecologia decolonial: pensar a partir do mundo caribenho.

Ubu Editora, 2022.

FERREIRA, Joelson; FELICIO, Erahsto. Por terra e território: caminhos da revolução dos povos no Brasil/ Joelson Ferreira, Erahsto Felício; prefácio de TünyCwe Wazahi Tremembé (RosaTremenbé). – Arataca (BA): Teia dos Povos, 2021.

FIRMEZA, Yuri, [et.al.]. Composto Escola: comunidades de sabenças vivas – São Paulo:

N-1 edições, 2022.

SANTOS, Antônio Bispo dos. Colonização, Quilombos, Modos e Significações. Brasília: INCTI/UnB, 2015.

_______________________. A terra dá, a terra quer – São Paulo: Ubu Editora/

PISEAGRAMA, 2023.

TSING, Anna. O Cogumelo no Fim do Mundo: Sobre Possibilidade de Vida nas

Ruínas do Capitalismo. N-1 Edições, 2022.

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