
Por Carlos Ribas
Joelson Ferreira (22/08/1961) é um professor visitante da UFBA, na condição de Doutor por Notório Saber, e intelectual orgânico dos movimentos populares de luta pela terra. A nomeação como docente ocorreu pelo Instituto de Humanidades, Artes e Ciências (IHAC), através do Programa de Pós Graduação em Cultura e Sociedade, mediante edital da Pró-Reitoria de Extensão (Proext). Notório Saber é um título conferido por uma instituição universitária por reconhecer o saber de membros da comunidade que não possuem trajetória acadêmica, mas são detentores de notórios conhecimentos tradicionais ou artísticos.
Joelson é um dos fundadores do MST(desde 1988) e militou no processo de ocupação do Assentamento Terra Vista. Hoje ele é um dos assentados no município de Arataca, sul da Bahia. Lá, ele idealizou e participou da construção de duas escolas de ensino fundamental, médio e técnico. Uma leva o nome do professor e sociólogo Florestan Fernandes e a outra homenageia o geógrafo e professor Milton Santos. Joelson também é um dos fundadores da “Teia dos Povos” uma articulação comunitária com foco na luta pelo direito à propriedade da terra. Como professor da UFBA traz profícua experiência de mobilização de povos e agrupamentos tradicionais, “na luta pela terra, território e agroecologia, em defesa da autonomia pedagógica e soberania alimentar, no enfrentamento à fome (com a Rede de Sementes nativa-crioulas), e ao latifúndio”, conforme lê-se em https://ihac.ufba.br/pt/44111/

Sua titulação de doutor em Arquitetura e Urbanismo por Notório Saber foi concedida pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) em 2021. Mestre Joelson foi contratado pela UFBA em regime de dedicação exclusiva, por tempo determinado, mediante “Edital Interno 01/2023 – IHAC – Chamada para Processo Seletivo para Apresentação de Candidaturas do IHAC ao Edital Professor Visitante Notório Saber 2023 PROEXT/UFBA”.
O edital, ao qual concorreu, faz parte do Programa de Saberes Tradicionais e busca fortalecer projetos de Ação Curricular em Comunidade e em Sociedade (ACCS), a curricularização da extensão e as relações da UFBA com comunidades, territórios e demais setores da sociedade. Ao todo foram selecionados seis mestres e mestras: a mestra Japira Pataxó, mestra Mayá, Ricardo Aleixo, mestre Nô, Ítala Nandi, além de mestre Joelson, todas e todos entrevistados/as pelo Edgardigital (doravante ED) para a série “UFBA: um notório saber a mais”

Mestre Joelson (doravante MJ) atua na UFBA com atividades de ensino, pesquisa e extensão, sob a coordenação da professora Letícia Marques e supervisão de do professor Felipe Milanez, que indicou e apoiou a contratação do Mestre, e a realização dessa entrevista. Esta reportagem está ilustrada com imagens do Coletivo de Comunicação da Teia dos Povos, cedidas por um dos seus integrantes, o comunicador popular Bruno Meira. Vamos a ela, então.
ED Bom dia! Fale-me um pouco sobre sua infância, seu pai, sua mãe, sobre outras pessoas importantes para a sua formação.
MJ Bom dia! Meu nome é Joelson Ferreira de Oliveira. Eu sou filho de José Oliveira Xavier, apelido “Zélito” e Maria de Luz Ferreira de Souza, que é minha mãe. Tenho o maior orgulho deles, que foram grandes exemplos para mim, como parte da minha formação. Outra pessoa importante foi o meu tio Ananias, que era uma pessoa letrada, farmacêutico da Farmácia Chile, aqui em Salvador. Ele era um homem que fazia três coisas importantes para nós na infância: contar história, ler a “gazeta”, mesmo antiga, 4, 5 meses, mas ele lia o jornal e ele também cantava. Então, a nossa vida foi assim: ao redor na fogueira, ele contando histórias e depois cantando para alegar a gente lá em Nova Alegria. Eu nasci em Nova Alegria, município de Itamaraju.
ED Seu pai era um contratista. O que faz um contratista?
MJ Contratista é uma pessoa que trabalha por contrato. Os coronéis do cacau chamavam “Zé”, “ô Manoel”, “ô Felipe”, ”vá abrir a mata, “broca” “a mata para plantar cacau”. Então, faziam um contrato. E nos quatro anos que o cacau começava a “botar”, já estava pronta a área de plantação. E levava aquele contratista, que plantou bem o cacau, que cuidou bem da roça, então eles levavam para plantar cacau em outra região. Faziam outro contrato. Se você comprasse na loja deles, no armazém, que é melhor dizendo, se você comprasse muito, você ficava sem saldo. Se você não comprasse, você ficava com saldo. E tinha que negociar de uma forma muito pacífica para não perder o apoio do patrão. Então, aí ele dava outra área para você plantar cacau. Então, contratista era isso.]
ED Sua mãe fazia o quê?
MJ Minha mãe cuidava da gente. Ela cuidava da casa, cuidava das coisas. Até a gente ir para a terra. Quando íamos para a terra, minha mãe também era agricultora e ajudava meu pai.
ED Você vai para São Paulo com 18 anos, o que foi fazer?
MJ Eu fui primeiro trabalhar de office boy. Naquela época não tinha motoboy, era office boy. E eu trabalhei um ano e três meses entregando passagem de avião para as empresas, para aquelas pessoas que tinham dinheiro e condições de viajar de avião. Eu fico um ano e três meses também desempregado. E aí participei do movimento de luta do desempregado contra o desemprego. Nesse processo de São Paulo, eu passei a ser operário. Trabalhei no Brooklin em uma fábrica de fazer chaves. Depois fui para uma fábrica de produção de alimentos, no largo 13 de maio. Depois fui trabalhar na oficina de marcenaria do meu primo. E trabalhei lá um tempo. E, como eu vi que a questão das coisas não iam para frente em São Paulo, eu decidi voltar para a Bahia em 86, em dezembro de 86.

ED Ok! Diga-me uma coisa, Joelson. Como é que você, hoje em dia, consegue conciliar, juntar tudo, a pessoa que continua trabalhando no campo, um agro ecologista, com a militância política, na condição de liderança de movimentos sociais e agora ainda mais o magistério?
MJ Meu tempo em São Paulo foi um tempo maravilhoso! Eu aproveitei tanto a questão de trabalhar, mas também a questão de militar. Eu comecei a minha militância na Fundação do Partido dos Trabalhadores e da CUT. E, nesse tempo, estava uma efervescência muito grande, que era ali o início da redemocratização do Brasil. Então, isso foi importante para mim, essa participação. Estava um debate muito grande das esquerdas sobre o processo de recomeçar de novo. Então, foi um momento muito importante. Mas eu nunca deixei também as minhas origens do campo. Meu pai era um homem da terra. Ele sabia que, para a gente ter liberdade, era preciso ter terra. Ele dizia que, sem terra, não tem liberdade. O negro só tem liberdade quando ele passa a ter terra. Porque terra é poder. Meu pai falava que terra é poder.

Um pulo atrás no tempo
MJ Depois dos anos 70, o PCdoB tinha vários pontos de guerrilha naquela região. E o Exército Brasileiro estava investigando tudo isso. Um belo dia chegou um tenente-coronel do Exército, investigando lá, mas sem falar nada. Meu pai não sabia que ele estava ali investigando. Uma bela noite, ele perguntou ao meu pai: “o que você vai deixar para os seus treze filhos, Sr. José?” Meu pai respondeu: “vou comprar muita terra para deixar para meus filhos. Todos vão ter o seu pedacinho de terra. Porque eu sei que terra é poder e terra é liberdade”. Aí, o tenente-coronel ameaçou: “Pois é, Sr. José, meus filhos estão todos estudando lá em Salvador. E eles vão vir aqui tomar a terra dos seus filhos, se eles continuarem analfabetos”. Meu pai não disse nada, só observou. No outro ano, ele pegou nós todos e levou para estudar em Guaratinga. A gente já estava letrado, porque minha mãe ensinava a gente o letramento. Mas ele queria agora que a gente se formasse. O sonho dele era ter um filho doutor.
ED Bela história Joelson, mas me conte outra. Lá em Minas, o título de Doutor por Notório Saber foi conquistado na área de Arquitetura e Urbanismo. Isso me chamou a atenção, porque onde está a ligação da arquitetura e do urbanismo com suas atividades no assentamento?
MJ Eu venho fazendo um trabalho no MST com essa questão da Agroecologia. Na área em que eu moro, nós temos 24 anos de transição agro ecológica. E lá, a gente foi fazendo um paisagismo. Foi fazendo um trabalho de embelezamento do assentamento e também dessas questões das matas ciliares, recuperando nascentes. Então, a gente fez uma paisagem modesta parte, muito bonita no assentamento. Quando a gente (de Minas) chega para essa questão da titularização na UFMG, o pessoal já tinha vindo cá e conhecido a paisagem que a gente construiu “do nada” Então nos acolheu com uma bondade muito grande. Como é que se deu a ocupação da Fazenda Bela Vista?

MJ A ocupação da Fazenda Bela Vista, que hoje é o assentamento Terra Vista se deu no auge da “quebra” dos fazendeiros pelo fungo da “vassoura de bruxa”. Então, os fazendeiros já estavam todos “quebrados”. Se não fosse a “vassoura de bruxa” teria sido impossível, nós entrarmos naquela região. Mas, com a “quebradeira” dos coronéis, a fazenda ficou abandonada. E aí, nós estávamos no sul, presos lá no extremo sul, cercados pela Polícia Militar, quando tomamos a decisão de vir para a Bahia toda, ocupar a terra na Bahia inteira. E a primeira parada foi em 1992, na Fazenda Bela Vista, que foi ocupada por 360 famílias. Hoje tem 55 famílias lá.
ED Essa diminuição é natural?
MJ É pelo processo de despejo. Nós sofremos cinco despejos, muita repressão, muito preconceito. Toda vez que a polícia vinha, derrubava tudo, queimava nossos barracos, destruía tudo. E aí, as pessoas que tinham uma casa para morar na cidade, foram desistindo disso, foram embora. Quando nós terminamos o processo de ocupação e que a área passa a ser de interesse social, só sobravam 28 famílias. Nós tentamos buscar as famílias que tinham desistido para engrossar o caldo. Chegamos a 75, mas chegou um tempo também que as pessoas queriam medir a terra “pelo quadrado burro do INCRA”, como a gente chama: 25 hectares para cada família. Se fossem dividir 903 hectares pela quantidade de famílias, daria para assentar 12 famílias. Nós tínhamos 75. Então nós fizemos um acordo, arrumamos outra área, melhor até do que o solo lá da Terra Vista, e essas famílias restantes foram morar no outro assentamento. E a gente ficou livre para fazer o processo que a gente acreditava e que acredita até hoje.

Volta para a terra
ED Certo. E como nasceu a “Teia dos Povos”
MJ A “Teia dos Povos” é algo que todo dia estou pedindo a Oxalá que o MST entenda. A “Teia dos Povos” como a gente chama, é tudo e é nada. Estamos nesse processo tentando construir uma aliança dos povos. Nós estamos entendendo que um movimento só não dá conta disso, dessa responsabilidade sobre a posse da terra. Tem 524 anos que o processo da terra é um processo de colonização e chegou um tempo agora, com a evolução do capitalismo, que não existe mais condições de um movimento só resolver esse problema. Se a gente for olhar para a esquerda, a esquerda abandonou essa pauta. Se a gente vir para as universidades, também essa pauta foi abandonada. Então nós estamos praticamente sozinhos e nenhum movimento sozinho tem condições. Daí surge a necessidade da construção da “Teia dos Povos”, que é uma tentativa de construção de uma aliança entre os povos. Os povos indígenas, que são os herdeiros dessa terra, os donos dessa terra. Os povos da diáspora africana que vêm para aqui, durante a escravidão e que hoje é a grande população dos grandes centros urbanos, que inclusive, na minha visão, hoje não tem necessidade desse povo estar na cidade, porque agora com o avanço da ciência e da tecnologia, a questão do desemprego vai ser muito difícil. Então é uma competição muito grande. E a gente não tem condição de manter essas pessoas. Nós mesmos estamos defendendo que 50% dessa população, para nos equilibrar a cidade, têm que voltar ao campo, para a gente sair dessa situação que nós estamos vivendo hoje [… E esse pessoal que se afastou da terra, era um pessoal ligado muito à natureza, também quando chega lá na cidade se afasta de Deus] [… Nós queremos um rural compatível com as condições que a gente tem necessidade para avançar no mundo de hoje]. Com ciência, tecnologia, com casa boa para morar, com dignidade, com cultura. Tudo o que a humanidade construiu nós também queremos ter porque nós fizemos parte dessa construção.
ED No processo pedagógico traçado para as suas aulas na Universidade Federal da Bahia, foram destacados quatro eixos: valor, barro, trabalho e vida. Fale um pouco sobre o porque das escolhas
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Edgardigital
Quatro eixos de pensamento que serão desenvolvidos em uma perspectiva transdisciplinar, com potencial para dialogar com diferentes espaços na UFBA, inicialmente acolhido no Pós-Cultura e no IHAC: valor (repensar e construir uma nova linguagem de valoração); barro (aprender a trabalhar o chão, construir a casa, a moradia); trabalho (repensar a forma fundamental de produção da riqueza) e vida (a defesa da vida em sentido amplo frente ao Capital). Estes quatro eixos irão compor o método de seu trabalho em torno do conceito de terra/território, onde a UFBA se constituirá em um território, e desde esse posicionamento, em diálogo com outros territórios, como do Assentamento Terra Vista. Ver mais em Plano_de_Trabalho_Joelson_Ferreira_final.pdf

MJ Para nós o princípio fundamental é a terra, é o território. Esse é um princípio que a gente não pode negar e não pode desconsiderar, porque através desse princípio a gente pode chegar ao meio e ao fim. A outra questão é que a gente precisa ressignificar a questão do trabalho, para construir a riqueza. E sem o trabalho humano não tem riqueza. Então nós precisamos valorizar essa questão do trabalho, mas não o trabalho escravo. É um trabalho livre para a reconstrução humana. O outro é o valor da mercadoria. Nós precisamos produzir uma mercadoria com valores grandiosos, por exemplo, nessa área da agroecologia. Uma mercadoria que tenha um valor agro ecológico, que seja sem veneno, que seja um alimento que você coma e o outro irmão seu também coma, sem nenhum prejuízo para a saúde. O valor da terra no agronegócio, ele acaba com a terra, destrói a terra e depois vai para outro lugar. Nós não podemos fazer isso. Nós temos que cuidar da terra, cuidar da natureza, para que a natureza também nos reconstrua e também faça o solo ficar bom para produzir alimentos bons.
ED Joelson suas aulas são em Salvador e em Arataca?

MJ Nós tivemos a felicidade de encontrar várias pessoas aqui da UFBA, que eu já venho há muito tempo dialogando, mas eu tive a sorte de vir aqui com o professor Filipe Milanês, com outros companheiros e companheiras que estamos conversando aí. A nossa vontade é que a gente fortaleça essa grande universidade que é a UFBA, cuide dessas questões com bastante carinho para que possibilite também os meninos daqui, a juventude daqui, respirar um ar também lá nas comunidades.

Um Natal com escola a vista
ED E lá vocês já construíram a Escola Florestan Fernandes…
MJ Nós já temos duas escolas. O princípio nosso, em 1983, quando a gente sofreu o quinto despejo, quando nós voltamos para a sexta ocupação, nós estávamos comemorando o dia de Natal e nós não tínhamos nada para comer. Comíamos mamão verde, banana verde e um grande “pico de jaca” que a gente matou no dia 24, que é uma serpente grande, a maior serpente lá da região do cacau. Não tinha nada o que falar para 28 famílias com fome dessa cidade. Então a gente fez um compromisso que quando a gente ocupa uma terra, a primeira coisa que a gente faz é uma escola de lona preta. Nós temos que construir uma escola para nossos filhos se tornarem doutores. E nesse sentido, em 94, quando a gente recebe a emissão de posse, nós separamos a melhor casa da fazenda para construir essa escola. Nós também tínhamos esse compromisso com o “finado Cabelinho” que morreu três meses depois que nós chegamos na terra, um aposentado que nos ajudou muito. Daí construímos essa escola, que chamamos de Florestan Fernandes. [… Depois nós construímos uma outra escola que demos o nome Milton Santos é a escola da Floresta do Cacau e do Chocolate Milton Santos.] Essa escola é de nível médio e técnico e já formou a primeira turma de engenheiro agrônomo, a primeira turma de especialista em agroecologia e a primeira turma de especialização em educação do campo lá dentro do assentamento.
ED Fale um pouco das suas experiências fora do Brasil
MJ Estávamos à procura de um sistema cooperativista para tentar trazer um pouco dessas experiências, para construir aqui o nosso sistema cooperativista no Brasil do MST. Então foram várias viagens: eu tive na China, tive na Coreia do Norte, nas Filipinas, na África do Sul, tive na Venezuela na França várias vezes. Estive também em Portugal e na Alemanha.
ED Não foi a Cuba?
MJ Em Cuba eu nunca estive. Todo dia canto “mamãe eu quero ir a Cuba, quero ver a vida lá”, mas nunca tive a oportunidade de ir a Cuba. Meu filho se formou em Medicina lá em Cuba, mas no dia da formatura eu não pude ir.
ED Só para finalizar mesmo aqui, me diga uma coisa, você já foi preso?
MJ Várias vezes que eu nem conto, mas eu acho que umas 10 vezes, sempre por conta da luta do movimento sem terra, dessa coisa toda. Eu sou de uma família com uma ética muito grande, nunca mexi em coisas erradas porque minha avó Joana, me deu uma educação muito forte, muito boa, muito maravilhosa, meu pai também minha mãe. A gente é de uma família pobre, mas nunca mexeu no que é dos outros e nunca fez coisas erradas. Nosso lema é o trabalho, saber entrar saber sair, respeitar todo mundo cuidar do que a gente pode cuidar e nunca transgredir a lei, porque meu pai também dizia quando nos dava uma surra: “Olha, eu estou lhe batendo, eu sou pai, eu sei onde eu bato, mas eu não quero ver filho nenhum meu apanhar da polícia”.
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