Posted on: 28 de janeiro de 2026 Posted by: Teia dos Povos Comments: 0

Este texto é resultado de parceria entre o coletivo de comunicação da Teia dos Povos e a Agência de Notícias do Sul da Bahia (ansuba.org), projeto laboratorial do curso de Jornalismo da UFSB, com apoio do CNPq

O dia 20 de janeiro ecoa em nossos territórios como um grito de guerra e de memória. Relembrar a Confederação dos Tamoios e a passagem do cacique Aimberê para o plano dos ancestrais é, acima de tudo, celebrar o Dia Nacional da Consciência Indígena sob a ótica de quem nunca se curvou. No século XVI, enquanto a coroa portuguesa tentava transformar a terra em mercadoria e o corpo indígena em ferramenta de lucro, as nações originárias desenharam a primeira grande teia de resistência deste solo. O termo “Tamoio”, que em nossa língua antiga evoca a sabedoria dos mais velhos, não batizou apenas uma aliança militar, mas um pacto de sobrevivência entre povos que entenderam, desde cedo, que o isolamento era o caminho para a derrota.

Esta articulação foi um exemplo vivo de estratégia e diplomacia. Do litoral paulista às terras do Espírito Santo, com o pulsar da Baía de Guanabara como centro, guerreiros Tupinambás, Guaianazes, Goytacazes e Aimorés deixaram de lado suas divergências para enfrentar o invasor comum. Liderados por gigantes como Cunhambebe e Aimberê, os Tamoios não lutavam apenas contra a espada, mas contra o projeto colonial que trazia a escravização e o cercamento da vida. Eles compreenderam a geopolítica do seu tempo, formando alianças estratégicas com os franceses e transformando a costa brasileira em um território de resistência que, por mais de uma década, barrou o avanço do projeto genocida lusitano.

A história oficial, contada pelos vencedores, tenta encerrar essa jornada na Batalha de Uruçumirim em 1567, mas para nós, a derrota militar não foi o fim. O Armistício de Iperoig, usado pelos jesuítas para desarticular a força indígena, serve hoje como lição sobre as armadilhas do poder colonial que ainda tentam nos dividir. A queda de nossos guerreiros naquela época adubou a terra para que as resistências de hoje pudessem florescer. A fundação das cidades coloniais sobre o sangue de nossos ancestrais não apagou o direito originário; pelo contrário, transformou cada palmo de chão em um território em disputa, onde a memória de Aimberê se faz presente em cada assembleia e em cada retomada.

Para a Teia dos Povos, a Confederação dos Tamoios é o espelho de nossa própria caminhada. Ela nos ensina que a soberania alimentar, a defesa das águas e a proteção das florestas só são possíveis quando nos unimos em rede, respeitando a autonomia de cada povo, mas marchando juntos contra o latifúndio e o racismo estrutural. Celebrar esta data é reafirmar que o projeto colonial falhou: nós continuamos em pé. A aliança dos Tamoios vive em cada semente crioula guardada, em cada território demarcado no peito e na raça, e na certeza de que a terra é nossa mãe, e dela não sairemos. Seguimos em rede, em comunidade, transformando o luto de ontem na luta inegociável de hoje.

Além disso, a aliança dos Tamoios nos deixa uma lição crucial sobre a importância da comunicação entre as aldeias. Através das trilhas da mata e das rotas de canoas pelo litoral, as informações circulavam de forma veloz, criando uma rede de inteligência que antecipava os passos do invasor. Hoje, essa rede se traduz nas nossas comunicações populares e nas articulações entre o campo e a cidade. Olhar para o passado da Confederação é entender que a nossa sobrevivência atual depende da nossa capacidade de comunicação soberana, protegendo nossos saberes contra a cooptação e garantindo que o conhecimento dos mais velhos seja o farol que ilumina a juventude nas linhas de frente das retomadas.

Por fim, a memória de Aimberê e de todos os que tombaram na Baía de Guanabara deve servir como uma pedagogia da terra. Eles nos mostraram que a liberdade tem um preço alto, mas a submissão custa a própria alma de um povo. A Confederação dos Tamoios nos convoca a pensar a autonomia para além das fronteiras impostas pelo Estado brasileiro. Ela nos inspira a construir territórios livres onde a soberania não seja apenas um conceito jurídico, mas uma prática cotidiana de plantar, colher e celebrar a vida em liberdade. Enquanto houver um pedaço de terra sendo defendido, o espírito da Confederação estará vivo, provando que o projeto colonial, embora violento, é incapaz de silenciar a voz daqueles que são filhos e filhas deste solo

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