
O dia 27 de março de 2025 amanheceu despertando jovens e anciãs da Comunidade Kilombola Morada da Paz (Triunfo-RS) em sinal de alerta. A fumaça que preenchia o horizonte alertava: a poucos metros dali, no terreno vizinho, a queimada de galhos para o manejo do monocultivo de eucalipto continuava, e o fogo se aproximava do território.
Desde 25 de março a prática ilegal das queimadas deixava os moradores do Kilombo apreensivos pela ameaça às vidas, plantações, construções e mata nativa. As queimadas, no entanto, não são novidade. Em 2004, o mesmo tipo de manejo, no mesmo local, alastrou o fogo cerca de 100 metros adentro do território, destruindo a mata nativa preservada pela CoMPaz. Na época, nenhum órgão responsável respondeu, e o fogo teve que ser contido por mulheres, crianças e anciãs do Kilombo de Mãe Preta.
Segundo a comunidade, as tratativas com os responsáveis pelas queimadas foram hostis, e suas dúvidas não foram respondidas. A Comunidade agora aciona a polícia ambiental de Montenegro-RS (município que faz divisa com o território), assim como a Fundação Estadual de Proteção Ambiental (FEPAM) – Divisão de Fiscalização Ambiental, a Defensoria Pública e o Ministério Público Estadual, na esperança de que, diferente do episódio de 2004, sejam tomadas providências que salvaguardem a integridade física e emocional do território.
“Dá para ouvir o barulho do fogo de dentro de nossas casas. Sentimos um clima de tensão no nosso ar, que já está poluído, dá para sentir. Sentimos o impacto nele. E é uma faísca desse fogo que pega na nossa mata nativa e podemos viver um incêndio outra vez”, expôs o território.
A Comunidade Kilombola Morada da Paz engendra uma denúncia e um chamado à consciência: é preciso compreender o que significa respeitar o jeito de ser e viver de uma comunidade tradicional. Pois o fogo não conhece o limite da propriedade privada, inventado pelo colonizador. Os danos à terra, aos seres visíveis e invisíveis que ali habitam, não se limitam ao traçado imaginário da fronteira privada, oficializado pela pele de papel dos brancos, que não significa nada para o chão que arde.
Só acredita que pode manejar a “sua” terra do jeito que quiser quem vive dentro da mentalidade do individualismo, da separação e da ganância. Quem vive na realidade da interconexão entre todas as coisas sente dentro de seu peito a dor da terra que sofre, que clama.
Essa é a realidade dos povos tradicionais como a Comunidade Kilombola Morada da Paz. Onde tudo coabita em um mundo de cuidado, respeito e ancestralidade, a ameaça do fogo é maior que os danos à integridade física do território, são também mais um golpe de desrespeito ao seu jeito de ser e de viver. A salvaguarda de territórios como o Kilombo de Mãe Preta é a salvaguarda de toda a rede da vida.
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