
“O Tapajós é vida”. Gráfica de Matheus Marestoni.
Por Silvia Adoue
Os Munduruku contam que uns humanos tinham negado comida a Caru-Taru, filho de Karosakaybu, ainda após de uma abundante caça. Karosakaybu os transformou em porcos. E, como porcos, perseguiram o menino. Para dificultar a perseguição, Karosakaybu fez nascer o rio Tapajós, que os Munduruku chamam Idixidi, do suco de três caroços de tucumã. Apesar de seu grande poder, os porcos não conseguiram pegar o filho do guerreiro. Deixaram um rasto ao longo do médio Tapajós, área chamada Daje Kapap Eypi, e esse lugar não pode ser perturbado1 Os povos do Tapajós protegem-se usando um anel de tucum.

Fruto do tucumã.
Porém, os panwat2 insistem em perturbar o lugar sagrado. Em agosto de 2025, o presidente Lula promulgou o decreto 12.600, que privatiza as operações dos rios Madeira, Tocantins e Tapajós. O objetivo é realizar uma série de obras de infraestrutura nas hidrovias para escoar grãos (especialmente soja) e carne de exportação. Durante a COP 2025, realizada em Belém, o ministro chefe da Secretaria Geral da Presidência, Guilherme Boulos, prometeu aos povos da Amazônia que não seriam iniciadas as obras sem antes realizar uma consulta informada aos povos afetados. No entanto, quando as luzes do grande evento se apagam, o governo esquece as promessas. Não foi feita qualquer consulta e já saíram os editais para as empresas de drenagem dos rios. O Tapajós seria dragado em 10 pontos.

Complexos hidroviários, o maior é o de Solimões-Amazonas. Fonte: ANTAQ.
O terminal de grãos da Cargill, uma das maiores transnacionais de insumos agrícolas, em Santarém3 (PA), no coração da Amazônia, está ocupado faz 15 dias por 14 povos das margens do rio Tapajós. Ontem às 14:00, foi também bloqueada a estrada que dá acesso ao aeroporto e ocupado o aeroporto de Santarém, cidade de uns 300 mil habitantes. Auricélia Arapiun, advogada e liderança do povo Arapiun, anunciou que não sairiam até que o decreto fosse derrogado. Alessandra Korap, liderança Munduruku, nos lembra que não se pode confiar no que os funcionários do Estado dizem.

Terminal da Cargill ocupado. Fonte: CITA/Instagram
O governo federal enviou funcionários sem poder de decisão a dialogar com os povos. Queriam dialogar com apenas 10 representantes, mas os povos recusaram a proposta e exigiram o diálogo com todos os presentes. Trata-se de uma prática não hierárquica. A estratégia do Estado perante o conflito é de entreter o movimento chamando agora a uma consulta. Nesta altura dos acontecimentos e com um processo já em andamento, os povos do Tapajós exigem a derrogação do decreto 12.600.4 Gilson Tupinambá o diz com todas as palavras.5
Alessandra Korap observa “os brancos dividem em camadas, mas, para nós, não é assim… eles não vêm apenas tirar nosso rio, querem tirar nosso conhecimento”.6 Não se trata apenas de um rio. Se o rio se alterar, o bosque e toda a vida da região também. Construíram um porto no Tapajós acima de um cemitério ancestral. Esse olhar de Alessandra Korap tem a ver com uma integração dos povos com os outros seres do território e com uma independência política que dá a autonomia.7 Lembremos que o povo Munduruku não esperou a demarcação de seu território pelo Estado. Em 2014, quando o governo Dilma queria construir a Usina Hidrelétrica do Tapajós sem consulta, e ante a revelação de que o Estado estava demorando a homologação da Terra Indígena para facilitar a construção da obra de infraestrutura, o povo Munduruku procedeu à autodemarcação em aliança com as comunidades de pescadores.8 Vemos aqui uma capacidade de articulação entre povos com perspectivas de mundo diferentes.

Autodemarcação Munduruku. Fonte: Bárbara Dias/Cimi Norte 2.
Ontem, o governo nacional autorizou a intervenção da Polícia Federal junto com a Polícia Militar.9 Isto é, autorizou o governo do Pará mobilizar tropas para reprimir.
Nas margens do rio Tapajós moram 14 povos indígenas, compostos por 12 mil pessoas, 300 mil famílias quilombolas e comunidades ribeirinhas de pescadores. A abundância e a variedade de seres que ali moram são descomunais. O desmonte avançou na bacia do Amazonas, num princípio, para a criação de pastagens para o gado bovino. Todos estão ameaçados pelo garimpo aurífero que contamina as águas com mercúrio, pelo plantio de soja em grande escala e com uso de agrotóxicos. A Cargill beneficia-se com a venda desses insumos e a comercialização de grãos com destino a China e a Europa. Em total, a empresa fatura em torno de 2,5 bilhões de reais anuais. Recentemente, e pela ação do executivo brasileiro, realizaram-se acordos do Mercosul com a União Europeia para aumentar essas exportações. Há uma corrida para a ampliação da infraestrutura logística, da qual as hidrovias são apenas uma parte. Tem novos terminais portuários e a construção da ferrovia conhecida como Ferrogrão.
Haja anéis de tucum para proteger o Daje Kapap Eypi dos pariwat. Essa luta dos povos do Tapajós inspira todas as gentes da terra. Que viva o rio e sua gente!

Atrás, os silos da Cargil. Foto: Cissa Otoni.
- Ver: DIAS, Bárbara do Nascimento. “’O TAPAJÓS É O BERÇO DE ONDE NOSSO POVO SURGIU’. Notas etnográficas sobre a luta do povo Munduruku pela vida”. In: Novos Debates, 6(1-2): E6204, 2020. Disponível em: https://novosdebates.abant.org.br/revista/index.php/novosdebates/article/view/67; e MUDURUKU, Alessandra Korap, ALFINITO, Ana Carolina, y SCHAVELZON, Salvador. “O direito cosmopolítico Munduruku como prática jurídica contra o antropoceno”. In: Direito e Práxis, Rio de Janeiro, Vol. 15, nº 5, 2024, p. 1-37. Disponível em: https://www.e-publicacoes.uerj.br/revistaceaju/article/view/83710
↩︎ - Panwat: inimigos, em língua Munduruku. ↩︎
- Ver: https://www.instagram.com/reels/DUW7zNSknqp/ ↩︎
- Ver entrevista a Alessandra Korap a partir do minuto 41: https://www.youtube.com/live/0oGZXPqDCUE
↩︎ - Ver: https://www.instagram.com/reels/DUYEbiikQOr/ ↩︎
- Ver la entrevista de la nota 3.
↩︎ - Ver: ALKMIN, Fábio M. Rios vazantes: autonomias e geografias anticoloniais na Amazônia Brasileira. Disponível em: https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8136/tde-28112024-113909/publico/2024_FabioMarcioAlkmin_VCorr2.pdf ↩︎
- Ver: MUDURUKU, Alessandra Korap, ALFINITO, Ana Carolina, e SCHAVELZON, Salvador. “O direito cosmopolítico Munduruku como prática jurídica contra o antropoceno”. In: Direito e Práxis, Rio de Janeiro, Vol. 15, nº 5, 2024, p. 1-37. Disponível em: https://www.e-publicacoes.uerj.br/revistaceaju/article/view/83710 e o documentário Autodemarcação Já!, del Coletivo Audiovisual Munduruku Daje Kapap Eypi, 2024
↩︎ - Ver: https://www.tapajosdefato.com.br/noticia/1599/governo-federal-autoriza-atuacao-da-pm-e-pf-no-porto-de-santarem-apos-ocupacao-indigena-contra-a-dragagem-do-tapajos
↩︎
