Posted on: 24 de janeiro de 2026 Posted by: Teia dos Povos Comments: 0

Por Ana Paula Morel

Quem tem medo de Nego Bispo1, do decolonial, da autonomia territorial? Nos últimos dias, coincidentemente ou não, vieram a público dois textos de acadêmicos (estabelecidos na USP, também coincidentemente ou não) com críticas ao decolonial, à autonomia territorial e ao próprio Nego Bispo. Prefiro não adentrar em todos os pontos discutíveis desses textos, mas há um que me parece central: a pergunta sobre o que fazer (ou como fazer) em tempos de tantas catástrofes — ecológica, social, colonial, entre outras. Em vez de encarar as múltiplas dimensões desses tempos, que incluem as demandas cada vez maiores das discussões contracoloniais nas universidades e nos movimentos sociais, o pensamento supostamente crítico tende a reagir classificando o decolonial e o contracolonial como o novo “pós-moderno”, numa tentativa de preservar a hegemonia que percebe estar perdendo dentro da própria esquerda.

Não digo isso a partir de uma posição anti-intelectualista ou anti-universidade — ao contrário, acredito que as universidades públicas no Brasil são, com todas as suas contradições, um dos espaços fundamentais de encontro e formação, entre tantos outros. Mas elas só ampliarão seu potencial transformador ao deixar no passado a figura (predominantemente masculina) do grande e único detentor da “racionalidade”, que esses textos parecem defender, justamente ao ampliar também as aberturas e alianças com os povos, seus pensamentos e suas lutas.

Sem entrar no mérito específico do debate sobre o grupo Modernidade-Colonialidade — com o qual, inclusive, também tenho discordâncias, pois o problema não é discordar —, mas na postura de arrogância, especialmente diante das lutas concretas e das formas de se posicionar frente a elas. No caso de Nego Bispo, existem apropriações idealizadas (enquadradas como “míticas”)? Talvez sim. Assim como existiram e existem com grandes personagens da história, como Che Guevara, apropriado inclusive como santo ao lado de Maradona, entre outras facetas. Isso, no entanto, não invalida as trajetórias e as obras dessas figuras. Nego Bispo tem uma trajetória de luta contra o latifúndio, de mobilização junto aos povos e de criação de conceitos contracoloniais que são teorias encarnadas. Se existem apropriações esvaziadas do contracolonial, isso não pode servir de pretexto para que intelectuais retomem um autoritarismo iluminista.

Quanto à crítica aos espaços autônomos de luta, reavivar o argumento de que a autonomia territorial é menor por ser “local” revela um discurso antigo e prepotente, típico de quem, para ser gentil, desconhece os efeitos concretos das lutas. As defesas territoriais dos povos indígenas, por exemplo, são as que garantem algumas das terras mais preservadas que temos diante do colapso ecológico e social. 

Um debate de fundo talvez seja outro: como sair do capitalismo, por dentro ou por fora? E o quanto é desejável — ou não — salvar a modernidade iluminista? Para parte do pensamento crítico, ao que parece, não há mais fora, enquanto para uma heterogeneidade de lutas, pensamentos e povos, o fora se constrói. Mas essas questões precisam ser colocadas com mais honestidade, e não diminuindo aqueles que estão na linha de frente contra o extrativismo.

Se posso esboçar alguma pista diante do desafio do que (ou como) fazer, sem dúvidas ela não passa por atacar ou deslegitimar lideranças, pensadores dos povos e as autonomias dos movimentos, mas por escutar seus questionamentos — reconhecendo que isso não implica copiar ou concordar em tudo, e sim assumir o risco valioso do diálogo. Ampliar os diálogos entre universidades e movimentos exige a disposição de abandonar a arrogância histórica de querer guiar e englobar, substituindo-a por práticas de aprendizagem, respeito e ajuda mútua. A pergunta que permanece é, de fato, incômoda: diante das catástrofes, ainda somos capazes de abrir espaço a outros e tecer alianças concretas?

  1. Agradeço à Eduardo Viveiros de Castro pela interlocução que contribuiu para a elaboração deste texto. ↩︎

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