No ano passado, a Rede de Sementes da Teia dos Povos caminhou junto com Mestre Valmir até o território Guarani do Tenondé Porã. Foi durante a ida para a V Feira da Reforma Agrária em São Paulo que encontramos parentes, trocamos experiências e, principalmente, trocamos sementes.

Recebemos ali uma semente sagrada: o Avati Pororo, o milho guarani azul de pipoca. E não chegou sozinha. Veio carregada de histórias, de cuidados, de séculos de resistência nas mãos do povo Guarani Mbya. Veio da tekoa Kalipety, onde Jera Guarani e tantas outras lideranças têm ensinado que plantar é também um jeito de lutar — e de curar.

Hoje, essa semente já não é mais visita. Fez morada. A primeira geração do Avati Pororo foi colhida no assentamento Terra Vista, sob o cuidado de Mestre Valmir e daqueles que ali reconstroem a vida entre pés de milho e árvores nativas. O milho azul de pipoca, que um dia estourou nas fogueiras guarani do extremo sul de São Paulo, agora também estoura nos fogões do sul da Bahia.


Mas as trocas não são de mão única.
As sementes que levamos daqui — milhos crioulos, feijões de variedades antigas, sementes que carregam a memória das lutas camponesas e da reforma agrária — também encontraram chão fértil no Tenondé Porã. E lá, como nos ensina o povo Guarani, o plantio é sempre um ato coletivo. As roças se multiplicaram com as retomadas de aldeias, a diversidade de variedades cresceu, e com ela a autonomia do território.


Porque semente não é mercadoria. Semente é parente.
E como parente, circula, visita, faz morada, volta transformada. No movimento das trocas, vamos tecendo essa grande rede que a Teia dos Povos ajuda a tramar: uma rede que conecta a luta Guarani por território à luta camponesa pela terra, que junta o avaxi ete’i ao milho crioulo, que aprende com os xondaro a arte de alternar aproximações e distâncias para seguir em movimento.

No Terra Vista, o Avati Pororo já é colheita. No Tenondé Porã, nossas sementes também já são roça. Assim, de território em território, vamos semeando não só alimentos, mas relações — e nessas relações, germinamos juntos o que talvez seja a mais importante de todas as sementes: a autonomia.

Aguyjevete!
