por Celso Antonio Favero
PALAVRAS INTRODUTÓRIAS
A realidade mundial (América Latina, Oriente Médio, África…) atravessa hoje um tempo marcado por uma policrise (epistêmica, sistêmica e climática/ambiental) e por profundas turbulências (guerras, genocídios, barbárie, violação da natureza, iconoclastia…), o que dificulta e complexifica a elaboração de análises de conjuntura que sejam minimamente consistentes. Como entender, por exemplo, o grande aumento do número de pessoas com ansiedade e depressão? Como entender o fato que, hoje, todos os trabalhadores parecem estar sempre cansados? Como entender o rápido crescimento da direita fascista no mundo todo? Como entender o aumento do número de guerras e o crescimento da violência nesses conflitos? O que precisamos fazer para isso?
1) precisamos multiplicar os ensaios de análise, de modo que cada novo ensaio (ponto de vista, perspectiva…) pode mostrar novas dimensões da realidade;
2) precisamos entender que todo ponto de vista precisa articular o conjunto das dimensões que ligam o particular e o total, o local e o universal, o conjuntural e o estrutural;
3) precisamos entender, também, que, em toda análise, utilizamos conjuntos de categorias e conceitos (como as de contradição, totalidade, história…) que, em estudos mais sistemáticos, precisam ser amplamente debatidos;
4) e que, se, por um lado, a identificação das contradições que estruturam a realidade constituem-se necessariamente como pontos de partida para qualquer análise, é nas fronteiras do real que essas contradições se mostram em toda a sua complexidade;
5) e também que, dependendo da análise que se faz, decorrem propostas de estratégia de enfrentamento da atual situação e/ou propostas de revolução, já que a revolução (com as suas diversas expressões) continua sendo a maior finalidade das lutas dos povos do mundo.
Apresento na sequência um novo ensaio para a leitura do nosso tempo/mundo.
DEZ PONTOS PARA O ESBOÇO DE UMA ANÁLISE DE CONJUNTURA
1. Qual é o recuo mínimo necessário na história que precisamos ter para explicar o tempo/mundo atual? Uma combinação de quatro possíveis ponto de partida:
1) a década de 1970 – crise pós “era de ouro” do capitalismo ou crise dos “30 gloriosos”, marcada pela ruptura com o sistema econômico, político e monetário criado em 1945 em Bretton Woods: em 1971, o fim da paridade dólar-ouro; em 1973-1979, a estagflação (alta da inflação e do desemprego); e com seu final em 1975, a guerra do Vietnã;
2) os anos 1980 – a introdução dos programas de “reajuste estrutural” (palavras mágicas e que escondem o desencadeamento de um sistema combinado de violências!) conduzidos pelo FMI e pelo Banco Mundial e que moldariam a transição para um modelo de capitalismo flexível estabelecendo as bases do neoliberalismo globalizante (fim do multilateralismo e da soberania nacional, precarização das relações de trabalho e crescimento das desigualdades sociais em âmbito mundial);
3) o ano 1991 – fim da URSS, que, com os Estados Unidos estruturava o mundo bipolar da Guerra Fria (capitalismo X comunismo) e promoção da crença “do fim da história” (Francis Fukuyama) e início da realização do grande desejo americano: o domínio imperial unipolar;
4) A crise de 2008 – estouro da bolha imobiliária, falência de grandes bancos, desvalorização de ativos, recessão, desmonte da capacidade de consumo das populações, aprofundamento da desigualdade social, desmonte das crenças no progresso eterno que sustentavam o neoliberalismo.
A combinação (descombinada) dessas quatro crises constituem a base histórica para uma leitura do nosso tempo/mundo.
2. Como explicar a crise que hoje afeta todas as dimensões da realidade (subjetiva e material)?
Estamos mergulhados hoje em uma policrise (epistêmica, sistêmica e climática/ambiental) que indica mais uma vez que, se, por um lado, a crise é endêmica ao capital, e, por outro, que ela se faz de modos diferentes na história (coloca em cheque o desejo dos Estados Unidos).
1) Como ler esta atual crise? Qual é a contradição primeira que a estrutura? Lembrar que a alma do capital é a acumulação permanente e crescente de valor: a contradição Capital X Trabalho. Ou, a
Necessidade de manter o ritmo de crescimento/acumulação ilimitada do capital X aprofundamento do ritmo de redução da capacidade de consumo das populações resultante da diminuição da massa salarial (o capital aperta a renda)1 e do consumo.
2) Qual é a estratégia utilizada pelo capital para a superação dessa crise?
Atribuir aos Estados Nacionais a tarefa de cobrir o rombo da queda da renda dos trabalhadores através da facilitação do aumento do crédito (inclusive para os pobres), o que acaba aprofundando o endividamento dos consumidores (crise da moradia, crise alimentar…).
3) Esta estratégia manifestou-se eficaz ou limitada?
A capacidade de crédito dos Estados tem limites, que são desejados e/ou impostos pelo próprio capital (manter o nível de produção e de consumo). Assim, na crise de 2008, por exemplo: por um lado, a queda da renda dos trabalhadores no Brasil foi “sanada” através do crédito que gerou o seu endividamento; por outro, o capital recebeu incentivos e subsídios, o que acaba aprofundando as diversas desigualdades sociais (até que ponto as crises são ruins para o capital?).
3. Qual é o principal impacto desta crise? Apesar do aprofundamento da desigualdade e do aumento do grau de enriquecimento dos ricos, ele acaba produzindo a perda da capacidade expansiva ou de crescimento do capital.
As margens de manutenção do ritmo de crescimento do capital se estreitam (aumenta o grau de concentração/centralização do capital) na medida em que não há mais como comprimir as rendas dos trabalhadores. A contradição básica que estrutura o momento conjuntural do capital – relação capital X Trabalho – atinge o seu limite.
4. Sendo aquela estratégia estruturalmente limitada, como o capital está buscando enfrentar a crise? Qual é a estratégia que hoje estrutura o necessário crescimento da acumulação do capital?
A estratégia que o capital vem colocando hoje em ação não é nova: trata-se da sofisticação dos modos já tradicionais de espoliação, que combina a radicalização na extração de mais-valor com a radicalização dos processos de apropriação dos bens localizados nas fronteiras do capital.Como em todas as suas crises estruturais, além do agravamento dos modos e graus de extração do mais-valor produzido pelos trabalhadores (precarização das relações de trabalho e diminuição das rendas), o capital volta-se para as suas margens, com o aumento da sua voracidade expropriatória (acumulação originária).2
5. Como se estabelecem e se naturalizam hoje os processos de expropriação?
Primeiro, as ações de expropriação se desdobram em duas frentes:
1) no interior dos países, no meio rural, através da voracidade do extrativismo que envolve as dinâmicas da expropriação/apropriação de terras/territórios de populações situadas nas fronteiras do capital (no Brasil, as populações originárias/indígenas, quilombolas, camponesas e de periferias urbanas) e a violação da natureza; e, nos espaços urbanos, com o avanço das milícias e do crime organizado, que simplesmente expropria populações;
2) no nível internacional, com o aumento do número de guerras – e o extermínio de populações – que têm como finalidades mais importantes o acesso a bens naturais (minerais, florestais, animais, turísticos…), o controle de territórios e a expropriação de povos (etnias) produzindo os milhões de deslocados (123 milhões em 2025).
Segundo, este processo que tem nas guerras (e nas suas diversas modalidades, incluindo as guerras híbridas) a sua principal expressão: ela se faz quase exclusivamente através do financiamento público, que cada vez mais sustenta a indústria bélica (e das tecnologias com finalidades militares e energéticas – materiais destinados à queima e à destruição do mundo); de modo que a guerra constitui-se como um modo de o capital ampliar os processos de acumulação (todo produto só se completa quando consumido).
Terceiro, nas crises, esta face do capital – extorsiva, predatória, guerreira e expropriatória do capital – tende a tornar-se um modo ordinário de espoliação – terras, ares, águas, minérios, terras raras, petróleo, florestas, animais – e têm como finalidade assegurar a manutenção permanente do grau de crescimento do capital e de fortalecimento do império; pior, hoje, ele envolve um processo de legitimação/normalização de genocídios/etnocídios.
6. Neste processo que é apresentado pelo império como natural, a unipolaridade passou a ser pressionada pelo crescimento da China, da Rússia e do BRICS.
1) China – além do alto grau de crescimento do seu PIB, a China se revela fortemente competitiva no desenvolvimento tecnológico em todas as suas frentes, inclusive na militar, no controle de fontes de matérias primas e da produção de alimentos, no comércio e na sua capacidade de negociação (multilateralismo) e na sua presença em todos os cantos do planeta (na terra, nos oceanos e nos espaços). A estratégia do ganha-ganha, mesmo sendo questionável enquanto realidade, estabeleceu-se e ganhou lugar em termos ideológicos.
2) Rússia – a crise da unipolaridade, no últimos anos, passou a ser questionada pelo retorno da Rússia no tabuleiro geopolítico. O fim da União Soviética soou para o império americano como a sua subordinação às dinâmicas do capital cujo centro de comando eram os Estados Unidos e o fim da Rússia no tabuleiro geopolítico mundial. Mas, a guerra contra a Ucrânia – e apesar de todos os instrumentos utilizados pelos Estados Unidos e a Europa para o seu enfraquecimento – vem mostrando a Rússia como um terceiro polo no tabuleiro e tendente, em grande medida, a aliar-se à China. Com isso, novamente, os Estados Unidos se vêem tolhidos nas suas pretensões de imperar no mundo de forma absoluta; e a Europa, aliada – como se tivesse uma dívida a pagar – sem nenhum constrangimento e sem limites ao “grande império americano”, está imersa numa das suas crises mais profundas: econômica, política, social e geopolítica.
3) BRICS – com a China e a Rússia, os países do BRICS estão estruturando um novo polo de articulação/contrôle do mundo (refundando o unilateralismo e em nome do multilateralismo) e uma nova base para o sistema monetário mundial (o pilar mais importante do império) e estruturando uma estratégia de longo prazo para o enfrentamento do império americano. O tarifaço vem sendo um modo através do qual Trump busca manter o império; e, com ele, o controle das contas internacionais com base no dólar. Com a guerra no Oriente Médio, o BRICS vem sofrendo um abalo, com diversos países – a exemplo da India – tender a situar-se do lado americano.
7. O imperialismo americano, após a crise de 2008, e como modo de enfrentar esta crise que tende a aprofundar-se, vem revelando de forma cada vez mais evidente o seu caráter fascista (o fascismo é uma dimensão inerente ao capitalismo e que se revela mais enfática nas suas crises e como elemento de uma estratégia de superar a crise). O império é fascista porque o capital só encontra modo de se expressar social e politicamente no fascismo (ex. a verdade é o que convém, ela não tem necessariamente caráter objetivo).
Apesar do caráter nacionalista (First America) e centralizador do império, a chamada extrema-direita fascista vem se espalhando por todos os países e em todos os continentes, adquirindo inclusive caráter religioso e miliciano, e vem elaborando estratégias para a sua difusão e estabelecimento em nível planetário (ver documentos do MAGA). O G7 (que agora está em crise devido às decisões controversas e unilaterais de Trump) foi durante as últimas décadas o lugar de sua construção.
8. Os povos periféricos do mundo – observando as contradições que estruturam o sistema geopolítico mundial – vêm se manifestando como um novo polo de rebelião contra o império. Esta rebelião (em construção), em termos geoestratégicos, vista a partir da América Latina, envolve quatro frentes:
1) a da luta contra toda forma de império (e contra toda forma de fascismo, já que imperialismo e fascismo sempre se confundem);
2) a da criação de um novo modelo de relações internacionais fundada na retomada da verdadeira soberania dos povos e do multilateralismo;
3) a da criação de uma grande aliança envolvendo a China, a Rússia e os países do BRICS contra o império americano (a régua põe de um lado os EUA e de outro todos os povos que a eles se opõem);
4) a da criação de uma aliança dos povos latinoamericanos e africanos (e asiáticos).
Esta rebelião tem como instrumentos políticos principais imediatos:
4.1) a exaltação do multilateralismo (contra o unilateralismo americano cuja expressão maio foram os vários tarifaços);
4.2) o fortalecimento do princípio da diversidade, de modo que, por um lado, é nas lutas locais que tudo se inicia, e, por outro, as alianças não apagam essa diversidade;
4.3) a presença de novos protagonistas, além dos trabalhadores (categoria que se tornou vaga), identificados a partir de recortes como os de gênero (mulher), raça (indígena, negro…), idade (crianças, adolescentes e jovens, além dos mestres da sabedoria histórica) e local de habitação;
4.4) ela tem como horizonte o socialismo/comunismo (com as suas múltiplas expressões, incluindo as do bemviver e do ubuntu). Mas, apesar das múltiplas contradições que a atravessam (incluindo as do identitarismo), esta rebelião constitui-se essencialmente como um projeto em construção.
9. A América Latina situa-se neste contexto como um lugar/ator estratégico.
1) Na visão da direita norteamericana, o restabelecimento do império (unipolar) passa pela dominação do hemisfério americano, do polo norte ao polo sul, e do controle das suas riquezas naturais que são bases para o desenvolvimento de novas tecnologias (hoje, sob a hegemonia chinesa).
2) Quando se fala em First America, tem-se que entender o que é que se nomeia aqui como América. A própria Europa, aliada de primeira ordem dos Estados Unidos, está hoje em crise e começa a revelar as contradições que os separam.
3) Redescobre-se, nesse contexto, que a questão das classes sociais e da lua de classes, com todas as transformações pelas quais elas passara nas últimas décadas, incluindo a sua mundialização e a sua dimensão climática/ambiental, precisam ser resgatadas como contradição e como elemento estratégico nas lutas contra o império.
10. Em síntese:
1) o capital atravessa hoje uma das suas mais profundas e radicais crises (qualificada como uma policrise: epistêmica, sistêmica e climático/ambiental;
2) a crise – além de desmontar o multilateralismo – coloca em xeque o império e a própria ideia de império;
3) a guerra (laboratório de testagem de tecnologias de guerra, de milícias e de guerreiros sem pátria, de tipos de guerra – guerras híbridas – e de modos de controle de populações e de desenhos de mundos), a criação de milícias e a espoliação (superexploração e a expropriação) são hoje os principais meios para a preservação do império e dos processos de acumulação pelo capital;
4) o império americano – atravessado de contradições – e a sua enorme voracidade e crença na sua força tornou-se o grande inimigo que precisa ser enfrentado pelo conjunto dos povos do planeta;
5) o império envolvido na busca de superação da sua crise manifesta cada vez mais claramente o seu caráter fascista (nacionalista, religioso) e predatório (a face espoliativa);
6) está se ensaiando hoje no mundo uma nova grande aliança estratégica envolvendo o conjunto dos povos (dos espoliados) do mundo contra o império americano (e contra todos os impérios) e tudo o que ele significa;
7) nesse enfrentamento, a América Latina constitui-se como lugar estratégico da luta (contra a ideia de a América é por natureza dos “americanos”;
8) com a luta de classes retomando a sua importância, não se pode ignorar as suas múltiplas dimensões, que, algumas delas, em determinados lugares e circunstâncias, adquirem preponderância, a exemplo das questões de povos, de raças, de gênero, de território e climático/ambiental;
9) a mulher – com a sua trajetória, experiência e visão baseada em novos fundamentos – torna-se a protagonista estratégica nesta nova luta revolucionária;
10) constituindo-se o capital como uma realidade mundial, o seu enfrentamento requer a formulação de alianças e de uma estratégia também mundial.
- Com o tarifaço de Donald Trump, as famílias americanas, a média de perda por ano das famílias americanas é de 2.800 dólares; no início do seu governo, 36 milhões de americanos viviam na pobreza; com o tarifaço, só em 2026, a taxa de pobreza subirá de 10,6% para 12,2%, incluindo mais 150.000 crianças. O que o Estado americano acumulou com o tarifaço está sendo queimado em guerras, como a do Irã.
↩︎ - Três informações importantes: 1) de acordo com a FAO, apenas 35% das terras do planeta têm posse formalmente documentada, e, nos próximos cinco anos, aproximadamente 1,1 bilhão de pessoas poderão perder os seus direitos à terra ou à habitação (Fonte: https://news.un.org/pt/story/2026/03/1852486); 2) Assim se divide a área agrícola (área cultivada) do mundo: 71% para produção de rações para a pecuária (mudanças climáticas, aumento de CO2, extinção de espécies…); 18% para a produção de comida (não de alimentos); 7% para a produção de matéria prima (como algodão); 4% para a produção de energia (etanol, biodiesel…) (Fonte: https://arvoresertecnologico.com.br/como-se-divide-area-agricola-do-mundo/). Outro dado alarmante da ONU é que hoje, no mundo, há em torno de 123.000.000 de deslocados, e este número cresce de ano para ano (Fonte: https://news.un.org/pt/story/2025/06/1849416).
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