Por Silvia Ribeiro
Publicado originalmente em Desinformémonos: https://desinformemonos.org/guerra-glifosato-y-agricultura-corporativa/
Israel tenta exterminar as bases alimentares da população libanesa, para forçá-los a se deslocar ou morrer. Para isso, pulveriza seus cultivos com glifosato, um agrotóxico declarado cancerígeno pela OMS e o mais utilizado em cultivos transgênicos e outros, na América Latina e no mundo. Também os ataca com fósforo, outro componente-chave de agrotóxicos e fertilizantes sintéticos.
O governo do Líbano denunciou em 4 de fevereiro de 2026 que Israel está pulverizando glifosato no sul do Líbano como forma de destruir seus cultivos alimentares e obrigar a população a abandonar suas terras e casas. Isso se soma às denúncias anteriores da Anistia Internacional sobre o uso intencional de fósforo branco como arma pelo exército israelense em várias áreas do Líbano desde 2023, com mortes e ferimentos permanentes. No início de março de 2026, a organização Human Rights Watch verificou novos ataques recentes de Israel com fósforo branco como arma incendiária na localidade de Yohmor, também no sul do Líbano.
Importa destacar que isso é apenas uma parte dos múltiplos ataques contra a população civil que integram o genocídio que Israel comete em Gaza e expande por toda a região, agora com intensidade no Líbano, ao mesmo tempo em que seu aliado Trump e os Estados Unidos atacam escolas e população civil no Irã.
Não é a primeira vez que agroquímicos são usados com fins bélicos, entre outros, para destruir cultivos e árvores. Os Estados Unidos usaram o Agente Laranja como desfolhante e o napalm como agente incendiário em sua guerra imperialista contra o Vietnã. Agora Israel usa glifosato e fósforo branco com esses mesmos fins. O Agente Laranja, produzido para a guerra do Vietnã pela Monsanto (atualmente Bayer) e Dow (agora Corteva), foi composto a partir de dois elementos que já eram usados antes como agrotóxicos na agricultura industrial. Um deles, o 2,4-D, ainda é utilizado atualmente. A Bayer-Monsanto produz cultivos transgênicos resistentes a esse agrotóxico e ao glifosato, entre outros.
O uso de glifosato para destruir intencionalmente cultivos no Líbano, assim como o uso de fósforo, principal ingrediente desse agrotóxico e de outros organofosforados e fertilizantes sintéticos, é uma demonstração clara de como a agricultura industrial e as guerras estão interligadas. Compartilham origens e visões comuns: são armas de ataque, seja contra pessoas ou contra cultivos e árvores que se interpõem em seus objetivos.
Significativamente, em 18 de fevereiro de 2026, Trump emitiu uma ordem executiva na qual declarou o glifosato e o fósforo como elementos de segurança nacional, determinando que sua produção deve ser garantida. As empresas que os produzem, como Bayer-Monsanto, não poderão ser processadas pelos danos que causarem. Essa ordem executiva tem múltiplas repercussões e amplo alcance: foi criada para proteger os interesses das corporações do agronegócio, especialmente da Bayer-Monsanto, assim como sua colaboração com fins militares. Em outro artigo, “Trump, glifosato como arma de guerra”, são detalhadas essas implicações.
No marco do corolário Trump à doutrina Monroe, reafirmando que os Estados Unidos consideram nosso continente como seu “quintal”, fornecedor de matérias-primas e consumidor de seu lixo industrial, essa ordem tem amplas repercussões na América Latina. É uma ameaça a qualquer governo que tente afetar os interesses das transnacionais do agronegócio, por exemplo, restringir o uso do glifosato e de cultivos transgênicos associados a ele.
A Bayer-Monsanto controla, junto com Corteva, Syngenta e BASF, 99% dos cultivos transgênicos. Além disso, juntas controlam dois terços da produção global de agrotóxicos e mais da metade de todas as sementes comerciais.
A Monsanto (agora Bayer) também possui uma presença monopólica na produção de fósforo branco para uso bélico. Por isso, Michael Hansen, cientista principal da Consumer Reports dos Estados Unidos e reconhecido especialista na investigação dos impactos da indústria química e agroalimentar, explica que a ordem visa tanto garantir os interesses das empresas e da agricultura industrial quanto atender a fins militares.
Apenas três empresas dos Estados Unidos estão associadas à fabricação, armazenamento e exportação de munições de fósforo branco: Pine Bluff Arsenal, Monsanto-Bayer e o ICL Group (anteriormente conhecido como Israel Chemical Ltd). O Pine Bluff Arsenal (PBA), propriedade dos Estados Unidos, foi criado com a missão de fornecer armas químicas para uso na Segunda Guerra Mundial. Atualmente, o PBA é a única empresa no hemisfério norte que preenche munições com fósforo branco.
A Monsanto, que tem uma longa história de trabalho com o Departamento de Defesa dos Estados Unidos (no Vietnã, entre outras guerras), é o único fabricante norte-americano de fósforo branco no país e vem fornecendo ao Pine Bluff Arsenal a matéria-prima para a fabricação desse tipo de munição há décadas.
A terceira empresa envolvida é o ICL Group, explica Hansen, que possui uma planta de fabricação de produtos químicos nos Estados Unidos, em St. Louis, Missouri, onde também está a sede da Bayer-Monsanto, com a qual trabalha em estreita colaboração. A empresa matriz do ICL Group fica em Israel e dedica-se à extração de fosfatos e à venda de fertilizantes. Acredita-se que o ICL Group nos Estados Unidos forneça à Bayer-Monsanto os fosfatos utilizados na produção de fósforo branco.
Pouco depois do ataque do Hamas em Israel, em 7 de outubro de 2023, a Human Rights Watch documentou o uso de munições de fósforo branco em Gaza e no Líbano. Ao mesmo tempo, a Anistia Internacional documentou que Israel utilizou munições de fósforo branco do Pine Bluff Arsenal.
O uso dessas substâncias tóxicas nas guerras genocidas de Israel e dos Estados Unidos constitui crimes de guerra. O uso contínuo de glifosato e outros agrotóxicos em nossa alimentação, elementos-chave do pacote da agricultura industrial que destrói o meio ambiente e a saúde e enfraquece a soberania alimentar, também deve ser considerado um crime.
