Posted on: 2 de abril de 2026 Posted by: Teia dos Povos Comments: 0

Arataca, 08 de março de 2026

Com a licença de nossos ancestrais,
Sob as bençãos das nossas mais velhas e mais velhos,
Sob o olhar das nossas crianças e juventude
Com a força da Mata Atlântica, na cabruca, às margens do Rio Aliança

Nós, mulheres da Teia dos Povos, reunimo-nos no V Encontro da Rede de Mulheres no
Assentamento Terra Vista, em Arataca – BA, entre os dias 5 e 9 de março. Estiveram
presentes cerca de 2 mil mulheres de comunidades quilombolas, pescadoras, indígenas,
assentadas da reforma agrária e de territórios do campo, da cidade, das águas e das
florestas, sob o tema central: “Mulheres, Ancestralidade e Territórios: as que
protegem as terras, as águas e os territórios”.


Tivemos oficinas, terreiro lúdico, feira literária, giras de saberes, feira dos povos,
plenárias, tenda do cuidado, rituais e místicas que nos fortaleceram enquanto coletividade
em luta. Nosso encontro é parte de um processo político, formativo, espiritual, cultural e
ancestral, construído coletivamente pelas mulheres de diversos territórios da Bahia que
integram a Teia dos Povos. É uma caminhada contínua de escuta, articulação, cuidado
coletivo e fortalecimento das lutas em defesa da terra, das águas, dos territórios e da vida.


A Teia dos Povos é uma grande articulação onde se encontram a diversidade de territórios
e a pluralidade de corpos. Compreendemos que defender nossos corpos passa,
necessariamente, por defender também nossos territórios. Para tanto, reafirmamos nosso
compromisso com a resistência, seja pela vitória na derrubada do Decreto nº 12.600 —
que revogava a decisão anterior de privatizar rios amazônicos —, seja pela luta pela
titulação dos territórios Tupinambá, Pataxó e quilombolas do Recôncavo da Bahia, bem
como pela consolidação dos assentamentos de reforma agrária.


Nesse contexto de violência de Estado sobre os nossos territórios, os corpos das mulheres
— especialmente das mulheres negras e indígenas — são os mais vulnerabilizados.
Segundo dados do Retratos do Feminicídio no Brasil, só em 2025, foram 1.568 mulheres
vítimas de feminicídio no país, um crescimento de 4,7% em relação ao ano anterior. No
Nordeste, o destaque negativo fica com a Bahia, que concentrou 25,8% dos registros. O
perfil dessas vítimas revela o caráter estrutural da violência letal de gênero no país: 62,6%
são mulheres negras.

Esta dupla agressão sobre corpos e territórios manifesta-se na concentração e privatização
da terra, na liberação de grandes empreendimentos sem licenciamento ou consulta
popular e no sucateamento das políticas públicas. Isso evidencia uma estrutura racista,
incompatível com o Bem Viver.

Por isso, convocamos os homens a assumirem a responsabilidade na defesa dos territórios
através do enfrentamento ao machismo e ao patriarcado. É necessário discutir o impacto
do uso abusivo de álcool nas comunidades, que intensifica violências patrimoniais,
simbólicas, econômicas, psicológicas e físicas. É urgente construir ações coletivas que
despertem nos homens uma consciência crítica para o fortalecimento e a defesa das
mulheres.

Ampliamos nosso olhar também para a realidade internacional, refletindo sobre as
múltiplas formas de violência que afetam mulheres em contextos de genocídio e invasão,
como no Irã, na Venezuela e na Palestina. Essas realidades demonstram que a violência
contra as mulheres é um fenômeno global, atravessado por desigualdades sociais,
políticas e culturais.

Sabemos que os territórios são protagonizados por nós; portanto, defender as mulheres é
construir estratégias de defesa de nossos territórios. Após cinco dias de trocas de
conhecimentos e debates profundos sobre o sistema patriarcal, seguiremos organizadas,
fortalecendo o que já construímos e levando esses desdobramentos para nossas bases.

Pelas que vieram antes, pelas que estão aqui e pelas que virão. Seguiremos firmes!
Viva a Rede de Mulheres da Teia dos Povos!

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