Posted on: 4 de abril de 2026 Posted by: Teia dos Povos Comments: 0

por Silvia Beatriz Adoue

Originalmente publicado em: https://desinformemonos.org/como-ser-antisionista-en-america-latina/

Os meios de comunicação do nosso continente deslocam o foco no “Oriente Médio” da Palestina para os bombardeios no Irã, com alvos militares ostensivos que os atacantes propagandeiam. Mas também bombardeios mais pontuais, buscando meter medo nas pessoas comuns, como o ataque à escola de meninas onde mataram 200 meninas, e em regiões que não são muito adeptas ao regime dos aiatolás. Além de garantir o fluxo de petróleo, querem frear a efervescência social que os aiatolás já não conseguiam controlar. A expectativa dos meios de comunicação, e das pessoas do mundo que veem a ofensiva dos Estados Unidos e de Israel como imparável, é que haja alguma resposta, senão suficiente, pelo menos com alguma contundência que o armamento iraniano poderia proporcionar. Enquanto isso, Israel bombardeou no Líbano tanto os campos de refugiados palestinos quanto a população civil libanesa, com mais de 600 mortos, dos quais pelo menos 100 crianças, e mais de 700 deslocados. E os palestinos da Cisjordânia e de Gaza vivem, desde fevereiro, condições ainda mais asfixiantes, com fechamento de pontos de controle e da fronteira de Rafah, sem hospitais, com os preços dos itens de primeira necessidade nas alturas e ataques brutais de colonos, semelhantes aos pogroms sofridos pela população judia na Europa. Só que, agora, com as câmeras das grandes emissoras de televisão desligadas. Hoje se descobre que na Palestina foram usadas bombas químicas capazes de elevar a temperatura a 3500 °C, carbonizando tudo o que é vivo sem os efeitos posteriores da radioatividade, que adiariam o uso das áreas para fins lucrativos.

Todas as pessoas do mundo vimos que a “Doutrina Dahiya” se propaga para além da Palestina. E as agressões não param nem com declarações de chefes de Estado e de especialistas da ONU. Não param nem com mobilizações multitudinárias em todo o planeta, em muitos casos fortemente reprimidas pelos respectivos Estados. As flotilhas, por mais corajosas que tenham sido, e de grande efeito propagandístico, só tiveram o resultado prático de distrair as patrulhas e assim permitir momentaneamente que os pescadores de Gaza pudessem sair para obter alimento. (Obrigado por isso!) A sensação é de grande impotência.

Enquanto isso, aqui, em algumas localidades da América Latina, testemunhamos a “invasão” de soldados israelenses em modo férias, perpetrando brutalidades. Nós os vemos bem à vontade pela Patagônia, em ambos os lados da cordilheira dos Andes, e agora no Brasil, no estado da Bahia, sujando as praias. Toda uma estrutura turística disponível para eles: hotéis, restaurantes com cardápio em hebraico, circuitos de trilhas com placas no seu idioma. Depois de três anos de serviço militar, e como ponte para entrar na condição de reservista, eles têm férias pagas. Um breve parêntese: Os guerreiros da antiga Grécia passavam por um ritual antes de ir para a guerra. O ritual tinha como finalidade desativar a censura das regras da pólis, libertá-los para a barbárie. Quando voltavam da guerra, precisavam de outro ritual para reativar o modo civilizado. Pois bem, esses soldados israelenses não passam por nenhum ritual. Talvez porque na permanente dupla civilização-barbárie, a forma bárbara precise estar ativada o tempo todo. No litoral baiano, nas praias de Itacaré e Morro de São Paulo, eles tentaram impedir uma manifestação em favor da Palestina. Eles não descansam. Os manifestantes os fizeram correr.

No entanto, esses contatos diretos, um pouco furtivos, com a guerra no próprio território não revelam nem de longe a presença impactante do sionismo no continente em que vivemos. Fala-se muito da Palestina como um laboratório de guerra contra os povos, de guerra contra os territórios. E ainda assim pode soar como algo distante. Como uma prática que, em algum momento, pode ser transferida para outras geografias em bloco, como um pacote fechado. Isso é enganoso. Essa guerra já está instalada. A presença da indústria bélica e “de segurança” sionista vem se instalando aqui pelo menos desde as ditaduras dos anos 1960 e 1970. O Movimento BDS (Boicote, Desinvestimento e Sanções a Israel) lançou há alguns anos o livro O militarismo israelense na América Latina em que mapeia não apenas as empresas israelenses (estatais e privadas) com ramificações no continente e os convênios que perduram ao longo de décadas (não importando a cor do governo da vez) entre Israel ou essas empresas e os Estados latino-americanos, mas também os volumes de comércio exterior entre Israel e esses países. Rafael, Elbit Systems, IAI (Indústrias Aeroespaciais Israelenses), ISDS (Sistemas Internacionais de Segurança), ISP (Estaleiros Portuários de Israel), SIBAT, Meprolight, IWI, Plasan, Rada Electronic Industries, Techaya, UDL United Defense, LHB Ltd, Northrop Grumman Overseas Corp, Tar Ideal Concepts, VVAMIR, Waveguard, Gate Tel, Magal são apenas algumas dessas empresas com presença física, comércio ou que participam de fusões com empresas locais. Durante os governos militares, as armas adquiridas de Israel constituíram 95% na Argentina, 92% em El Salvador e 81% em Honduras. Só para mostrar alguns números. Além das assessorias repressivas que Israel prestou. Para dar outro exemplo marcante: os “guanacos” que jogam água nos manifestantes no Chile foram produzidos no Kibutz Beit Alfa.

A indústria bélica israelense fornece bombas de gás lacrimogêneo, a maioria dos drones de vigilância e ataque (de alta letalidade), a munição de fósforo branco, os helicópteros das polícias, os sistemas de informação e espionagem cibernética (como o conhecido Pegasus), os aviões de combate, os sistemas de mísseis Spike, os navios lançadores de mísseis, a tecnologia de reconhecimento facial, as tornozeleiras eletrônicas, as miras térmicas, as pistolas Jericó, os veículos blindados. Todas essas armas têm o selo de “testadas em campo”. Israel recebe 20% do investimento privado mundial total em cibersegurança, só superada pelos Estados Unidos. Além de produzir tantas armas, Israel é o maior comprador de armas por habitante (e compra dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha). Israel vende mais do que o dobro do que compra da América Latina. Sendo suas compras de matérias-primas e suas vendas de tecnologia e produtos industrializados. É o país que mais vende armas por habitante pelo menos de 2011 a 2016. E no peso da exportação de armas relativo ao PIB é o segundo no ranking mundial, precedido apenas pela Rússia.

Um capítulo à parte é constituído pelas tecnologias israelenses de gestão da água praticadas pela empresa privada Mekorot, fundada em 1947 e responsável pelo uso da gestão da água como arma contra o povo palestino ao longo do tempo. Essas tecnologias se instalam na América Latina, particularmente na Argentina. Essa tecnologia aponta para o controle da água e sua distribuição, o que exige transformações nos marcos legais que regulam o uso da água como recurso, como é a Lei de Geleiras e a transformação de rios em hidrovias. Ou seja, a morte do que é vivo nas águas a serviço da produção de energia, infraestrutura logística e insumo direto. Mas também como instrumento de controle social, ao controlar sua distribuição.

As armas israelenses estão presentes na repressão aos movimentos que lutam contra o extrativismo, às lutas urbanas e na contenção dos empobrecidos em geral. Mas não se trata apenas dos equipamentos em si. Está a capacitação para seu uso às forças armadas e de “segurança” interna dos países. A tecnologia não é uma coisa pontual e neutra. Faz parte de toda uma lógica de militarização que parte do modelo de apartheid praticado na Palestina, com a construção de um inimigo interno, em muitos casos, com os muros e pontos de controle. As armas e capacitações replicam o modelo de mundo… e nisso reside o significado da ação sionista na Palestina como laboratório dessa configuração atualizada do Estado e do capital.

A luta antissionista, portanto, em nossos territórios não é somente uma luta em favor da libertação palestina. Trata-se da nossa própria libertação. Gostaria de piscar o olho para leitoras e leitores para que possamos identificar o sionismo em nosso território. E para imaginar possibilidades de combate, num gesto de liberdade e ousadia sem o qual tudo morrerá num prazo não muito distante.

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