Originalmente publicado 6 abril 2026 em: https://desinformemonos.org/el-comun-la-apuesta-zapatista-para-enfrentar-la-tormenta/
O Comum é o dispositivo dos povos, zapatistas e não zapatistas, para atravessar a tempestade. Afirmaram isso o Subcomandante Insurgente Moisés e o Comandante Insurgente Marcos durante o sementeiro “A Tempestade por dentro e por fora segundo as comunidades e povos zapatistas”, que foi encerrado neste sábado no CIDECI-Unitierra de San Cristóbal de Las Casas, Chiapas.
Ali, diante de dezenas de bases de apoio e cerca de quinhentas pessoas, durante três dias os dois comandos do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) analisaram o contexto atual a nível comunitário, chiapaneco e mundial e apresentaram sua proposta para enfrentar a tempestade, seja qual for a forma como ela chegue: o Comum.
A proposta do Comum foi socializada pela primeira vez em dezembro de 2023, quando o EZLN publicou uma série de comunicados onde anunciava uma profunda reorganização de sua autonomia. Nesse contexto, também propôs aos povos uma nova forma de conceber o uso da terra, que é diferente da propriedade privada e da propriedade ejidal: uma terra de ninguém ou, melhor dizendo, do comum, que pode ser trabalhada conjuntamente também com pessoas externas à organização.
“O que estamos buscando é como podemos nos ajudar para melhorar a vida que queremos. Não se trata apenas de construir um governo comum ou trabalhar a terra em comum, mas de fazer em comum uma vida nova, um mundo novo e uma nova sociedade. A mudança tem que ser pensada, não há ninguém que nos ensine como fazê-la; mas está no ar, está no pensamento, está no olhar, está na escuta. A mudança temos que fazer todos: gente do campo e da cidade”, disse o Subcomandante Moisés durante o sementeiro.

Entre o público estava presente Raúl Romero, da Rede Universitária Anticapitalista, que pensa que o conceito de Comum pode ser aplicado não só ao governo e à terra, mas também ao conhecimento. “Como professor da UNAM, a possibilidade de desprivatizar o conhecimento, de socializá-lo, de torná-lo comum me interpela diretamente. Me parece que os companheiros e companheiras zapatistas fizeram um excelente diagnóstico da situação mundial e não só compartilharam sua leitura, mas também sua construção de uma alternativa diante dessa situação. Além disso, a ideia de propor o Comum como uma disputa pela propriedade privada dos meios de produção me parece que tira das políticas de identidade e volta a centrar o tema na materialidade, sem deixar invisibilizadas outras formas de dominação que nestes dias foram nomeadas: as múltiplas vítimas visíveis e invisíveis das guerras”, diz Raúl Romero.
Durante o encerramento do evento, o Comandante Marcos lembrou as vítimas de desaparecimento no México, que “não são um número a ser manipulado pelos meios de comunicação como está ocorrendo nestes dias, mas sim pessoas com nome, história, parentes, amizades que não estão em lugar nenhum e que é preciso localizar e resgatar para a vida, para a memória e para ambas”, assinalou o comando zapatista.
Finalmente, concluiu: “no limbo incerto do que outrora foi a nação mexicana, à qual já só unem a dor e o terror, continuará sem descanso quem luta pelos ausentes, entre todos eles, uma que um dia se chamou pátria e que está extraviada entre o frívolo e o superficial, porque verdade e justiça são parte das desaparecidas”.

“O Estado-nação é a vítima principal da etapa atual do capitalismo”: Comandante Marcos no segundo dia do sementeiro zapatista (4 abril 2026)

“A governadora de Campeche Layda Sansores, a primeira-ministra fascista italiana Giorgia Meloni e a do Japão Sanae Takaichi, que é admiradora de Hitler: sim, há mulheres nos governos, mas qual é a diferença entre essas mulheres e Trump?”, pergunta o Comandante Insurgente Marcos às bases do EZLN e às 418 pessoas não zapatistas presentes no auditório do CIDECI – Universidade da Terra de San Cristóbal de Las Casas, Chiapas.
Através desses exemplos, durante o segundo dia do sementeiro “A Tempestade por dentro e por fora segundo as comunidades e povos zapatistas”, o Comandante Marcos abriu uma reflexão sobre o fato de que “a realidade é um espelho esférico e cada um vê o que pode. Então, nesse sentido, se for vista como uma questão de gênero, as mulheres podem dizer: sim, avançamos porque somos governadas por uma mulher. E os indígenas podem dizer: sim, há mudança porque o juiz da Suprema Corte de Justiça se veste como indígena. E aí cada um pode dizer ‘sim, há uma mudança’, porque está vendo apenas uma parte”.
Na segunda parte de sua palestra, o Comandante Marcos analisou a gênese dos Estados-Nação e afirmou que “é aí que o capitalismo encontra seu caldo de cultura e começa a se desenvolver. Desenvolve-se tanto que o Estado-Nação se torna um obstáculo e o capitalismo, o sistema, precisa que as mercadorias circulem, que sejam vendidas rápido e deem o maior lucro o mais rápido possível”. Concluiu que por isso o “estado-nação é a vítima principal da etapa atual do capitalismo” e que sua reconstrução não é possível. Além disso, o Comandante zapatista assegurou que “a soberania é uma piada mal-contada”, visto que o governo mexicano se declara soberano, embora não tenha a liberdade de decidir se envia petróleo a Cuba.

Por sua vez, o Subcomandante Insurgente Moisés expôs os problemas que vivem as comunidades chiapanecas em épocas de “esta grande transformação que está sendo feita por quem está lá no topo da pirâmide”. Falou dos problemas relacionados à drogadição dos jovens – algo que “antes não se via” –, da proliferação dos bares e das dinâmicas de corrupção que existem nas comunidades, onde muitas vezes o dinheiro das obras é distribuído entre os habitantes.
Boa parte da participação do subcomandante zapatista se concentrou em uma crítica aos programas governamentais como Semeando Vida e Jovens Construindo o Futuro, que o EZLN considera como estratégias de contrainsurgência, e mostrou grande preocupação com o processo de “esfarelamento” da terra que está ocorrendo nas comunidades. “O que nos ensinaram nossos avós é que temos que defender em comum, não de forma individual”, afirmou o Subcomandante Insurgente Moisés.
Uma mulher otomí que encontramos nas instalações do Cideci-Unitierra durante um momento de intervalo afirmou que em suas comunidades em Querétaro estão ocorrendo processos de parcelamento muito parecidos.
“Agora mesmo, ouvindo o Sub Moisés, vimos que tudo isso acontece também aqui em Chiapas”, disse a mulher, que também compartilhou uma reflexão sobre como se pode concretizar o conceito de “Comum” em territórios distintos dos zapatistas. “Nós agora somos residentes na Cidade do México e temos que encontrar outra forma de construir o comum: poderia ser, por exemplo, a luta pela defesa da água; temos pouca e agora, com a Copa do Mundo de Futebol, estão nos despojando da pouca que temos”, afirmou.
Sobre o Comum como opção de resistência e rebeldia estará focada a participação do Subcomandante Moisés de hoje, último dia do sementeiro zapatista.
A tempestade é também a crise climática: EZLN no primeiro dia do sementeiro zapatista (3 abril 2026)

“Neste sementeiro queremos mostrar diferentes visões que confrontam uma mesma realidade: o que vocês chamam de mundo e que nós chamamos de tempestade”, anunciou o Comandante Insurgente Marcos, que junto com o Subcomandante Moisés será o único palestrante durante os três dias do sementeiro “A Tempestade por dentro e por fora segundo as comunidades e povos zapatistas”, que começou neste 2 de abril nas instalações do CIDECI – Universidade da Terra de San Cristóbal de Las Casas, Chiapas.
O conceito de “tempestade” segundo as e os zapatistas nasceu em 2015, recordou o Comandante Marcos, durante o seminário “Pensamento crítico diante da hidra capitalista”, onde, junto com convidados e convidadas de diferentes partes do México e do mundo, o Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) apresentou uma análise do capitalismo contemporâneo e convocou a debater sobre estratégias de resistência e rebeldia diante da mesma tempestade.

“Descrevemos as guerras e suas características e agora estão ocorrendo; descrevemos o que a natureza iria responder à guerra que recebia e agora está ocorrendo”, recordou no primeiro dia deste sementeiro o Comandante Marcos.
O Subcomandante Moisés apresentou a visão coletiva – “um olhar de olhares, de povos organizados como zapatistas” – sobre um aspecto concreto da tempestade que a humanidade está vivendo: a crise climática. Em sua palestra, o comando do EZLN enumerou as mudanças que os povos zapatistas estão vendo e sofrendo em seus territórios, e que modificaram concretamente sua forma de vida e os padrões de irrigação e plantio. “Onde antes chovia agora não chove, onde há frio começa a haver calor; as árvores florescem de forma diferente: algumas se adiantam, outras se atrasam e outras não florescem. Deveríamos levar isso em conta e a sério, porque por mais que lutemos pela liberdade, não vamos ter casas, não vamos ter vida se o planeta terra estiver completamente destruído?”, disse o Subcomandante Moisés.
Durante o evento, o Comandante Marcos recomendou a leitura do livro Navegar o Colapso, que “desmonta todas as mentiras que o poder diz sobre a mudança climática”.

“O livro trata de marcar que a mudança climática não é um acidente histórico, mas um sintoma do capitalismo que tem efeitos irreversíveis. Existe uma cumplicidade entre todos os sistemas do conhecimento moderno, os governos e as transnacionais para propor as que no livro chamamos de ‘falsas soluções’ para a mudança climática e que só servem para legitimar o capitalismo”, afirma em entrevista Carlos Tornel, editor de Navegar o Colapso e colaborador do Tecido Global de Alternativas.
“A lógica do capital é tentar nos convencer de que tudo pode ser feito com uma mudança tecnológica onde você substitui uma coisa por outra e pronto, tudo o mais pode permanecer igual. Lá em cima dizem ‘vamos dar dinheiro para nos adaptarmos a este mundo degradado pelo capitalismo’, enquanto os zapatistas dizem: ‘não se trata disso, mas sim de como vamos defender a vida, a vida que resta, a partir de um processo de nos colocarmos ao lado da vida'”, diz Tornel.
No encerramento do primeiro dia, o Comandante Marcos anunciou que para a primeira semana de agosto o Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) organizará um sementeiro com especialistas no tema da crise climática. “Já não nos basta coincidir com a análise, precisamos conhecer experiências de resistências e rebeldia. O que se faz diante disso e se é verdade que a humanidade é inimiga do planeta terra, ou se o inimigo é um sistema”, afirmou.

