Por: Marina Nobel. Antropóloga, pesquisadora no NUPIEC – Núcleo de Pesquisa Interdisciplinar em Estudos Curdos.
O povo curdo é originário da região da Mesopotâmia e teve seus territórios ocupados com a criação dos estados da Turquia, Síria, Irã e Iraque. Diante desses processos de ocupação, o povo curdo, que constitui-se atualmente como o maior povo sem estado na nação do mundo, totalizando cerca de 45 milhões de pessoas, vem sofrendo há décadas com processos de assimilação cultural.
No contexto da Primavera Árabe, o governo de Bashar al-Assad da Síria reprimiu fortemente a população, ocasionando uma guerra civil com uma complexidade de atores. A população curda que vive no norte da Síria, ao se deparar com o vácuo de poder das forças armadas do governo, que deslocou seu poder bélico para as regiões centrais do país, ao passo que lutou contra o Estado Islâmico, que atacava a região, instituiu, junto a outros povos que vivem na região conhecida como Rojava, um novo paradigma político denominado Confederalismo Democrático, desenvolvido por Abdullah Öcalan, teórico e liderança política curda. Estes declararam a formação da Administração Autônoma Democrática do Norte e Leste da Síria (AANES), cujo sistema legal acorda princípios de descentralização administrativa e política baseados em uma democracia radical; liberação das mulheres; respeito à pluralidade e à diversidade entre os diferentes povos, etnias e religiões, e práxis ecológica.
No mês de junho, recebemos a visita da delegada do movimento de mulheres do Curdistão em Belo Horizonte, que está junto a outras delegadas percorrendo a América Latina para estabelecer pontes com movimentos sociais, organizações e grupos políticos, conectando as lutas do povo curdo com os povos da América Latina. Tive a oportunidade de acompanhá-la, participando das atividades que aconteceram em Belo Horizonte, bem como realizar esta entrevista. A companheira do movimento de mulheres do Curdistão, além de compartilhar e ensinar sobre o processo revolucionário de Rojava, percorreu os territórios com uma escuta atenta e humilde, correlacionando as lutas do Curdistão com as dos nossos territórios. Suas falas e partilhas não apenas trouxeram conhecimento, mas tocaram os corações das pessoas que tiveram a oportunidade de escutá-la e que compartilharam se sentirem muito inspiradas com a luta do povo curdo e o sistema político de autogestão (confederalismo democrático) que assegura às mulheres um lugar central na sociedade, democracia direta e coexistência pacífica entre diferentes etnias.
Conte-me qual trabalho a delegação do movimento de mulheres do Kurdistão a qual você pertence, está realizando na América Latina?
Para o movimento Mulheres Livres do Kurdistão falar de América Latina também é falar das companheiras Lêgerîn e Berta Cáceres. A relação do movimento com as resistências da América Latina e com os povos daqui é uma relação muito antiga. Desde o início do movimento curdo, sempre investigamos e aprendemos com as lutas dos povos e das mulheres da América Latina. No momento atual, acreditamos que as relações entre os povos em resistência podem ir além de relações de solidariedade internacional, mas construir articulações e aprendizagens concretas para essa luta conjunta que é a luta contra o patriarcado, o capitalismo e o colonialismo.
Nossa perspectiva é construir fortes laços que abram uma nova etapa de luta comunal e que nos deem possibilidades de compreender as lutas da América Latina e de expandir a luta do povo curdo, baseadas no companheirismo entre os povos, especialmente na experiência das mulheres, dos jovens, dos povos indígenas, afrodescendentes e trabalhadores em resistência. Estes contribuem com a luta mundial contra os poderes hegemônicos e demonstram que a unidade das mulheres, a nível internacional, é a face mais profunda da luta pela dignidade e autonomia dos povos.
Conte-me sobre sua visita a Belo Horizonte. Em quais territórios esteve e como foram as trocas nesses espaços?
Antes de chegar a Belo Horizonte, tivemos a oportunidade de estabelecer o diálogo com companheiros e companheiras de organizações e movimentos sociais que criaram a possibilidade de nossa visita.
Para nós é muito importante entender como se criam as possibilidades de resistência em contexto urbano e rural, uma vez que vivemos submetidos ao capitalismo urbano, mas sabemos também que dentro da urbanidade há organizações e resistências. Nossa visita à ocupação Fazendinha, através do Movimento de Organização de Base de Minas Gerais (MOB/MG), nos deu a possibilidade de conhecer um desses exemplos dentro da cidade de Belo Horizonte. O lugar que as mulheres têm na ocupação fazendinha demonstra que a capacidade de organização coletiva, proteção da vida comunal é a força que acompanha as comunidades. A ocupação sofre ao longo dos últimos 5 anos constantes ameaças, mas as mulheres, com a construção de suas próprias casas, horta popular, espaço de crianças, centro comunitário e escola popular, conformam uma linha de defesa da própria comunidade. Elas constroem vida para que as pessoas possam viver lá e criaram um sistema de autogestão próprio.
Conhecer mulheres que através do movimento de luta por moradia, aprenderam a ler e a escrever e hoje em dia são lideranças no território, nos lembra também dos esforços das mulheres do Curdistão que, confrontando o patriarcado do Oriente Médio, chegaram a ser representantes de seu próprio povo.

Primeira imagem: reunião de moradoras da Ocupação Fazendinha. 21.06.2026
Segunda imagem: construção do centro social da Ocupação Fazendinha. 21.06.2026
Durante esses dias, tivemos a oportunidade de dialogar com o Comitê Mineiro de Solidariedade ao Povo Palestino e outras organizações de Belo Horizonte que contribuem com as lutas territoriais na criação de ferramentas de luta popular. O encontro com o Comitê e o movimento de liberação do Kurdistão aconteceu em um dos episódios mais tristes da humanidade, quando se televisiona um genocídio de magnitude que enfrenta o povo palestino. Se analisarmos os genocídios que, durante milhares de anos, atravessam o povo curdo e o povo armênio no Oriente Médio, evidencia-se a necessidade de unidade e de encontros como esses que realizamos.
Importantes temas foram debatidos. A necessidade de conectar as lutas locais com as lutas internacionais como ferramentas de combate com a nova escalada das forças imperialistas. A situação de guerra que vive o povo palestino e o povo curdo serve de espelho para os povos da América Latina que confrontam, mesmo que com diferentes estratégias, os estados-nação, a mesma guerra dos poderes hegemônicos.
A voz das mulheres participantes deixou em evidência que, nesse contexto da Terceira Guerra Mundial, a organização e a prática tanto dos movimentos do Brasil como das mulheres curdas abrem um caminho de possibilidade de resistência dos povos. Foi falado da revolução das mulheres de Rojava como um exemplo e uma luz para as mulheres do Brasil. Compartilhamos a situação de Abdullah Öcalan, liderança do povo curdo, que há 27 anos está encarcerado. Öcalan sempre lutou para estabelecer um processo de paz e mudança política na região do Oriente Médio. Há mais de um ano Öcalan propôs uma nova tentativa de estabelecer um processo de paz entre a Turquia e o Curdistão. Esse processo foi compartilhado com as pessoas presentes no encontro.
Com o objetivo de seguir cultivando as relações entre as lutas do povo curdo e dos povos da América Latina, exibimos o filme Lêgerîn, en busca de Alina da diretora argentina María Laura Vásquez na kasa Invisível que fala sobre a trajetória de uma internacionalista argentina que se uniu ao movimento curdo e trouxe grandes contribuições para unir as lutas das mulheres da América Latina e Curdistão.
O filme gerou grande impacto e emoção nos companheiros e companheiras, visto que a companheira Lêgerîn conseguiu levar as vozes da América Latina até as montanhas do Curdistão. E, depois de cair mártir, muitas companheiras e companheiros da América Latina sentiram um chamado ao seu legado. Em sua memória, debatemos sobre a situação atual de Rojava, as vitórias das mulheres no território, as dificuldades que o povo curdo enfrenta com o HTS, governo provisório da Síria.

Imagem: Cine debate na Kasa Invisível – Exibição do filme “Legerin, em busca por Alina”- 21.06.2026
Você pode relatar o que tem ocorrido em Rojava desde a queda do regime de Bashar al-Assad e a ascensão do HTS, o governo provisório sírio?
Entre janeiro e fevereiro de 2026, o regime provisório sírio, com apoio do Estado turco e as proxys do HTS, lançou uma nova ofensiva contra o povo curdo da Síria. Ocuparam e destroçaram os bairros curdos de Allepo, assassinando muitos civis e provocando um deslocamento da população. Essa ofensiva continuou até alcançar a Administração Autônoma do Norte e Leste da Síria (AANES), também chamada de Rojava, ocupando os territórios de Rakka, Tabqar Dere Zore, zonas onde o povo árabe e curdo convivem desde o início da revolução. O objetivo de ocuparem esses territórios foi preparar a invasão ao território curdo e ocupar Kobane, cidade emblemática de resistência do povo curdo. Durante mais de dois meses, o HTS, com a contribuição do estado turco, sitiou Kobane. Não entrava comida, e medicamento, houve corte de água e eletricidade. Ocorreu a morte de algumas crianças e idosos pela falta dos insumos. Eles separaram os territórios de Rojava, que ficaram ilhados. Em todo o território houve corte de luz e água. O povo organizou uma resistência junto com as unidades de defesa de Rojava (YPG e YPJ), que permitiu, diante da ofensiva do HTS, parar a ofensiva militar. Foram muitos os civis e combatentes que perderam a vida nessa defesa. Centenas de prisioneiros curdos ainda estão esperando a liberação nas prisões da Síria.

Imagem: Mulheres em Kobane e membros do Kongra Star declararam seu apoio à mobilização geral, prometendo que não abandonarão sua cidade, independentemente das consequências. ANFNEWS.
Diante do risco de mais avanços e inovações do HTS, a AANES iniciou um processo de diálogo com o Governo provisório sírio. Esse novo processo busca realizar uma integração política e democrática para toda a Síria. O objetivo não é introduzir a AANES ao Estado Sírio, é proteger Rojava, os valores e ganhos da revolução com uma nova mudança constitucional e acordos políticos e de segurança para toda a Síria que reconheça a AANES enquanto um território autônomo e legítimo dentro do território sírio. O processo de democratização da Síria é necessário para estabilizar os conflitos da região. Proteger a AANES significa proteger mais de 8 milhões de pessoas que são o povo curdo, árabe armênios, cristãos, mulculmanos, alevis, que convivem em paz e se organizam politicamente em base em um sistema confederal, (Confederalismo Democrático) juntos há mais de 15 anos em Rojava, desde o início da revolução. As negociações continuam com a observação do estado turco, que vê nessa tentativa de estabilização e democracia para a Síria perigo para sua hegemonia no Oriente Médio. O povo curdo luta por um caminho de paz democrático para toda a Síria, compreendendo que a defesa da revolução significa a defesa da dignidade dos povos e mulheres para toda a Síria e Oriente Médio.
Essa importante visita a BH reafirmou a necessidade que têm os povos, as mulheres… de encontrar e articular seus pontos e ferramentas de luta em comum. Não se pode existir paz no Brasil se não existir paz no Curdistão e na Palestina. A luta dos povos não está restrita pelas fronteiras dos estados, a história da luta internacionalista dos povos continua sendo escrita por aquelas, aqueles que são capazes de superar as fronteiras e sentir as vitórias e a resistência de outros povos com as suas próprias.

Imagem: Seminário Palestina e Curdistão: a resistência dos povos contra a guerra dos estados no Memorial de Direitos Humanos ocupado. 22.02.2026
