por El Tekpatl
Originalmente publicado em: https://desinformemonos.org/los-pueblos-refundan-el-significado-de-revolucion/
O conceito de revolução está sendo ressignificado pelos povos originários que resistem ao capitalismo, e também por alguns movimentos negros, camponeses e sociais. O imaginário revolucionário foi desfigurado ao se considerar quase qualquer coisa como revolução: desde uma simples vitória eleitoral das forças populares até a ascensão de líderes que mencionam esse vocábulo como forma de achatar os conflitos nas sociedades. Para a imensa maioria das esquerdas, revolução é sinônimo de conquista do poder. O imaginário da revolução ficou assim aprisionado no estatismo. Para refundá-lo ou ressignificá-lo, é preciso arrancá-lo das garras do Estado.
Uma entrevista do jornalista Julio Scherer com o subcomandante Marcos lança luz sobre a concepção zapatista. Marcos rejeita a definição de revolucionário e escolhe a de rebelde social. O revolucionário tende a se tornar um político e o rebelde social não deixa de ser um rebelde social […] Porque um revolucionário se propõe fundamentalmente transformar as coisas de cima para baixo, não de baixo para cima, ao contrário do rebelde social.
O revolucionário se propõe: vamos fazer um movimento, tomar o poder e de cima transformar as coisas. E o rebelde social não. O rebelde social organiza as massas e de baixo para cima vai transformando sem ter que se colocar a questão da tomada do poder. (Marcos, 2001)
O zapatismo está fazendo uma revolução, segundo suas próprias palavras. O primeiro passo foi recuperar terras; para isso, precisaram se organizar em trabalhos coletivos entre as bases de apoio e como exército a serviço das comunidades. Ambos os processos implicam a construção de poderes de baixo, ou poderes não estatais; autonomias e autogovernos territoriais, com base nos usos e costumes comunitários. A construção de um mundo novo foi o passo seguinte, com clínicas de saúde, escolas, secundários, cultivos comunitários sem agroquímicos, justiça própria.
Na minha opinião, não houve passos sucessivos, mas sim que a construção integral das autonomias atravessa todo o processo desde a formação do primeiro núcleo zapatista. Assim como não tomaram o Estado, mas criaram poderes próprios, nas terras recuperadas não repetiram a lógica de acumulação dos fazendeiros, mas foram construindo aquelas formas de vida que as comunidades precisavam para sua reprodução. Onde havia grandes extensões de monocultivos agrícolas e pecuários, as bases de apoio produzem de outro modo, baseando-se nas decisões que tomam em assembleias.
A construção zapatista tem as características centrais do que se entende por revolução: mecanismos de poder, recuperação dos meios de produção e de troca (a terra), eliminação da classe dominante nos espaços onde “o povo manda e o governo obedece” e, além disso, dedicam enormes esforços para criar o mundo novo segundo os desejos e decisões dos povos.
Apresentação do livro “Esquivar a guerra Construir mundos novos” de Raúl Zibechi em Puebla.
Conselho indígena de governo de Santiago Mexquititlan
Núcleo de Direitos Humanos
Publicado originalmente em El Tekpatl
