A comunidade da Terra Indígena Votouro, norte do Rio Grande do Sul, denuncia perseguição política e violência após três assassinatos dentro do território nesta terça-feira (13).
Segundo relatos de moradores, o cacique atual, bolsonarista, ameaçou retaliações a indígenas da comunidade que faziam campanha para Lula. Estes, não contentes, foram tirar satisfação e um conflito se instaurou.
Ainda segundo relatos, mesmo com a presença da Brigada Militar no território, um jovem foi atingido e morto. Em outro momento, a Brigada Militar interveio contra o grupo e assasinou mais duas pessoas.
“Aqui todos policiais são bolsonaristas, fazem o que o cacique quer”, diz o áudio de um morador indignado com o acontecido. As mortes foram efetuadas em decorrência de violência política. “Já está assim agora, imagina se o bolsonarismo volta ao poder”, questiona um morador da comunidade.
Os indígenas contestam a narrativa de conflito isolado e relatam histórico de expulsões, ameaças e repressão a opositores da liderança local, que arrenda terras e é apoiador de Flávio Bolsonaro.
Segundo o relato, aproximadamente 60 famílias teriam deixado a comunidade em meio às disputas. O denunciante afirma que essas famílias teriam sido expulsas por divergências políticas. Entre as situações relatadas de conflitos anterior está a destruição da casa do pai do vereador Pira, supostamente realizada com uma retroescavadeira. As denúncias atribuem essas ações à atuação do cacique local e apontam que os conflitos não começaram no dia dos assassinatos, mas seriam resultado de anos de tensões acumuladas.
Outro depoimento, feito por uma integrante da comunidade, denuncia o afastamento de trabalhadores indígenas de suas funções por supostas divergências políticas.
A moradora cita profissionais com longos anos de atuação na comunidade, incluindo um motorista com 14 anos de serviço, um agente indígena de saúde com 24 anos de trabalho e uma professora, que teriam sido afastados por decisão da liderança local.
Segundo ela, funcionários também teriam sofrido pressões relacionadas ao posicionamento eleitoral, inclusive para apoiar candidatos ligados ao bolsonarismo.
Essas acusações reforçam a preocupação manifestada pelos denunciantes com a liberdade de organização política e com a segurança das famílias que vivem no território.
Em um dos relatos mais graves, uma moradora apresenta uma versão específica sobre a morte de um jovem. Segundo a denunciante, o jovem teria se aproximado para conversar durante a chegada de viaturas e sido agredido no rosto antes de ser atingido por disparos de arma de fogo.
Ela sustenta que ele estava desarmado e afirma que testemunhas teriam presenciado a situação. Também denuncia que a vítima teria recebido um segundo disparo quando já estava caída.
A moradora pede que essas circunstâncias sejam investigadas e que a Brigada Militar e os responsáveis sejam responsabilizados. O depoimento também revela o sofrimento provocado pela morte do jovem, descrito como pai de família e participante ativo da vida comunitária.
Os relatos demonstram um ambiente de medo e insegurança entre moradores da Terra Indígena Votouro. Uma das denunciantes afirma temer pela própria vida em razão de sua participação política e pede a intervenção de outras lideranças indígenas para impedir novos episódios de violência.
O apelo é dirigido especialmente aos caciques de outras aldeias, convocados a buscar soluções para a situação e a contribuir para a proteção das famílias.
É fundamental que as circunstâncias das mortes, as denúncias de perseguição política, os possíveis afastamentos arbitrários de trabalhadores e a situação das famílias que teriam sido expulsas sejam investigados com transparência, respeito aos direitos indígenas e proteção às testemunhas.
A tragédia na Terra Indígena Votouro evidencia a urgência de mecanismos efetivos de proteção à vida, à integridade das comunidades e à autonomia dos povos originários.
Reconhecer a autonomia indígena não significa silenciar denúncias de violência ou impedir que integrantes de uma comunidade reivindiquem seus direitos. Pelo contrário, a proteção dos territórios deve caminhar junto ao respeito à diversidade de posições políticas, à organização comunitária e à segurança de todos os seus integrantes.A Teia dos Povos se soma à exigência de apuração rigorosa dos assassinatos e das denúncias apresentadas, com atenção especial à proteção das famílias ameaçadas e à garantia de que as vozes dos moradores sejam ouvidas.14 de outubro de 2026Teia dos Povos
