Posted on: 15 de outubro de 2026 Posted by: Teia dos Povos Comments: 0

Entrevistadores: Maikel da Silveira e Bruna Costa

Salvador, 07 de junho de 2016

Em julho deste ano, a Casa de Castro Alves, em Salvador, recebeu a exposição Olhe Bem as Montanhas, as Águas e os Povos, que apresentou ao público da capital baiana um pouco do trabalho realizado há mais de 20 anos pela Escola das Águas Nascentes, em Piatã, na Chapada Diamantina. A exposição organizada pela curadora Bruna Costa, com apoio do Instituto Alameda,, reuniu fotografias, produção artesanal e obras de arte para chamar atenção para o papel dos povos tradicionais na defesa de um território cada vez mais ameaçado pela mineração.

O nome da exposição foi inspirado em uma obra de arte conceitual criada pelo artista mineiro Manfredo de Souzanetto, em 1974. Tratava-se de um adesivo, feito para ser colado no vidro traseiro dos carros, em que se podia ler a frase Olhe bem as montanhas sobre um horizonte sinuoso, que remete à paisagem montanhosa ao redor de Belo Horizonte. A princípio, o objetivo do artista era chamar atenção para os riscos da exploração do minério de ferro nas montanhas que cercam a cidade, publicando a frase nos jornais locais, que se recusaram a aceitar o anúncio, temendo se tratar de um código de guerrilha, de uma mensagem cifrada. O país estava, vale lembrar, em plena ditadura militar. Foi assim que surgiu a ideia do adesivo. Depois que ela tomou conta das ruas, os próprios jornais começaram a repercutir o sucesso do adesivo em suas matérias, potencializando o alcance da mensagem, que chegou às páginas do Jornal do Brasil, em 10 de julho de 1975, na coluna de Carlos Drummond de Andrade.

“A arte desse rapaz mineiro numa atitude talvez romântica, mas imbuída de autêntico humanismo, convida a reparar, tanto no contorno majestoso das serras como na importância que elas assumem no quadro geral da vida”, escreveu o poeta mineiro. “O pico não é só uma referência sentimental para quem nasceu à sua sombra e pela manhã, ao acordar, o vê postado como atalaia protetora. É um dado essencial do meio físico, disposto de maneira a integrar determinada composição natural que rege as condições de vida. Eliminada sua presença, altera-se o equilíbrio, e como coisa alguma a substitui, senão o vazio, a terra e os homens ficam mais pobres, numa antecipação do fim que há de ocorrer pelo esgotamento dos recursos naturais”.

Brígida Salgado, que nasceu em Passa Tempo, em Minas, lembra de ter lido muitas vezes essa frase, adesivada em carros nas ruas da capital mineira, quando morou na lá em 1974, aos 18 anos de idade. Anos mais tarde, já na Chapada Diamantina e à frente da Escola das Águas Nascentes, ela teve uma ideia inspirada na frase que ficara guardada em algum canto de sua memória desde a juventude.

“Quando cheguei à Bocaina, eu falei vou fazer umas camisetas para a Escola colocando essa frase”, ela conta. “Fizemos a camiseta a partir de uma foto e incluímos a frase ‘olhe bem as montanhas’, mas eu não tinha a menor ideia, naquele momento, de que era a frase de um artista”.

Foi só nas conversas de preparação da exposição, quando a frase voltou à baila, que ela soube, em conversa com a curadora Bruna Costa, que a frase era de um artista conhecido. “Pensei, pronto, não vou poder usar”, lamentou. Longe disso. Bruna entrou em contato com Manfredo e contou pra ele a história. O artista não só autorizou o uso da frase como ficou muito feliz de saber que ela ainda ecoava dessa forma.

O alerta feito em 1974 segue mais importante do que nunca num período em que os interesses econômicos ameaçam biomas por todo canto do Brasil. Ao acrescentar às montanhas da frase de Manfredo de Souzanetto as Águas e os Povos, a Escola das Águas Nascentes, de certo modo, amplia o gesto do artista mineiro. E o faz, diga-se de passagem, todos os dias, em sua prática, aliando agroecologia, preservação ambiental e recuperação de saberes tradicionais nas comunidades onde atua.

A exposição foi uma forma de registrar e reconhecer o trabalho de inúmeras pessoas que, com seus cultivos e sua cultura, têm um papel fundamental no esforço coletivo que é necessário para podermos adiar, como alertava Drummond, a “antecipação do fim que há de ocorrer pelo esgotamento dos recursos naturais”.

ENTREVISTA

Entrevistador: Brígida, conta para a gente um pouco da sua história e de como você chegou à Escola das Águas Nascentes, na Chapada.  

Brígida: O sonho da escola é um sonho bastante antigo. Desde que eu fui para a Chapada, morar na Fazenda Flor de Café, existia essa ideia de uma escola — inicialmente, uma escola de formação em agroecologia. Isso foi evoluindo à medida em que fui encontrando pessoas que foram me ajudando a dar forma ao que poderia ser essa escola. Sempre pensei numa escola que não fosse voltada para as elites, porque na época muitas pessoas pensavam numa escola de permacultura, numa escola de agroecologia, nos moldes de muitas escolas que começaram a surgir entre os neo-rurais, como a gente costuma dizer. E eu sabia que não era isso que eu queria. Eu queria um encontro meu com os meus princípios — não só com os princípios políticos, mas também com os meus princípios de vida. Lembrava dos meus avós, lembrava da minha infância, em que uma escola era pensada de uma forma mais diversa mesmo. E aí, em 2003, eu encontro Joelson Ferreira, da Teia dos Povos. É quando retomo essa ideia da escola nos moldes de uma escola popular, no espírito da Universidade dos Povos, tal como pensada pela Teia. Em 2023, a gente inicia esse trabalho com a Escola das Águas Nascentes, já com esse nome, com essa perspectiva de uma escola que fluiria como as águas – alguém falou isso uma vez, achei muito bonita essa imagem da fluidez das águas. E é isso que a escola hoje é.

Entrevistador: Conta aquela história da sua participação no Fórum Social Mundial, que você contou na abertura da exposição…

Brígida: É muito interessante, porque, quando decidi ir para o campo, comecei a me corresponder com Frei Betto. E quando fui para o Fórum Social Mundial — acho que foi em 2003, foi o segundo Fórum Social Mundial, sempre fico na dúvida se foi 2002 ou 2003 —, a ideia era falar com ele sobre a escola. Nos encontramos e eu disse: “Olha, eu tenho uma área, que é uma fazenda, mas moro lá sozinha – na época meus pais tinham falecido, meu filho tinha ido fazer universidade, e eu estava lá só – e queria preencher esse espaço com mais pessoas”. E aí ele disse: “Olha, e se você pensasse numa escola junto com o MST? Procura o João Pedro”.

Eu gosto sempre de contar essa história, porque é muito engraçada. Na mídia, sempre se ouvia falar muito do Stédile, mas ele falou João Pedro. E lá fui eu atrás João Pedro qualquer. Quando me dou conta, era o João Pedro Stédile. Quando conversei com ele, ele me orientou: “Olha, isso aí não é comigo, não, isso aí é com o povo da Bahia. Se você está lá na Bahia, tem que conversar com o povo da Bahia. Lá é o Joelson”. Aí ele me passou o contato do Joelson Ferreira. Naquela época não tinha celular, não tinha nada. Em Piatã, nem telefone público tinha. Você tinha que ir para uma cabine de telefone onde ficava uma telefonista fazendo chamadas. Então era bem no começo ainda do Terra Vista…

Entrevistador: Então você conhece Joelson dessa época?

Brígida: Desde essa época, sim. Quando nos encontramos para conversar ele me disse: “Olha, não tenho tempo de pensar numa escola agora, porque nós estamos fazendo ocupações” – eles estavam num período de muitas ocupações, foi um período bem intenso na Bahia. E isso ficou meio que abandonado. Aí eu fui cuidar da vida, fui aprender sobre café e fiz mil coisas na Fazenda Flor de Café – tanto é que fiquei, por um período, conhecida como a mulher do café da Chapada. Um tempo depois, meu filho se formou em agronomia e foi dar uma aula lá no Terra Vista [assentamento do MST, no Sul da Bahia, onde vive Joelson Ferreira, principal liderança da Teia dos Povos no estado]. Foi aí que eu retomei esse contato com o Joelson. Passado isso, tem um momento em que surge a Teia dos Povos. E a iniciativa vai crescendo, jornada após jornada de agroecologia. Várias pessoas que faziam estágio lá em casa nas jornadas, para apresentar trabalhos junto com o pessoal do Instituto Federal. Chegou então o momento em que a Teia começou a pensar a Universidade dos Povos. O Celso [Antônio Favero], professor da Universidade Estadual da Bahia (UNEB), que estava aqui hoje, é um dos pensadores dessa Universidade. Eu participei de algumas reuniões com o Celso, com o Joelson, com o Juarez Pereira Furtado [pesquisador e professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp)]. Na Jornada de 2023, a gente definiu que lá seria a Escola das Águas Nascentes, porque já existia a Escola das Águas, que é na Resex de Canavieiras, e hoje está sendo expandida para a Ilha de Maré. A princípio, a gente pensava, inclusive, que seria a Escola do Café, como se fala Escola do Chocolate [a Fábrica-Escola de Chocolate  que fica no Assentamento Terra Vista, em Arataca, no sul da Bahia; o projeto une reforma agrária, agroecologia e educação técnica para jovens do campo na produção de chocolates orgânicos]. Só que a gente tinha enfrentado problemas de seca, problemas muito sérios com água. E aí falamos: “Não, tem que ser das Águas Nascentes”. Joelson foi lá me visitar, junto com Juarez, inclusive, e nessa visita vimos a necessidade que existia de recuperação dessas nascentes.

Entrevistador: Justamente por conta da seca?

Brígida: Da seca e de outro problema, que é uma longa história. Posso, depois, em outro momento, contar para vocês. Mas, só para vocês terem uma ideia, passei dois anos recebendo caminhão-pipa para me abastecer em casa, na roça. Aí você diz: “Mas como um lugar tão cheio de água precisa de caminhão-pipa?”. Foi um problema muito sério, um problema de terras. E foi aí que a gente se reanimou e reforçou a necessidade da escola para assegurar aquelas terras também. Então, em 2023, na Jornada, a gente define a Escola das Águas Nascentes como mais uma escola da Teia dos Povos. Em março daquele mesmo ano, a gente faz o primeiro encontro, que seria inicialmente só um mutirão, com o pessoal do Terra Vista indo para lá ajudar. Mas a coisa tomou a proporção de um encontro bem grande. A gente fez lá e nas Tapuias, um território indígena que fica na cidade de Seabra (BA). A partir dali, se consolidou a Escola das Águas Nascentes.

Entrevistador: Me fala, então, como esse trabalho começa, com a recuperação das nascentes, e como ele deságua, por exemplo, tanto neste trabalho que vimos hoje, com a exposição, como ou em outros trabalhos de recuperação de saberes tradicionais.

Brígida: Nesse primeiro encontro, Rose [Roselice Silva] ficou responsável pela oficina da cozinha. Nessa oficina, que fomos preparando ao longo do tempo, fomos identificando, junto com as mulheres lá da comunidade de Malhada de Areia, em Piatã, o que elas comiam quando eram crianças. Uma das coisas era o algodão, elas comiam folha de algodão. Então fizemos uma atividade, nesse primeiro encontro, focada em pratos feitos com algodão. Decidimos também fazer um plantio de pés de algodão na região de Piatã.  No segundo encontro, eu já tinha conhecido seu Gervásio [Gervásio José de Oliveira, que deu uma oficina de fiação de algodão na exposição] e sabia que ele fiava. Contei pra ele que tínhamos plantado uns pezinhos de algodão e veio a seguinte ideia: se tiver uma seca e não tiver café, o que a gente pode plantar? Algodão dá pra plantar. Acabou que seu Gervásio veio para o segundo encontro para fazer a oficina de fiação de algodão. Nesse segundo encontro, teve também a parte de medicina, com a Patrícia [Baier Krepsky], que é professora da UFBA, e a Rosa [Maria Rosa dos Santos Assunção]. Elas falaram sobre a parte medicinal do algodão. 

Aí descobrimos umas coisas que são, na verdade, redescobertas ou reminiscências. Por exemplo, que o algodão alimentava, curava e também podia vestir. Nesse meio tempo, encontramos alguns teares que estavam abandonados numa casa e foram parar na Escola Rural. Ninguém lá sabia o que era aquela madeira, queriam queimar. Quando vou lá e resgato essa madeira, descubro que são teares. Montamos esses teares e fizemos também uma oficina de tecelagem. A partir dessa oficina, também foi possível se vestir com o algodão. Então o algodão é uma planta realmente completa, porque alimenta, cura e veste.

Entrevistador: Então dá para dizer que, a partir de uma necessidade concreta — a questão da água ou a questão de ter uma alternativa ao café —, isso acabou criando uma ponte de contato com a comunidade e abrindo um caminho de cooperação com o pessoal local. Como você vê isso hoje? Em que medida essa exposição representa um pouco esse encontro.

Brígida: Estou muito, muito feliz, contente e satisfeita mesmo com esse evento que fizemos aqui, porque acho que ele sintetiza, de fato, o que é uma escola popular, o que é uma escola dos povos. É essa mistura, esse encontro. É uma coisa interessante, porque, nesse meio tempo, fomos fazendo também as cooperações técnicas com a UESB (Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia) e a UFBA . A gente viu: a universidade pode apoiar nisso aqui, pode trazer, por exemplo, uma coisa que foi colocada, que é a análise da qualidade da água, saber dessa qualidade e como reaproveitar essa água. Esse é um saber que a universidade tem e traz para a gente. E a gente devolve nessa condição: com isso, podemos plantar, colher, encontrar essas atividades que ficaram perdidas.

Por que ficaram perdidas? Porque eram atividades apenas utilitárias. Fazer um cesto era pela necessidade de ter uma vasilha em casa. Fazer uma esteira era porque era bom deitar na esteira. Fazer o balaio, fazer a peneira: tudo tinha uma função utilitária. Quando essa função utilitária vai para a indústria, e a indústria toma conta e acaba com toda essa utilidade de uma peneira, de uma esteira, a gente pode transformar isso em arte. É isso que a gente identifica nessa exposição. Você valoriza o trabalho do artesão como artista. Ele era artesão porque fazia artefatos de utilidade. Agora vai além disso. E também se preserva o saber tradicional. Tem gente que se pergunta: “Mas para que preservar esse saber tradicional, se eu já posso ir ali ao mercado e comprar?”.

Entre outros motivos, porque, se tivermos eventos extremos de clima, por exemplo, a gente precisa saber fazer. A gente tem que buscar com quem sabe. E quem sabe são os mais velhos, essas pessoas mais antigas que utilizavam, que necessitavam e que agora podem ser nossos mestres.

Entrevistador: Queria que você falasse um pouco da cooperação técnica com a UESB no projeto do Rio de Contas e de como esse projeto já sugere um caminho interessante, um caminho que a gente, por exemplo, experimentou no Festival Sabores da Liberdade, organizado em Jitaúna, que reuniu representantes de diversos territórios ligados à Teia na região para criar pratos com ingredientes produzidos exclusivamente em suas terras ou trocados com outros participantes. Falo , por exemplo, da maneira como o próprio Rio das Contas pode ser uma forma de conectar comunidades diversas. Dá pra dizer que esse projeto já tem algo disso no horizonte, digo, dessa ideia de conectar diferentes territórios e contribuir para a soberania territorial de todos eles?

Brígida: O NEA Rio de Contas entra na vida da escola e a escola entra na vida do NEA ao mesmo tempo, é uma confluência. Eu já recebia professores da UESB para fazer trabalhos de pesquisa. Ao mesmo tempo, eu tinha ido fazer um curso de permacultura na Universidade Federal do Oeste da Bahia (UFOB), e lá encontrei a Letícia [Magalhães Fernandes], que tinha estado numa formação política da Teia dos Povos. Começamos a pensar em como a universidade poderia contribuir com a Escola das Águas Nascentes. Pensamos, então, em fazer cooperação técnica formal com alguma universidade,  

Mas a que se consolidou mesmo foi com a UFBA, do campus de Vitória da Conquista, através da professora Patrícia Baier; e com a UESB, principalmente através de Letícia Magalhães, do campus de Itapetinga, e Helena Araújo, do campus de Jequié. Quando surgiu o edital para o NEA, que é o Núcleo de Estudos em Agroecologia, pensamos: “Vamos inscrever”. E escrevemos a várias mãos. Foi muito interessante, porque Neto [Onirê Sankara], militante do MST e da Teia dos Povos, já estava trabalhando com a Mainara [Nise Rocha Frota] lá no assentamento Claudiomiro, em Jitaúna; eu já estava trabalhando com Helena aqui, ambas são da UESB e Jequié é uma das cidades por onde passa o Rio de Contas.

E isso é interessante também porque já tinha sido uma ideia. Uma vez, vi um mapa lá na casa do Joelson Ferreira, no Terra Vista, um mapa dos anos 1800, em que aparecia o Rio de Contas. Fomos percorrendo o Rio de Contas nesse mapa e pensamos: “Nossa, a gente podia fazer uma conexão da nascente até a foz”. Porque, na foz, tem o quilombo do Oiti, em Itacaré, com o Jorge Rasta, que também já está na Teia.

Isso casou perfeitamente com a proposta do edital. Já tinha o Jorge Rasta, que é da Teia; já tinha Neto, que é da Teia; já tinha eu. A universidade é que tinha que apresentar. O que fizemos foi pensar esse caminho juntos.

Hoje foi que me dei conta de que esse elo também tem a ver com aquele mapa que o Terra de Preto fez durante o Festival Sabores da Liberdade, mapeando a produção de cada território, visando facilitar a troca de produtos entre eles. Nesse caso do Rio das Contas, nossa ideia é ir além da troca de produtos, mas partir para a troca de saberes também, para essa integração dos povos. Foi uma confluência mesmo de ideias e, agora, de saberes que vamos trocando. Dá pra compartilhar não apenas produtos e coisas, mas uma história mesmo, como se estivéssemos encontrando um território comum ao seguir o curso do Rio.

Entrevistador: Se você para imaginar o futuro da escola, por exemplo, daqui a 20 anos, o que você imagina?

Brígida: Nesse projeto do NEA, uma das questões que colocamos — porque tinha que ter extensão e pesquisa — foi a pesquisa. Eu disse: “Gente, não existe nenhuma pesquisa sobre cafés orgânicos, visando saber qual é a melhor variedade para um café agroflorestal num sistema orgânico”. Porque é bom dizer que falar em sistema agroflorestal não quer dizer automaticamente que seja agroecológico ou orgânico. Foi muito interessante, porque as professoras toparam. Hoje, nesse projeto, estamos fazendo um experimento com três variedades de café, todas da espécie arábica, mas de variedades diferentes. Uma variedade que chamamos de semente crioula, que é o primeiro café que chegou ao Brasil, o Typica; o café Arara; e o café Asa Branca. Esse Asa Branca foi desenvolvido pela Embrapa para o cerrado, para ser cultivado no cerrado.

E aí você me pergunta o que eu penso da escola. Eu penso que teremos resultados, inclusive dessa pesquisa, para dizer: “Gente, querem implantar café orgânico, agroecológico e agroflorestal? Olha a variedade que se deu melhor nesse clima”.

Porque estamos medindo o clima, estamos medindo a chuva, o clima em geral e a produtividade também. Então, para os agricultores familiares da região que têm café, poderemos contribuir a partir dessa pesquisa.

Isso também é muito interessante, essa confluência de universidade e saberes. Porque as comunidades rurais quilombolas que têm café, têm geralmente a variedade Typica, de cem anos atrás. Isso é muito interessante. Elas conhecem a planta, sabem como a planta vai se desenvolver. Então, além dos dados mais técnicos, também vamos trazer esse conhecimento tradicional. Acho que a evolução da escola é essa: ser um lugar de encontros, de trocas.

Entrevistador: Tá feliz com a exposição?

Brígida: É uma coisa que tenho falado o tempo todo: eu ficava achando que, nesse trabalho todo da gente, faltava arte. Eu sempre falava: “Está faltando arte”. Mas a gente pensava em arte numa coisa assim… vou te falar sinceramente: eu pensava mais na linha da música, da dança, das danças tradicionais. E agora a gente descobre a arte em tudo. A arte da fotografia, a arte da tecelagem… essa exposição.

E foi muito bom ter a Bruna [Costa] como curadora, porque ela trouxe essa informação para a gente também. Quando a gente foi convidado para participar da exposição, eu pensei: “O que nós vamos dar? Fotos?”. Era uma coisa sem muita interligação. E a gente fez essa interligação com os artefatos, com as artes. Tudo é arte. Aí bate fortemente no coração: meu Deus!, a vida é uma arte. E a gente precisa entender isso, precisa trazer isso mais à tona.

Entrevistador:  Queria que você falasse sobre a situação atual do avanço da mineração na Chapada Diamantina e sobre como a luta dos povos em defesa de terra e território — para usar o título do livro do Joelson — é importante para conter isso.

Brígida: Está muito difícil, gente. Primeiro, não podemos esquecer que estamos no sistema capitalista. Tivemos uma audiência pública quando começou o trabalho da mineradora Brasil Iron, em Piatã. Ela está dentro de um quilombo, que é o Quilombo da Bocaina. A mineradora começou a minerar e, quando houve problemas de saúde na comunidade, problemas de rachadura nas casas, problemas de surdez por conta do barulho, doenças respiratórias, a comunidade da Bocaina foi questionar. Eles diziam que era só pesquisa, que era apenas um período de pesquisa. Só que não era período de pesquisa: eles já estavam minerando, já estavam levando minério para longe, em carretas e mais carretas. A Bocaina é um quilombo. O pessoal da Bocaina foi ver os relatórios, e todos diziam que o quilombo estava a 30 quilômetros. Tivemos audiências públicas, e o pessoal da Bocaina, junto com a CPT [Comissão Pastoral da Terra], teve um enfrentamento bem grande. Conseguiram, em algum momento, parar a mineração, até que a documentação estivesse ajustada. Hoje eles enfrentam uma ação judicial lá na Inglaterra.

O que acontece é que, de repente, vemos o governo do Estado da Bahia com megaprojetos de mineração, industrialização e ferrovias para tirar esse minério da Chapada. Isso é muito assustador. A gente falava: “Como vamos enfrentar isso?”. E aí você pergunta como os povos vão fazendo. Eu acho que temos que fazer o que já está sendo feito. Isso é a Teia dos Povos.

Hoje tivemos uma grande discussão com Marcelo Rocha [que trabalha na Companhia de Desenvolvimento e Ação Regional (CAR) do governo da Bahia]. Ele trouxe a questão territorial de uma forma muito interessante. Foi muito bom também ver o Celso trazer o mencionar o livro Por Terra e Território [de autoria de Joelson Ferreira e Erahsto Felício]. Porque é isso: cada comunidade vai ter que se resguardar, se repensar e comer pelas beiradas. E se aliar com outras. Essa aliança, essa rede que foi falada hoje também — a questão de uma rede desses povos, dessas associações, dessas instituições, ONGs, coletivos, como a gente está fazendo — acho que é isso que vai ajudar.

Agora, gente, os povos existem, os povos resistem. Os quilombos estão aí até hoje para mostrar isso. Os povos indígenas estão se autoproclamando, porque ficavam escondidos, com medo de se dizerem indígenas. Hoje eles já se colocam. A resistência sempre existiu. E nós estamos sempre aprendendo com eles. Na verdade, a gente está aprendendo com eles, porque eles sempre resistiram, sempre sobreviveram.

Então é isso: nós vamos ter que aprender. Se queremos outro mundo possível, é preciso aprender com essa resistência.

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