Posted on: 15 de outubro de 2026 Posted by: Teia dos Povos Comments: 0

Fotos: Gerardo Magallón  

por Beatriz Zalce

Originalmente publicado em: https://desinformemonos.org/la-casa-de-maria-antonia-donde-se-conocieron-el-che-y-fidel-hace-59-anos/

A casa marcada com o número 49 da rua José Emparán, na Colônia Tabacalera, tem uma placa que indica que ali se conheceram Ernesto Che Guevara e Fidel Castro em julho de 1955. O design é piegas, para dizer o mínimo. Não faz justiça aos heróis da Revolução Cubana, nem à História, nem sequer aos funcionários que, em 2014, pretenderam homenagear o edifício que hoje está uma tristeza: isolado por cordão de isolamento, interditado, a fachada descascada, com rachaduras diagonais, os vidros das janelas quebrados, os tabiques do segundo andar expostos.

Se a casa pudesse falar e ela mesma contar sua história ou ao menos o encontro entre o Che e Fidel…

“Em 1955, fazia pouco tempo que eu havia sido construída, uns quinze ou vinte anos, talvez. Não me lembro se minha fachada era de cor branca, branco ostión, como chamavam um branco não tão branco, ou se era creminha. Não me lembro desse detalhe, e naquela época não havia o costume de tirar tantas fotos, fotos de tudo e de nada.

“Morava em mim María Antonia González, uma cubana, também dissidente. Alguns querem fazê-la passar apenas como a anfitriã dos cubanos, mas ela fez muito mais do que lhes dar alojamento e comida. Era casada com Avelino Palomo, um lutador profissional conhecido pelo nome de Dick Medrano. Agora verão por que esse dado é importante: ele colocou Fidel em contato com o “Kid” Vanegas, também lutador e além disso impressor. Fidel entendeu imediatamente que este poderia ser-lhes muito útil. E sim: o “Kid” ficou encarregado do treinamento físico dos “rapazes”, como lhes dizia María Antonia, e colaborou imprimindo materiais do Movimento 26 de Julho.

“O apartamento era o “C”, ficava no fundo. Não entrava muita luz. Era pequeno. Sala, sala de jantar, cozinha, um banheiro e um quarto. Também tinha um corredor estreito. Havia camas de armar por todos os lados. Durante o dia, dobravam-nas para abrir espaço. A cozinha não era muito usada. Em geral, cozinhava-se arroz e feijão. Fidel chegou a cozinhar algo, mas o habitual era arroz e feijão. Houve vezes em que María Antonia teve de pedir fiado na mercearia que ficava na esquina, La Antillana, para poder alimentar tanta gente. Eu era uma casa onde podiam ficar morando por um tempo, e ficavam. O bairro mudou muito desde então. Antes era de casas familiares; agora há negócios, barracas de comida, escritórios. Dizem às pessoas que tomem cuidado…

“Foi no mês de julho de 1955 que se conheceram Fidel e Ernesto Guevara, um médico argentino. Não, não me lembro da data exata. Pode ter sido o 7 ou o 8, ou talvez o 9… Raúl Castro chegou com vários companheiros, entre eles esse médico, muito simpático, com muito senso de humor como todos os argentinos, e veemente e apaixonado como se fosse cubano. Entenderam-se desde o primeiro momento, caíram bem um para o outro. Ernesto já conhecia o programa de A História me Absolverá. E bem, uniu-se à causa. Viu uma revolução anti-imperialista, uma revolução de libertação nacional. E entrou nela a seu modo: colocando a alma e a vida nisso. Ernesto era um estudioso do marxismo, um autodidata, um convencido.

“Falaram a noite toda. Uma noite que durou umas dez horas. A conversa saltava de um tema a outro. Fidel depois disse que o Che era de uma grande inteligência, que escrevia como Hemingway: “A palavra precisa, exata”, assim disse. Também era um grande leitor de poesia. Num caderno, copiou poemas de Canto Geral, de Pablo Neruda, de León Felipe, de Nicolás Guillén, de César Vallejo. E gostava da música de Vivaldi.

“Após o fracassado assalto ao Quartel Moncada, em 1953, Fidel permaneceu dois anos na prisão e se exilou no México porque em Cuba iam matá-lo. Ernesto vinha da Guatemala. Estava muito impressionado com a pobreza dos camponeses de lá, com a intervenção da CIA e dos Estados Unidos no golpe de Estado contra o presidente Jacobo Árbenz, que pretendia fazer uma reforma agrária. Cometeram-se muitos crimes na Guatemala. Ele viu tudo isso.

“Havia percorrido vários países de motocicleta junto com seu amigo Granados. Mas não como turista: havia olhado para eles profundamente, com vontade de fazer algo, uma revolução, muitas revoluções. Naquela noite, falou com Fidel e os outros rapazes da Bolívia, de Machu Picchu, no Peru, do Chile, da Colômbia. Havia chegado até o Amazonas, esteve num leprosário e na Guatemala, como já disse. No México, tirava fotos de rua e vendia por um peso estampas da Virgem de Guadalupe para ganhar a vida.

“Fidel contou-lhe que lhe puseram esse nome, que era do que ia ser seu padrinho, mas que não pôde levá-lo para batizar. Já tinha uns cinco anos e zombavam dele e o chamavam de “Judeu” porque não estava batizado. Seu nome não é tão comum. Quando você diz Fidel, pensa nele, em Fidel. Acho que ele era dois anos mais velho que o Che.

“A Ernesto começaram a chamar simplesmente Che porque era argentino, porque gostava de mate. Os cubanos teriam chamado Che a qualquer argentino. Mas igual que com Fidel: você não precisa dizer Castro para saber que está se referindo a ele, e se diz Che entende-se que é Guevara. Fidel explicou assim uma vez: “O Che adquiriu tal renome e tal prestígio que se tornou proprietário desse pseudônimo.”

“Falaram e falaram. A noite toda. Mais de dez horas. E no final Fidel estava muito contente por contar com um médico que o “Kid” começou a treinar. Não era fácil porque o Che sofria de asma. Tinha crises muito feias. Mas isso não o detinha; parecia que queria demonstrar que podia fazer tudo o que não podia fazer… Para vocês verem que na Argentina não o consideraram apto para fazer o serviço militar e veja só: acabou Comandante. Era disciplinado, gostava de esporte. Quase todas as semanas tentava subir o Popocatépetl: nunca chegava ao topo, mas voltava a tentar sempre, toda semana.

“O Che, junto com Fidel e Raúl, ia a práticas de tiro. Eram bons atiradores, podiam partir um prato a 600 metros.

“Quase um ano depois desse primeiro encontro, a situação mudou na casa de María Antonia, como me chamavam para não dar a senha de Emperarán 49. A polícia mexicana começou a notar que havia cubanos demais entrando e saindo, que havia veículos, que os rapazes viajavam a um rancho, que chegava muita correspondência. Em 21 de junho de 1956, detiveram Fidel, María Antonia, Juan Almeida. O Che foi detido em outro lugar.

“Soube que os libertaram no final de julho, graças à intervenção do General Lázaro Cárdenas. Soube, os muros ouvem. Soube também que compraram um barco, o Granma, e que entre os 82 rapazes que zarparam para Cuba para derrubar o ditador Batista ia o Che. Para então, eu já era uma casa queimada…

“O resto é história. História conhecida. O triunfo da Revolução Cubana foi a notícia mais importante em todo o mundo no primeiro dia do ano de 1959. Aqui, entre minhas paredes, quatro anos antes, naquela primeira vez em que conversaram, o Che tinha feito Fidel prometer que, quando tivessem vencido em Cuba, o deixaria livre para fazer outras revoluções. Ele estava convencido de que triunfariam. Não lhe cabia a menor dúvida.

“Fidel cumpriu, e o Che se foi… Não houve rompimento. Esteve na África. Mas foi na Bolívia que caiu, na Quebrada del Yuro, traído. Fizeram-no prisioneiro e depois o mataram. Dizem que parecia o Cristo de Mantegna, que sorria com ironia. Não tinha completado 40 anos…

“Em março de 2014, vieram as autoridades da Delegación Cuauhtémoc colocar uma plaquinha comemorativa. Fui a casa onde se gestou a Revolução Cubana. Hoje sou estas ruínas que vês, que dão pena, que dão raiva. Qualquer um pode mijar contra minhas paredes, impunemente.

“Se neste aniversário da morte do Comandante Ernesto Che Guevara, ele estivesse vivo e saísse daqui, da rua Emperarán 49, a primeira coisa que veria é um poste de luz com a ficha de busca de uma jovem desaparecida contra a sua vontade. Há mais de 135 mil desaparecidos… Se o Che caminhasse como fez tantas vezes para ir ao Café La Habana, que fica a algumas quadras daqui, depararia com dois Antimonumentos: o dos 43 normalistas de Ayotzinapa desaparecidos há doze anos e o de “Aqui ninguém esquece” pelos 219 jornalistas assassinados no México e pelos 35 desaparecidos… Posso assegurar que o sangue do Che ferveria, que novamente deixaria sua maleta de médico e empunharia uma arma para curar esse país de seus males…”.

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