Posted on: 30 de março de 2026 Posted by: Teia dos Povos Comments: 0

Por Gloria Muñoz Ramírez e Jaime Quintana Guerrero. Fotos: Gerardo Magallón

 

Publicado originalmente no Desinformémonos: https://desinformemonos.org/la-auto1nomia-es-una-necesidad-red-en-defensa-del-maiz/ 

Huayacocotla, Veracruz, México. O momento culminante é a troca de sementes. É uma festa, a alegria de compartilhar, a origem e o horizonte da vida em comum. “Que semente você trouxe? De onde ela vem? Como cuida dela?”, perguntam-se no início da troca. A oferta de sementes é colocada no centro do encontro que a Rede em Defesa do Milho realiza em Cuatecomaco, município de Zontecomatlán, uma comunidade que se ergueu literalmente dos escombros deixados pelas enchentes de outubro de 2025, quando o rio devorou tudo.

Veja o vídeo aqui

“Eu trago semente amarela e preta, do sul do estado de Jalisco, são nativas, de clima temperado. E aqui tenho outra espiga, esta se misturou com todos os milhos que tenho, preto, branco e vermelho. Este outro é milho prateado original da comunidade. É um milho muito, muito bom para tortillas. Já vou deixar aqui os saquinhos para que cada um pegue o que quiser. Há pequenos e bem pequenos.” “Eu trouxe esses tomatinhos, podem pegar para comer ou para tirar suas sementes.” “Eu trago hibisco, está naquele pote grande de maionese.” “Eu trago pimentas, são muito abundantes na minha região. Ardem bastante. E muitas ramas de batata-doce. Também trouxemos tudo isso da nossa roça, um frasco com semente de bucha vegetal para quem quiser levar, milho amarelo, milho preto e feijão.” “De San Andrés Larráinzar, no estado de Chiapas, trouxe semente amarela que cresce entre 1800 e 2000 metros acima do nível do mar.” “Do estado de Oaxaca trouxemos sementes de abóbora que são usadas como forragem e adubo verde, trouxemos um milho zapoteca dos Vales, muito adaptado à seca.” Mamões, quinoa, chuchu, flores, velas e até livros couberam na oferenda colocada na quadra do povoado.

“É como se a própria terra lhes desse um abraço, a terra onde vocês vivem, onde vocês habitam, onde vocês comem, onde vocês se sentam e onde vocês descansam. Para que também nossos filhos possam se alimentar da sagrada semente. É assim que nós, como povo nahua, os recebemos com uma saudação cordial e um abraço fraterno que simboliza o céu, a terra, o ar, o firmamento que contém a Mãe Terra”, diz o rezador que dá as boas-vindas às vozes vindas de Jalisco, Oaxaca, Cidade do México, Chiapas, Guanajuato, Chihuahua, Quintana Roo, Hidalgo, Estado do México e do próprio Veracruz.

A Rede em Defesa do Milho nasceu há 25 anos, motivada pela preocupação diante do plantio de milho transgênico no México. Os povos e demais integrantes se reuniram para entender o que eram essas sementes, como eram produzidas e seus possíveis impactos nas comunidades. A rede concluiu que as empresas buscam principalmente o lucro, sem se importar com a alimentação ou a diversidade. Muito rapidamente, esse espaço horizontal ampliou seu foco, pois a defesa do milho também implica a defesa das pessoas e dos povos que cultivam o milho e a milpa. O milho, é claro, não se cultiva sozinho.

Nessas duas décadas e meia, as coletividades unidas na Rede se reúnem a cada ano para refletir sobre suas formas de plantar, os ataques a seus territórios, as novas legislações que afetam seus cultivos e a vida camponesa. Fala-se, e muito, de autonomia e autodeterminação dos povos, das resistências, das lutas jurídicas e também das ações concretas. Plantam, e não querem deixar de fazê-lo. Trocam saberes e sementes, horizontes e desafios, e tecem irmandades.

A conversa é natural e acontece em um espaço de confiança. Abordam tanto a importância do território para as comunidades indígenas e camponesas no México quanto os ataques à sua autonomia; a preocupação com o afastamento dos jovens do campo; a migração e o trabalho assalariado rural; a pressão da expansão urbana; a exploração das florestas; as estratégias atuais para introduzir cultivos transgênicos apesar da proibição; o avanço da agroindústria; o arrendamento de terras ejidais1; a ameaça dos créditos de carbono; as mudanças climáticas e uma série de outras questões que fazem parte do cotidiano comunitário. A defesa do milho, da milpa, do território, da autonomia e da autodeterminação, é a luta pela própria vida, reforçam a cada encontro.

A anfitriã do encontro, realizado nos dias 13, 14 e 15 de março passado, é a lendária Rádio Huayacocotla, emissora que acaba de completar 60 anos transmitindo ininterruptamente em espanhol, náhuatl, tepehua e otomí, para uma audiência de meio milhão de pessoas diariamente e também para migrantes nos Estados Unidos. Ali, nesse canto da Huasteca veracruzana, vão sendo desfiados, um a um, os testemunhos da terra, dos quais apresentamos aqui apenas algumas peças:


Alfredo, Desenvolvimento Econômico e Social dos Mexicanos Indígenas (Desmi), estado de Chiapas

A Desmi é uma organização que já tem muitos anos, vai completar 57, e foi fundada pelo Tatic Samuel2 . Na costa de Chiapas enfrentamos problemas muito graves, principalmente por causa das monoculturas. Outro problema também é a pecuária extensiva, que chegam a ocupar até 50 hectares em áreas que ficam totalmente desmatadas. E há ainda as plantações de árvores frutíferas para exportação, principalmente a manga ataulfo, que utilizam agrotóxicos, inseticidas e herbicidas.

Estamos trabalhando com produtores de limão, mas na perspectiva da agroecologia. Retomamos um pouco esses trabalhos, mas avançam muito lentamente. Estamos incentivando o reflorestamento de áreas que estão bastante degradadas. Também em San Diego estamos tentando atuar, mas ali tem sido bem difícil, porque está presente a empresa Bayer,  vocês sabem, essa empresa tem seus próprios recursos, controla os comerciantes, a logística, todos os produtos, e isso acaba dificultando muito nosso trabalho.

A Desmi também tem presença em Los Altos, como os companheiros mencionaram aqui. Lá, o trabalho é bem diferente, porque é mais controlado pelas comunidades: eles decidem o que fazer, e há mais avanços nas práticas agroecológicas. Principalmente, incentiva-se o trabalho com as milpas, porque sem milpa não há alimento para nós. Cultiva-se milho, feijão e abóbora, e, como complemento, também estamos incentivando a criação de hortas.

Os programas do governo estão tentando entrar em algumas regiões. E vejam como isso é muito interessante: o governo age de forma estratégica. Onde vê uma comunidade desorganizada, é ali que se infiltra. E onde há comunidades organizadas, não. Essa é uma estratégia que eles utilizam.

Eva, Coletivo pela Autonomia, sul do estado de Jalisco

Para nós, no sul de Jalisco, embora, na verdade, em toda a nossa região, um dos temas que mais nos preocupa é o crescimento do agronegócio. Vivemos em um vale que produz cana-de-açúcar, mas nos últimos 10, 15 anos aumentou muito a instalação de estufas que não estão nas mãos dos agricultores locais, e sim de grandes empresas, algumas nacionais, outras transnacionais, que estão se instalando em toda a região, embora também outras regiões do país estejam cheias de estufas.

Em Jalisco, a maioria pertence a empresas muito grandes, nas quais as pessoas que trabalham não têm uma situação laboral digna: são empregos precarizados, em condições muito difíceis.


No Coletivo pela Autonomia, nos preocupa muito o crescimento da indústria do agave para a produção de tequila, do abacate e das berries, que vêm ocupando territórios ejidais e comunais, a mesma indústria que havia conseguido contornar o Procede3 e o que era o domínio pleno da terra, mas agora, por meio de contratos diretos com ejidatários e comuneros, alugam ejidos inteiros, nos quais se perde o sentido de se reunir em assembleia, porque já não há sobre o que discutir. Há ejidos arrendados por até 10 ou 30 anos, que já não têm assembleia ejidal ou comunal, o que também implica a perda da relação direta com o território e com a tomada de decisões.

Outra questão importante, que vem se impondo cada vez mais, é a lógica de mercado ou de comércio sobre os territórios camponeses e indígenas. Isso se deve também à chegada de empresas que operam sob outra lógica, baseada no trabalho assalariado. Antes havia relações locais e, embora o apoio mútuo já tivesse se enfraquecido, ainda existia a ajuda entre vizinhos. Agora, porém, a relação é com uma empresa, é despersonificada, tudo se torna comercial.

O caso do ejido San Isidro é porque estão defendendo uma parte de seu território contra uma resolução presidencial. É um ejido que está invadido por uma empresa transnacional chamada Nutrilite-Amway. Essa empresa ocupa essas terras desde 1985 de forma ilegal. Sabem que compraram terras ejidais e, mesmo assim, as ocuparam com uma escritura ilegal.

A comunidade conseguiu comprovar seu direito sobre a terra e a primeira ação da empresa, depois de uma série de processos no sistema agrário e nos juízos de amparo, foi entrar com uma disputa legal perante o Tratado de Livre Comércio (TLC). Disseram: “se vocês devolverem a terra ejidal, nós, como empresa, teremos prejuízos em nosso investimento. E vocês, pelo TLC, têm que garantir nosso investimento e nossos lucros”, motivo pelo qual processaram o Estado mexicano por 2,7 bilhões de dólares. Esse valor supostamente deveria ser pago pelo governo mexicano “por colocar em risco o investimento da empresa” caso a terra fosse devolvida aos ejidatários. A empresa acabou de perder esse litígio.

Leobardo, ejidatario de San Isidro, estado de Jalisco

Este é um exemplo do interesse comercial internacional sobre os ejidos: passam por cima da história e dos territórios dos povos. Em San Isidro, já estamos quase 86 anos em luta. Sou a terceira geração de luta e herdei apenas problemas. Não terra, mas problemas. Bendito seja Deus, estive sempre lá. Nas assembleias, faço-os ver suas mentiras ou suas verdades. Mas, infelizmente, agora nos dividiram. A comunidade se partiu, nos dividiram graças à empresa.

Estão aplicando muitas armadilhas para não resolver o problema agrário, e isso nos mantém estagnados. Às vezes compartilhamos o sofrimento, não mais as alegrias como antes , mas o sofrimento de não aguentarmos mais essa empresa e de querermos que ela vá embora. São invasores.

Artemio, San Pedro e San Pablo Atlapulco, Estado de México

As comunidades de San Pedro e San Pablo Atlapulco ficam ao lado de La Marquesa. Nestas duas comunidades cultivamos milpas4. Uma milpa tem 12 hectares e a outra, 14 hectares, e estão em fronteira com os povos com os quais temos conflito.

Nós usamos tratores da comunidade, que são disponibilizados de boa vontade, mas também temos um trator do povo, comprado pelo comissariado, que é com o qual trabalhamos as milpas para realizar o plantio.

Então, além de arar com tratores disponibilizados de boa vontade, quando vamos plantar em comunidade, a fiscalia comunitária convoca os cinco vales da comunidade. Para quê? Para que todos venham trabalhar. E acontece que contamos com a presença de 600 a 700 pessoas para trabalhar 12 hectares, o que significa que conseguimos concluir os 12 hectares em 2 ou 3 horas. E com o produto, o que fazemos? Bem, aqui a fiscalia tem autonomia para decidir. Suponhamos que se colheu dez toneladas. Essas 10 toneladas são então armazenadas no depósito da igreja, e o único que manipula essa semente é o tesoureiro. Quando chegam as festividades, o fiscal determina quantos sacos desse milho serão destinados à mayordomia para a festa das imagens. Quando alguém falece e a família não tem recursos, a própria fiscalia tem a autoridade para levar um ou dois sacos de milho, pelo menos para que tenham algo para comer, é uma forma de sustento comunitário.

Nós buscamos conservar nossa identidade. Estamos sofrendo muito com a urbanização, com o próprio trem interurbano da Cidade do México, em San Miguel Zinacantepec, estão pressionando bastante, mas vamos resistir pelo tempo que for necessário.

Silvia, Centro de Estudos para a Mudança no Campo Mexicano (CECCAM, pela sigla em espanhol)

Depois de muitas formas de protesto e ações, conseguiu-se que, supostamente, o milho transgênico não possa mais ser cultivado no México, porque está proibido na Constituição, no artigo quarto. Neste ano de 2026, a nova Secretaria de Ciência e Tecnologia, que é uma secretaria recém-criada, lançou um chamado a pesquisadores para desenvolver o que eles chamam de eixos estratégicos. Entre esses eixos, há um que é voltado para a soberania alimentar.

Esse eixo está cheio de palavras bonitas, sobre como vão ajudar os camponeses, o milho nativo entre outros. Mas também diz que vão promover outra forma de produzir transgênicos, chamada ‘edição genética’. E isso também é uma forma de manipular o milho.

Isso não é promovido apenas pela Secretaria de Ciência e Tecnologia; é feito em conjunto com a dependência de agricultura, meio ambiente e outras instituições. O que está claro é que, neste momento, há um novo ataque para tentar cultivar não apenas milho transgênico, que não vão chamar de transgênico , mas também trigo, arroz e outros cultivos; inclusive o cacau já é mencionado.

A proibição do milho transgênico na Constituição não serve para nos deixar tranquilos, de forma alguma. A verdadeira defesa do milho está aqui, em tudo o que as comunidades vêm relatando.

Rodolfo, El Limón, estado de Jalisco

Em San Isidro, há famílias que continuam trabalhando em suas parcelas, com trabalho agroecológico, têm suas próprias sementes, cultivam de maneira natural, utilizam ecotecnologias e trabalham em rede com muitos outros camponeses, não apenas em Jalisco, mas em outras regiões do México. Elas continuam defendendo seu território, suas sementes, a vida e a saúde.

Mas o problema é grave e cada vez mais complicado, porque, por exemplo, a população de San Isidro atualmente está cercada. O centro comunitário ficou no meio dos 80 hectares da fazenda, que ainda está nas mãos dos filhos dos antigos fazendeiros, e agora eles plantaram abacate em toda essa área de 80 hectares. O abacate é pulverizado diariamente, o que também intoxica a comunidade. São muitos ataques o tempo todo, ataque à saúde, ao território, às sementes.

A indústria não apenas contamina, mas chega e devasta todo o território, não deixa nem uma plantinha no solo, colocam máquinas, reorganizam tudo, desaparecem os riachos, as plantas, as casas dos animais, tudo para plantar. Agora estão cultivando uva. Quem está plantando vem de Sonora e explica que já acabaram com a água, e que nesta região terão água por mais 20 anos, e dizem isso publicamente, como se fosse sua prospecção de negócio.

É muito difícil, muito triste, mas ao mesmo tempo temos que pensar em como enfrentar isso. Há uma resistência muito forte em toda a região, muita organização, mas esses projetos não surgiram sozinhos ou porque alguém teve a ideia de fazer negócio com estufas. Não, o que acontece é que faz parte de um projeto de Estado.

As coisas não acontecem magicamente, há um plano, há um projeto de desenvolvimento que é elaborado a partir de outra visão, de outra forma de ver a vida e a natureza, vêem a elas como coisa, como recurso. E então, como nos preparamos diante disso?

O município de El Limón, em Jalisco, declarou-se em transição agroecológica e está trabalhando para enfrentar todo o agronegócio e a contaminação por agrotóxicos. Esse é um trabalho complicado.

Nereida, Rede de guardiãs de sementes do Occidente, Guadalajara, estado de Jalisco

Há uma iniciativa que quer controlar a agricultura urbana. Existem muitos estudos que mostram que a agricultura familiar é a que sustenta o mundo. Estão sendo criadas muitas hortas comunitárias, hortas em espaços públicos. Atualmente, em Jalisco, há uma proposta de lei para a agricultura urbana.

Eu quero plantar. E quero ter a liberdade de plantar. Quero decidir o que plantar, quando plantar, como plantar e onde plantar. Mas em Jalisco, se essa lei for aprovada, acreditamos que será para controlar o que as famílias plantam, inclusive nos canteiros centrais ou quando você tinha sua horta no quintal, mas que ficava na calçada.

Assembleia Múuch Xíinbal, Península de Yucatán

Por aqui plantamos milpa, melões, melancias, cana e diferentes cultivos de sequeiro. O camponês há anos cultiva sua terra, a conhece, conhece toda a vegetação que surge em diferentes épocas do ano, e é aí que entra o conhecimento para entender o que funciona e o que não funciona.

Mas os engenheiros, com suas lojas “chiques” para ganhar dinheiro, reetiquetam produtos vencidos. E há gente que os aplica. Por exemplo, o engenheiro me diz: “Olha, o fulano vai ver que plantamos todos da mesma forma, tratamos igual, e a plantação dele é a melhor. Fertiliza, passa com fulanito, descarga e rega. Veja a horta dele”, e assim eles se infiltram.

Se vocês ainda não receberam esse bombardeio, pode ser da Bayer, da Pfizer, da Cargill, não sei. Evitem-os. Aliás, nem cheguem perto deles, porque eles nem vão dar um comentário, uma palavra útil que seja, de forma alguma. Se eles vêm, é porque vêm para ferrar com vocês. Ninguém vem pedir nada a um camponês ou oferecer algo para beneficiá-lo. Vêm para ferrar.

José, Coletivo pela Autonomia, sul de Jalisco

Em Jalisco e Guanajuato, há trabalhadores rurais temporários que vêm de Guerrero, Oaxaca e também de Chiapas. No México, existem cerca de quatro milhões e meio de trabalhadores desse tipo. Eles enfrentam pelo menos quatro violações muito graves: uma é que não há contratos escritos; a segunda é o transporte, que geralmente é péssimo, às vezes até para Coahuila ou outras partes do norte; a terceira é a alimentação, que é muito deficiente; e a quarta é o alojamento. Nós vimos casas pela metade e pessoas vivendo nelas, sem que haja projetos de habitação regulados. O trabalho dos trabalhadores rurais temporários é talvez a área de relações laborais mais negligenciada do país. O trabalho camponês é duro, mas o trabalho no agronegócio chega a ser mortal, tanto pelo uso de produtos tóxicos quanto pelas condições de trabalho. Além disso, as famílias indígenas migrantes, em vez de apenas produzir mercadorias agrícolas, poderiam nos ensinar e ajudar a superar muitas das crises que enfrentamos no país, começando pela crise alimentar.

Ramón, Ojarasca e Biodiversidad, sustento e culturas5

O Tribunal Permanente dos Povos (TPP), reunido na Costa Rica de 19 a 21 de janeiro de 2026, desencadeia uma série de processos criativos autogestionados de sistematização para que as pessoas entendam com muita clareza quais são os ataques a seus direitos e para que tudo isso se torne um processo de baixo para cima, capaz de configurar um diagnóstico que não existiria sem o que o Tribunal provoca.

Trata-se de realizar sessões que detalham cada vez mais o que estamos apresentando: os ataques que os povos estão sofrendo, e discutir os danos que lhes são causados, não apenas aos povos de forma abstrata, mas a tudo o que eles são: seus cultivos, sementes, biodiversidade e o futuro do planeta.

Álvaro, Comunar, Sierra Rarámuri e Cedesa, Guanajuato

Quantos movimentos são necessários para levar uma tortilla cozida à boca? Pois são centenas de movimentos, de braços, de mãos, de pessoas para que possamos pegar uma tortilla de milho e levá-la, com poucos movimentos, à boca. Essa força também se desorganizou com o clima.

Agora não podemos prever o clima com precisão, porque de repente pode ocorrer uma chuva como a de outubro, quando choveu muito em poucas horas, os morros já não suportavam, não conseguiram infiltrar a água, ela correu com muita força e os morros desmoronaram. Isso acontece porque algo desordenou o clima no mundo, e esse algo é o sistema capitalista.

Os agricultores que sabem viver da terra sem destruí-la começaram a compartilhar coisas muito bonitas, como, por exemplo, de onde vem o vento, em que direção, a que altura e a que temperatura ele chega; quando vai chover, quando se anuncia a seca ou a chuva (quando os besouros saem para acasalar, anunciam a chuva, assim como as formigas e a galinha-cega).

Lá estamos no deserto, chove trezentos milímetros, e é uma corrida contra o tempo. Se você não plantar, esses trezentos milímetros não são suficientes para produzir nada. É preciso fazer muitas coisas para que a água fique na terra, mas os mesquites, árvores do deserto que nunca vão secar porque têm raízes de trinta a quarenta metros, sabem viver com essa quantidade de chuva. Percebem? Os camponeses que sabem viver da terra dizem: “reparem na floração do mesquite”. Se dura poucas semanas, é sinal de que virão os ventos mais quentes.

Como se juntam as nuvens para que chova? Aqui certamente vão dizer de onde vem a chuva. Não chove de qualquer maneira, mas sim quando uma nuvem se forma, se aproxima de outra nuvem e então chove. Esse conhecimento os agricultores têm para entender como virá a estação das chuvas, porque não é uma mudança climática, mas sim uma desordem do clima.

Mas se a família ou a comunidade já não têm força para organizar o capinado, o corte, a queima, os pousios e a preparação do solo, não conseguem prever nada nesse descontrole das chuvas, porque cada ano será diferente. Se não entendermos que há uma desordem e que precisamos levar outras coisas em conta ao plantar, será muito difícil conseguir nossas colheitas.

Alfredo Zepeda, Rádio Huayacocotla

Nesta rede, vamos adquirindo uma visão mais ampla, justamente alimentada e validada pelas experiências. Tudo junto forma um conjunto de informações. Há coisas que se perderam, mas que podem ser recuperadas. E existem as agressões, que vêm de outros interesses, que não são os do povo.

A autonomia, a autodeterminação, não são uma ideologia. Não é como “ah, eu sou de esquerda, eu sou de direita”. Não, a autonomia é uma necessidade. É uma necessidade ter seu próprio sistema de cargos, seus costumes, como a ‘mano vuelta’, como chamam aqui, essa prática de se reunir para celebrar juntos. Um lote não se planta em 20 dias, se planta em um dia. Então, você precisa de 10 pessoas para plantar. Essas coisas são extremamente importantes.

Aqui estamos vendo os contrastes entre o que pertence à comunidade e sua dinâmica, e iniciativas que vêm de fora, cujos próprios proponentes conhecem suas consequências.

  1.  Propriedade social da terra, onde a posse é coletiva. As terra ejidais foram estabelecida após a reforma agrária conquistada pela Revolução Mexicana de 1910. ↩︎
  2. Don Samuel Ruíz García, bispo emérito de San Cristóbal de las Casas, Chiapas, conhecido por apoiar o movimento indígena por meio da teologia indígena da libertação, atuou como mediador central entre o governo e o Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) após o levante zapatista de 1994. Foi carinhosamente apelidado de “Tatik”, que significa “pai” em tseltal e tsotsil, línguas maias.
    ↩︎
  3. Programa do Governo de Certificação de Direitos das terras Ejidais. ↩︎
  4.  A milpa é um sistema tradicional de cultivo indígena muito usado no México e em outras regiões da Mesoamérica. Não é apenas uma plantação, mas um método agrícola comunitário e sustentável. Geralmente milho, feijão e abóbora são plantados juntos. ↩︎
  5. Ambas publicações jornalística ↩︎

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