Posted on: 13 de janeiro de 2021 Posted by: arkx Brasil Comments: 6

Fotos: Ricardo Alvez.

Uma vida no Quilombo

O Quilombo de Sobara fica localizado no município de Araruama, no estado do Rio de Janeiro. Ficamos bem no sertão mesmo de Araruama. A 43 km da cidade, por uma estrada de terra batida.

Sou Rosiele Vasconcelos da Silva Conceição. Tenho 33 anos, sou nascida e criada aqui na Comunidade Quilombo de Sobara. Meus pais são nascidos e criados aqui. Meus avôs são nascidos e criados aqui.

Viviam bem precário. Dormiam em saco de lona. Não tinha coberta. Não tinha cama. A cama era tarimba de bambu, de pau.

Até hoje meu pai trabalha com farinha. Tem casa de farinha.

Cornélio José da Silva, na Casa de Farinha

Hoje tem uma indústria de álcool. Fica no município de Cabo Frio, mas está mais próxima da gente do que de Araruama.

A maioria dos canaviais estão dentro da área do quilombo. A maioria da minha família e a maioria da comunidade trabalha nessa indústria de álcool.

Meus pais sabem ler e escrever, mas minha mãe nunca foi à escola. Eu estudei até o 1o. ano do ensino médio.

Quando damos um currículo para conseguir emprego de que somos de Sobara, eles não contratam. Alegam que é longe. Por isto muita gente dá o endereço como de São Vicente, nosso bairro.

A estrada é precária, de chão batido. Se chover, tem muito alagamento, não entra e não sai. Ônibus só tem 3 vezes por dia.

Mas eu adoro morar nesse sertão de Araruama! Nem penso em sair.

A organização

Nosso comunidade avançou, porque junto com a Defensoria Pública ganhamos uma ação e conquistamos um Posto de Saúde, em 2019.

Estou nessa luta desde 2010. O nosso certificado da Fundação Palmares chegou em 2006. Em 2013 o William pegou a liderança. Mas ele já não mora aqui, se afastou. Peguei oficialmente a Presidência da Comunidade em 2017. Antes eu e a Rosilene já participávamos de reuniões, para não deixar ninguém de fora falar por Sobara.

Nossa comunidade ainda precisa amadurecer. Entender melhor esse processo de Quilombo. Precisamos regularizar nossa associação e nosso território.

Mas comunidade é assim mesmo. Muitos só querem o benefício que chega. Mas ir para o enfrentamento, para a luta, é difícil encontrar pessoas para estar com a gente nessa batalha.

A Comunidade ainda tem muito a avançar. Mesmo com esse governo que é contra e não deixa nada andar.

Agora durante a pandemia nos comunicamos através do grupo do WhatsApp. Mais fácil.

Eu até falo às vezes no grupo:

“Gente, eu preciso de vocês. Eu, Rosiele, não sou comunidade sozinha. E se vocês não participam, eu não posso ser presidente. Como é que eu vou ser presidente, se não existem as pessoas. Tem que dar a opinião de vocês. Tem que falar o que tá certo, o que tá errado.”

 Até porque a gente precisa avançar. Nosso próprio crescimento da comunidade depende disso.

A gente tinha difícil acesso à comunicação. Tínhamos dificuldade com o sinal de Internet. Conseguimos colocar uma torre. Mas que a gente paga. Não tem Internet de graça para a comunidade.

A maioria da comunidade tem Internet para se comunicar, porque é o meio mais fácil. Nós somos sítios, e um pouco distante um do outro.

E até para fora, para se comunicar com os órgãos. Para se comunicar com a gente só consegue através do WhatsApp, porque é difícil de sinal aqui na comunidade.

vídeo: Batuque do Quilombo de Sobara

O grupo do batuque surgiu como uma iniciativa da escola. Os professores que pensaram em fazer, já que uma área quilombola precisa ter uma cultura diferente. A escola criou o grupo de batuque.
Isso chamou atenção e o grupo de batuque começou a ser convidado em eventos, dentro do município, fora do município e até em outros estados.

Com o tempo o meu esposo, o Nei, inclusive é ele que fica na frente com batuque, pensou em trazer o grupo de batuque para a comunidade. Alguns instrumentos estavam na escola.
Meu filho Lorran entrou na frente junto com meu irmão Rivaldo. O Lorran tinha doze anos e o Rivaldo tinha treze. Em 2017 começamos com o batuque na comunidade.

Através do projeto da Shell com as comunidades quilombolas, já tocamos em Cabo Frio, Saquarema e no Espírito Santo.

Através do ITERJ, tocamos em Piabetá. Na semana de Consciência Negra tocamos em São Vicente.
Tínhamos muitos convites nesse ano de pandemia, mas não podemos atender.

Mas o nosso município precisa nos reconhecer mais.
Somos mais convidado pelos outros municípios do que pelo nosso próprio. Somos mais reconhecidos em outros municípios do que no nosso próprio município de Araruama.

As crianças e os jovens aqui já tem um dom diferenciado. Eles tem um dom de tocar. Eles são bons de ouvido. O professor da escola sempre fala isso.
Isso aqui já vem antigo. Meu avô tocava cavaquinho. Nunca foi a uma aula. Meu tio toca guitarra.

Eu tenho dois irmãos que tocam também. O meu filho toca bateria. Nunca foi a aula também não. Ele hoje tá com 14 anos.
Aqui muita gente tocava acordeão, faziam baile. É um dom que a comunidade já tem. E que já vem dos antigos.

Então, o batuque surgiu na escola. Olharam, viram que aqui tinha que ser o batuque. E captou aquilo. E acertou!
Precisamos de parceria para levar esse batuque. Tem algum instrumento que a gente tem que comprar.
Mas nosso batuque não é só do instrumento formal. A gente usa reciclado pra poder fazer esse batuque também. Latas de metal e bombonas de plástico.

Então o mais importante é trazer o jovem para perto. Até para não se perderem nesse mundo das drogas.
O batuque é um sucesso!

A Pandemia

Algumas pessoas desde que começou a pandemia não saíram de casa. Minha mãe, por exemplo. As pessoas do grupo de risco não saem. Mas as outras estão saindo, trabalhando normal.

No início a indústria de álcool, onde trabalham a maioria das pessoas aqui, deu férias para os empregados do grupo de risco. Deixaram em casa. Uns 2 meses. Mas depois voltou tudo de novo ao serviço. Normal.

Mas se estivessem trabalhando fora, em outro lugar, eu diria que estariam todos desempregados. Porque a indústria fica na roça mesmo onde está a gente.

Quando tem algum caso lá na indústria, quando eles descobrem, eles afastam. Mas a vida continua tocando do mesmo jeito.

Até falo isso, na Comunidade de Sobara não teve muita mudança não.

A questão de trabalho, a turma continua trabalhando do mesmo jeito. Aqui o que deu uma parada foi na Associação. Cursos que podiam ter vindo, com essa pandemia não dá. Fazer reuniões grandes com a comunidade, isso teve que parar. Está parado.

Alguma coisa deixou de avançar na Comunidade por causa da pandemia. Mas quem olha a comunidade parece que está tudo normal. A não ser por causa da máscara.

Contaminação houve! Teve uma pessoa confirmada.

Agora eu acho que teve muito mais pessoas contaminadas aqui na comunidade do que essa uma pessoa. Por causa dos sintomas que tiveram.

Tem gente que ficou muito ruim. Mas todas se curaram em casa. Não precisaram ficar internadas, não foram a médico. Nem fizeram exame.

O problema é esse. A pessoa está contaminada e fica no mesmo ambiente que as outras.

Não tem mais área de lazer nenhuma. O único lugar que vamos é a igreja. Se tiver com algum sintoma, na minha família ninguém vai para a igreja.

A gente sempre orienta. Sentiu alguma coisa, não está bem, não sai de casa. Mas tem gente achando que este vírus é brincadeira, que é uma gripe normal.

Conseguimos uma doação de álcool em gel e máscaras. E de um kit de limpeza. Mas só foi uma doação.

O Município não está vindo aqui, nem dando orientação nenhuma. Órgão nenhum veio na Comunidade. Não vieram fazer nada. Pelo nosso município ficamos largados aqui. Então a Comunidade se vira como pode.

Oriento para não sair de casa. E quando sair, sair protegido. Álcool em gel, máscaras e distanciamento. Até eu mesmo quando tem muita gente, eu estou metendo o pé.

Sou 2a. Secretária da ACQUILERJ, a Associação das Comunidade Quilombolas do Estado do Rio de Janeiro, que tem dado orientação na questão da COVID-19 à todas as comunidades quilombolas do Estado.

Auxílio Emergencial

Bastante gente aqui recebeu o auxílio. E ajudou muito. Muitas pessoas estavam desempregadas. E outros estavam afastado do serviço, mas sem pagamento. Deram férias e depois deram outra férias. Mas sem pagamento.

A escola aqui é em tempo integral. Mas só vai até o 5o. ano. E com a escola fechada, a Prefeitura deu a cesta básica que é a merenda das crianças. E isto ajudou muito.

É um dever da Prefeitura, mas muitos municípios aqui não receberam. Aqui não temos que reclamar quanto a isto. Todo mês tinha cesta básica. E foi o suficiente para a turma comer por um mês.

Alguns reclamaram: “Mas e a carne?”. A carne a turma se vira. Vai pescar. Aqui eles saem para pescar mesmo.

Na Sobara está razoável nesta pandemia, em vista de outras comunidades dentro das cidades, que dependem de trabalho com área de turismo.

Com agricultura quase ninguém aqui trabalha. Os poucos que plantam é para consumo próprio. E quase todos trabalham para a indústria de álcool, que não foi afetada.

Eu sempre pergunto se alguém está com falta de alimento, medicamento. Mas todos respondem que está tudo bem, que ninguém está com falta de nada.

Graças a Deus, Sobara ficou bem. Bem entre aspas, porque com essa situação de pandemia não tem nada muito bem.

O que ajudou muito aqui, e falo até por mim, foi a cesta básica da merenda das crianças.

Rosiele Vasconcelos da Silva Conceição

Presidente da Associação do Quilombo da Sobara, 2a. Secretária da ACQUILERJ (Associação das Comunidade Quilombolas do Estado do Rio de Janeiro)


sobre os Diários da Pandemia:

  • Embora seja tb um trabalho jornalístico, se propõe a muito além disto.
  • Tem como objetivo principal tecer uma rede de comunicação entre as diversas lutas localizadas.
  • De modo a circular as experiências, para serem reciprocamente conhecidas numa retro-alimentação de auto-fortalecimento.
  • Não se trata de tão somente produzir matérias, e sim tornar as matérias instrumento para divulgar conteúdo capaz de impulsionar os movimentos.
  • Em suma: colocar a comunicação a serviço das lutas concretas.

acesse a série completa aqui neste link

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  1. Saudações aos parentes do quilombo de Sobará….fico muito feliz em ver que a galera que estudou comigo tem coragem como eu tenho, que é de luta como eu sou de luta. Amei saber que Você assumiu essa responsabilidade Rosiele. Parabéns.

  2. João querido não estava lembrando de vc kkkk, me lembrei que estuamos juntos no colegio Pedro Paulo. Quando tempo vc sumiu de são vicente. Fico feliz por um colega de escola se lembra de sobara grande abraço.

  3. Rosiele, parabéns por sua liderança, seu trabalho, sua pedagogia cívica e toda resistência que o Quilombo de Sobara tem realizado frente à pandemia e para além dela. Sou Nestor Mora, professor de História da rede municipal de Araruama e gostaria de seguir contato com vc.
    Gostaria de em breve conhecer de perto o trabalho de todos vcs.

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