Posted on: 7 de outubro de 2020 Posted by: Rafique Nasser Comments: 0

Este é o 4° texto de uma série sobre a importância das sementes crioulas na luta pela soberania alimentar das comunidades, garantia da terra e defesa do território. Neste, veremos como as experiências de construção de bancos comunitários de sementes nos dão lições fundamentais para a composição da urgente rede de sementes dos povos.

Por Mariana Cruz e Rafique Nasser

Uma estrutura de concreto e metal esculpida nas entranhas rochosas de uma ilha do longínquo círculo polar ártico. Três salas protegidas da baixa temperatura, monitoradas por tecnologia de ponta 24 horas por dia e com capacidade para salvaguardar até 4,5 milhões de unidades de um tesouro preciosíssimo. A caixa-forte foi assim construída para que toda essa riqueza fosse protegida de guerras e “catástrofes” ambientais. O tom é apocalíptico, mas o tema merece. O banco – ou bunker – de que falamos não abriga ouro nem dólares, mas algo realmente fundamental para a nossa existência: as sementes.

Nelas estão inscritas as possibilidades de produzir alimentos adaptados, nutritivos, saborosos e desejados nas mais diversas paisagens e condições ambientais imagináveis ao redor de todo o planeta. Guardá-las, portanto, é ter a certeza de que as informações genéticas de que são portadoras não serão perdidas diante do caos. O plano é: a cada fim de mundo, a possibilidade de recomeçá-lo. Empresas, fundações, organismos multilaterais e Estados Nacionais se dedicam a pesquisar, reunir e conservar essas fontes de vida. O Global Seed Vault é, desde 2008, a maior reserva de germoplasma do planeta. E não é o único. Segundo a FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura), existem cerca de 1750 bancos institucionais de sementes espalhadas em mais de 100 países. 

A Embrapa é um exemplo. Além de realizar pesquisa e coleta de sementes entre povos tradicionais e agricultores ao redor do país, ela mantém um acervo público com amostras deste material em Brasília. Foi a ele que o povo indígena Krahô recorreu para recuperar uma variedade de milho ancestral que havia sido perdida diante dos ataques constantes às suas terras e modo de vida. Depois de muita negociação, uma comitiva indígena foi autorizada a adentrar o arquivo e pôde levar um punhadinho de 6 a 8 sementes de volta para casa. “Após mais de vinte anos congeladas – não só no sentido físico, mas sobretudo no sentido da sua evolução – as sementes não mostraram, num primeiro momento, grande adaptação ao meio de cultivo. Seriam necessários alguns anos para que o milho pohumpéy restituído aos Krahô expressasse seu potencial genético e repovoasse as roças da Kraholândia”, contou o pesquisador Fernando Schiavini. Após o primeiro cultivo, porém, a comitiva retornou à capital federal com quilos multiplicados. Os Krahô atualizaram o acervo da Embrapa e passaram também a realizar uma feira anual de sementes em seu território.    

Essa experiência ensina que, muito embora os bancos de semente institucionais possam ser úteis aos povos, eles não resolvem a causa dos problemas que visam combater: a fome e a destruição da biodiversidade e das culturas. Ao longo dos últimos séculos, repetidas vezes nos deparamos com um mesmo cenário. Esse texto, por exemplo, foi escrito sob o ruído do prenúncio de velhas-novas dores. Enquanto biomas inteiros são aniquilados por queimadas criminosas, já vemos o preço do arroz subir – esse alimento está enraizado na cultura alimentar da gente brasileira e, junto ao feijão, forma o par nutricional base da alimentação das famílias no país. Em meio aos desafios impostos pela pandemia e pelas escolhas políticas do atual governo, a dura inflação sobre a cesta básica revela a tragédia do nosso tempo.        

Se há alguma novidade no atual cenário, certamente não é esta. Escutamos há muito que o problema da fome é uma questão de tecnologia. Desde a década de 1960, a produção de sementes modificadas em laboratório, aliada à mecanização da agricultura, ao uso intensivo de fertilizantes químicos e à manutenção da concentração de terra na mão de poucos proprietários foram as saídas apresentadas para combater a falta de comida. Não funcionou. São as injustiças na distribuição do acesso à terra e o ataque aos  conhecimentos tradicionais de produção de alimentos que, ao abrir espaço para o avanço do agronegócio no Brasil, promovem a miséria, a destruição e, ironicamente, a necessidade de guardar nossas preciosas sementes. 

Resumindo, ao mesmo tempo em que instituições internacionais percebem que um dos maiores problemas – talvez o maior – que a humanidade enfrentará nos próximos anos é a fome, o povo que luta pela garantia da sobrevivência por meio da soberania alimentar é atacado duramente pelo negócio que vê a comida como mera mercadoria. Os recentes ataques a acampamentos do MST prova isso. O latifúndio e o Estado que o mantém não vêem o alimento como garantia da existência da vida.

A história prova que não podemos confiar em projetos que não estejam em nossas próprias mãos. Portanto, não há motivo para acreditar que o bunker glacial será o pólo distribuidor de alimentação para toda a gente que foi marginalizada e lançada à sua própria sorte. Então, qual a razão de não nos empenharmos, todos nós, em coletivo, na colaboração pela construção de uma grande teia de bancos de sementes entre e para as nossas comunidades?

É certo também que somente observarmos a mesa se esvaziar não matará a fome. Há um chamado urgente para a autonomia. Essa tarefa que hoje se mostra, mais uma vez, essencial, não é tão fácil. Mas isso não torna sua realização impossível. A partir da experiência de povos que já estão vivendo a prática da autonomia, aprendemos que o engajamento nessa missão garante bons frutos. Para essa discussão, vamos conhecer duas experiências de banco de sementes comunitários que estão guardando e multiplicando nossas riquezas. 

Reunir o povo, juntar as sementes 

A primeira experiência que conheceremos aqui é a da organização do banco de sementes no quilombo Lagoa de Melquíades e Amâncio, elo da Teia em Vitória da Conquista/BA, região Catingueira – lugar que mora no senso comum como terra infértil.

As graves estiagens que são comuns no bioma não impediram que a comunidade elaborasse diversas estratégia para sua sobrevivência. A agroecologia e as sementes crioulas emergem como uma solução para possibilitar a convivência com o clima seco do local. Quem nos fala sobre isso é Thiago França,  presidente da Associação de Agricultores de Lagoa de Melquíades e Amâncio.

Em 2013, Thiago conta, começaram os trabalhos de implantação do banco das sementes. Como a vida cotidiana não pode ser resolvida magicamente, os dois anos seguintes ao início da empreitada se mostraram bastante laboriosos e só em 2015 a operação funcionou de fato. A primeira lição: Persistência no projeto. 

Para abastecer o banco do quilombo, o primeiro passo foi a realização de um mapeamento das sementes existentes na região junto à uma convocação aos agricultores. Daquele momento até aqui, a comunidade já conseguiu juntar plantas medicinais como a sete casca e a orelha-de-negro, diversas qualidades de cabaça, caxixi, mamona, melancia, abóbora, quiabo, fava e gergelim, o tradicional “café beirão” (mucuna preta), além de muitos feijões (andu, de arranca, fradinho, etc.) e três variedades de milho  – “estrada de ferro”, “pé de burro” e o milho roxo. 

Nesse processo de catalogação das sementes existentes, um verdadeiro milagre da troca aconteceu. A variedade do milho “estrada de ferro”, mesmo sendo muito apreciada pelos moradores, havia praticamente desaparecido. Entretanto, na busca pela garantia da diversidade de alimentos na composição do banco, eles conseguiram encontrar uma outra comunidade que trabalhava com a mesma variedade. “Além de ser um milho muito doce que serve para fazer assado, pamonha, mingau, o bom é que ele produz muito bem e muito rápido. Tem uma resistência à seca e pode colher com 3 meses”.

Pré-Jornada de Agroecologia em Lagoa de Melquíades e Amâncio, Vitória da Conquista /BA, 2020. Foto: Deisy Ferreira.

Embora não conhecessem o termo “sementes crioulas”, a maioria dos agricultores do quilombo tinha a tradição de plantar e guardar variedades de sementes cultivadas através das gerações. Assim, para iniciar os trabalhos do banco, foi preciso um trabalho de convencimento coletivo sobre a importância do planejamento da soberania alimentar de todos. “A diferença agora é que antes vocês faziam isso na casa de vocês. E agora vamos ter um espaço específico de fazer todo esse processo, que além de servir pra vocês, vai servir para outros agricultores que não conhecem, que perderam as sementes e estão refém do mercado”, explica Thiago. 

Esse mesmo processo também se concretizou a 230km quilômetros dali, em Maracás – município que brota do encontro entre a Mata Atlântica e a Caatinga e demarca a porção sudoeste do território do Vale do Jiquiriçá. Iala Serra Queiroz, militante socioambiental e mestre em Educação e Desenvolvimento Local, nos contou sobre a iniciativa do Sindicato de Trabalhadores Rurais local que, em parceria com a ASA (Articulação para o Semi-Árido), articulou um projeto de construção de cisternas para captação da água da chuva e fomentou a criação de bancos comunitários de sementes em três comunidades rurais. 

Banco de Sementes em Maracás/BA

Apenas no banco de sementes da Comunidade Quatro Lagoas e Candeal hoje estão catalogadas cerca de 250 variedades de plantas: “basicamente milho, feijão, mamona, sorgo, favas e essências florestais como, por exemplo, angico, mulungu, pau ferro e olho de boi”. Algumas das sementes são provenientes da própria comunidade, ou seja, são cultivos realizados ao longo de gerações e gerações. Outras, ao contrário, se integraram ao banco a partir de intercâmbios e trocas realizadas com territórios, comunidades e grupos parceiros que têm se comprometido a multiplicar sementes e os conhecimentos a elas associados.

 

Um lugar de encontro

A casa que sedia o banco de Lagoa de Melquíades e Amâncio era de uma das anciãs do local, a avó de Thiago. A escolha não foi debalde. Toda a espiritualidade e sabedoria da mais velha habita e cuida da fonte de vida e vigor da gente daquele território. Lá, está a base do bem-viver: A Festa, o Trabalho e o Pão. Grupos musicais, de capoeira e uma biblioteca funcionam no espaço. Ademais, por ser um lugar tão significativo, tanto na dimensão do afeto e da identidade, quanto por sua localização estratégica, tornou-se um espaço privilegiado também para a realização de reuniões, viabilizando a criação de grupos de produção e convivência, como os de mulheres e de jovens. A criação de coletivos que visam debater e atuar para a resolução de problemas é mais uma entre muitas semelhanças com a experiência em Maracás.

Assim como jogar a semente na terra potencializa todo um conjunto de processos vitais, o simples gesto de concretizar um local para a guarda das sementes desencadeia uma série de movimentações das gentes no território. As memórias e valores das próprias comunidades vão se fazendo mais fortes e, como nos contou Iala, “além das sementes, há um desdobramento de processos incríveis, como o resgate de mutirões, a melhor alimentação para as crianças, a redução de compra de produtos industrializados e a valorização da cultura alimentar”.

É na terra fértil desses encontros que, coletivamente, outras necessidades vão se fazendo urgentes e possíveis de serem encaminhadas. Ainda em Maracás, as comunidades perceberam na feira municipal uma oportunidade para escoar a produção tanto dos alimentos, quanto das sementes. Mas isso ainda não parecia suficiente e surgiu a necessidade de ter uma loja colaborativa. Na Casa Girassol, “durante a semana inteira os agricultores podem comercializar sua produção. Ali também são vendidos produtos de todo o vale do Jiquiriçá e de outras regiões do Brasil”, comenta Iala.

Um banco sem banqueiro

Muitas pessoas, lendo esses relatos de experiência, ainda poderão se questionar sobre como funciona a organização de um banco após sua construção. De fato, o cuidado com as sementes envolve um acordo coletivo de muita responsabilidade. 

No caso da vivência de Lagoa de Melquíades e Amâncio, o funcionamento se dá em torno da associação, que realiza reuniões frequentes e determina, a partir da decisão coletiva, as quantidades que cada agricultor deve receber e devolver ao banco – esta segunda sempre de acordo com a dinâmica da produção. Ou seja: se produziu bastante, devolve o mesmo que pegou ou, caso o resultado não tenha atendido às expectativas, devolve-se menos. Quando alguém não consegue colher, a associação compra sementes de outro produtor para não desfalcar o banco. Ainda, para contornar situações de risco de estoque, há uma área de terra exclusivamente dedicada à multiplicação – tudo o que lá for plantado, será guardado. 

É o tamanho da área que determina a quantidade do empréstimo”, conclui Tiago, mostrando que é possível imaginar um banco fundamentado na solidariedade, na interdependência e no compromisso – e não nos juros que significam lucro para uns e endividamento para muitos. 

Cuidar como se fosse filho

Para o presidente da Associação dos Agricultores de Lagoa de Melquíades e Amâncio, o desafio principal dos bancos de sementes é mantê-las longe de contaminações. Muitas vezes, os vizinhos usam ou já usaram algum tipo de agrotóxico ou plantam sementes híbridas e/ou transgênicas. “Cê tem que cuidar como se fosse um filho mesmo. Tenha o máximo de cuidado, deixa separadinha num canto. Não misture com uma semente que veio do mercado.”

Thiago ainda deixa uma dica para aquelas comunidades que queiram iniciar seus próprios bancos. “Procurem saber qual agricultor tem semente em casa, há quanto tempo ele a guarda. Procure saber como seus antepassados faziam, como as pessoas mais velhas produziam e armazenavam. Como era antes? Por que agora é diferente? Tem gente que diz que não tem semente crioula, não conhece por esse nome. Quando vai lá na casa, tem um monte, aconteceu isso aqui”. 

O zelo com a semente se estende ao cuidado com a terra e as águas. No Vale do Jiquiriçá, os agricultores enfrentam hoje uma guerra contra a contaminação do rio – para lá correm os agrotóxicos utilizados pelo agronegócio de flores, nicho econômico que tem muita força na região. “Nosso clima e relevo, ao contrário do que afirmam, não favorecem a produção de flores. Inclusive, por causa disso, é preciso usar uma grande quantidade de agrotóxicos, que são lixiviados no rio. Ele está contaminado”, afirma Iala. Ela também recorda que, por meio da organização popular, em 2002 o município foi obrigado a preservar ao menos a nascente do rio, expulsando os produtores de flores que realizavam ali seu negócio: “foram feitas várias denúncias até que o MP embargou os plantios e obrigou o prefeito a retirar os produtores e implementar o parque, hoje denominado Parque Bosque da Nascente do Rio Jiquiriçá”, finaliza. 

A tarefa da autonomia e da soberania, apesar de não ser fácil, é feita das coisas mais simples que existem, como temos afirmado desde o primeiro texto da série. A chave da nossa liberdade está em nossa própria capacidade de fazer. A trajetória dos povos já mostra que confiar plenamente em agentes externos – Estado, instituições do poder, iniciativas privadas – não garante a sobrevivência, pelo contrário. As redes de luta e vida deverão ser construídas em uma grande aliança entre as comunidades, como forma de defender os territórios, como forma de tomar as rédeas das nossas vidas em nossas próprias mãos. Bancos e feiras de sementes, a defesa das águas, a reconquista da terra: Tudo parte de um plano para alcançarmos a necessária libertação.

FESTA, TRABALHO E PÃO!

O QUE NOS UNE É MAIOR QUE O QUE NOS SEPARA! 

Referências:

Material genético brasileiro segue para depósito no Banco de Sementes da Noruega

Por que existe um banco mundial de sementes. E como ele quase foi destruído

Um mapa animado da crise do arroz

As Sementes Tradicionais dos Krahô

Sementes do Semiárido – ASA Brasil

Um passeio pela festa da semente da paixão

LEIA OS OUTROS TEXTOS DA SÉRIE “O CAMINHO DAS SEMENTES”:

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