Posted on: 20 de outubro de 2022 Posted by: michele Comments: 0

Imagem do VI Encontro de Pajés, Deriva Jornalismo

Mestra Mayá compartilha uma pedagogia inovadora e ao mesmo tempo profundamente ancestral, que foi capaz de produzir saberes, práticas e relações relevantes para o fortalecimento de seu povo, o que colaborou decisivamente para a impressionante retomada de 54 mil hectares do território Pataxó Hã Hã Hãe, no Sul da Bahia

Por Raissa da Silva e Gabriel Kieling (Coletivo Etinerâncias)
e Michele Junana (Território Junana/ Teia dos Povos em Luta no Rio Grande do Sul)

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Não contaram nossa história verdadeira. Mataram nosso povo, nossa  floresta e não contaram a verdade. Fizeram um assassinato para acabar com o nosso povo, para invadir… E  os índios estão aí, mesmo com tanto sofrimento e dificuldade, os índios estão aí dizendo: olhem nós aqui, estamos aqui, estamos guerreando, estamos lutando pelos nossos direitos. (Trecho de A Escola da Reconquista)

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Mayá, que em suas mãos pegou tantos filhos e filhas, agora pariu um livro. A Escola da Reconquista é, sobretudo, uma semente. Uma semente que traz em si toda a sabedoria de como uma Floresta se reergueu. É uma fonte de ensinamentos sobre como se ativa e se reconquista a real história de um Brasil profundo e atual.

Desde a circularidade do tempo, de seu sentipensar/pensaragir, Mayá retoma o sentido da luta, da identidade, de nossas raízes e culturas, dos mistérios e encantos que tecem a vida. Mayá faz a política encarnada. Sua história se (com)funde com a história das retomadas que hoje formam a Terra Indígena Caramuru Catarina Paraguassu. Onde a magia pelo ensinar transforma árvores em sala de aula e sonho de menino em realidade.

Na capa do livro a imagem de Lucília Muniz, mãe de Mayá

Transformei-me numa professora andarilha. A escola acontecia com a gente andando de casa em casa… Eu andava também de retomada em retomada. Os pais faziam retomadas e levavam suas crianças. Eu tinha que ir onde as crianças estavam. Chegava lá e perguntava às crianças se sabiam porque estavam naquele lugar. Assim, íamos aprendendo e reescrevendo nossa história. Uma vez, fui intimada no Fórum de Pau Brasil. Cheguei lá e me perguntaram se eu estava ensinando os índios a fazerem retomadas. Eu expliquei que meu trabalho era ser professora e tinha que ir lá onde as crianças estavam, junto aos pais, pois era meu dever. 

Para quem souber ler para além das linhas – tiver disposição e ousadia para ir além das páginas do livro e trazer a leitura para sua realidade, como a mestra ensina -, Maria Muniz nos deixa de presente caminhos para a elaboração de um trabalho de base fincado na cosmovisão originária de seu povo. Mayá retoma e cocria uma pedagogia dessa conexão – entre Terra e Céu, Lua e Sol, Saberes tradicionais e Ciência, Sonho e Realidade; pratica a arte da escuta, de não se esquecer aprendiz o tempo todo, do aprender brincando junto. Uma pedagogia da terra que se faz em movimento, no caminhar, no rezo, na luta. Como ela mesma conta:

Nunca disse pra eles [alunos] que eu era professora, e, sim dizia que nós viemos estudar para dias melhores. Minha educação foi feita nesse padrão: trabalhando, caminhando, cantando e conversando. Nas beiras dos rios, embaixo das árvores, em casas de farinhas, em um grande curral que pertencia à nossa comunidade. E, lá, o nosso aprendizado foi riquíssimo. Esse curral abrigou a escola, muitas reuniões, encontros e, hoje, se transformou no Colégio Indígena da Aldeia Caramuru.

Ela nos presenteia com canções (ouçam em sua voz, que faz a terra tremer e o coração vibrar); cada cântico traz a profundidade de conhecimentos que não cabem em um só livro, tecem conexões entre mundos, sustentam céus.

Sua prática rompe com a linearidade colonial do pensar e das hierarquias coloniais de poder, que sempre usaram a “ciência branca” para defender seu projeto de extermínio. Junto ao seu povo, retomou 54 mil hectares de suas terras da mão dos fazendeiros: são 54 mil campos de futebol, em 30 anos de luta (de 1982 a 2012), 396 fazendas retomadas – melhor do que isso, 396 escolas. “E minha pedagogia serviu para essas histórias serem contadas, reencontradas, os jovens conhecerem, os povos se encontrarem e saberem por que estavam ali”, revela Mayá. “Esta escola foi construída ouvindo as histórias que os invasores tentaram apagar”, destaca.

Junto ao seu povo, Mayá retomou a escuta da história, a confiança na luta, a capacidade de apalavrear e contar sobre si. Retomou dos seus, produzindo conhecimento para os seus, sendo ponte entre passado e porvir. A partir do despertar da ancestralidade em seu corpo, Mayá encontrou os fios que permitiram tecer a conexão entre o seu povo, para que pudesse reconquistar o que era seu, e reativar futuros desde aí. Foram 396 fazendas-escolas. 54 mil hectares de histórias e memórias ancestrais de seu povo retomadas, que agora podem falar por si, desde seu corpo-território-memória.

Da espiritualidade, do canto e do sonho como guiança e armas de luta

Imagem do VI Encontro de Pajés, por Deriva Jornalismo

Entre as perspectivas não coloniais, indígenas, que Mayá encarna e apresenta, se destaca a importância e o poder do sonho. Ailton Krenak comentou nos Estudos Selvagens que a civilização não leva o sonho a sério. Que na correria das cidades o sonho, se acontece, é uma curiosidade banal ou, quando muito, apenas representa o inconsciente do indivíduo, não tendo valor social. Entre o povo Guarani, e entre muitos povos, o sonho dá sentido à vida. Diz aonde ir, o que fazer, como e quando ir. Determina deslocamentos, rupturas, retornos e retomadas. Revela os sentidos da grande Caminhada. O sonho é local de encontro. Encontro de diálogo com as forças da vida que fazem o cotidiano se desdobrar nesse plano. Encontro com os encantados: é preciso saber escutar seus conselhos. 

Sonhar é coisa muito séria, que exige muito estudo. Davi Kopenawa também fala sobre isso no seu já clássico livro A queda do céu. Diz que os brancos dormem que nem machados largados no chão e, quando sonham, sonham consigo mesmos. Não conseguem sair de dentro de si. E que muito de ser xamã tem a ver com aprender a sonhar, ter visões que ajudam a entender o que aconteceu, o que acontece e o que vai acontecer, na não linearidade que lhe é característica. A vida não fragmentada. E essa visão que o sonho bem sonhado propicia, esse sair de si para o encontro com as forças da vida, dão a direção de como agir

A mãe de Mayá, Lucília Muniz, sonhou com a retomada. “Nós vamos enfrentar muita guerra, mas vamos ter o direito de alcançar nosso território”, disse à Mayá quando ela era criança. E assim foi. Muita guerra. Mas conquistaram seu território. Com muita coragem, organização coletiva mas, principalmente, com a guiança dos encantados. Como diz Mayá, “os encantados eram quem destinavam as orientações para ela nos repassar”. E assim seguiram e seguem fazendo.

Caminhamos junto com nossos seres espirituais. Em todo momento, nós estamos juntos. Todo trabalho de retomada que nós fizemos, fizemos confiantes nas forças de nosso deus Tupã, confiantes nos nossos encantados, no bater de nossos maracás para chamar nossos encantados.

Batendo os maracás e cantando com toda a força de suas entranhas. Assim Mayá se defendeu de algumas emboscadas, enfrentou dezenas de homens armados, fez os militares correrem. Com a força de seu rezo, com a força de seu canto, com a força da sua ancestralidade, de seu povo e dos seus encantados. 

Teve uma ocasião em que, cientes de que Mayá como professora levava e trazia informações do território (quando as outras lideranças não podiam sair porque o cerco estava fechado, era ela quem fazia as conexões com as organizações apoiadoras), tentaram pegá-la. Um dia, voltando de ônibus da cidade para a retomada, 40 homens armados, a mando de um fazendeiro e políticos locais, bloquearam a estrada em busca dela. No princípio ela achou que havia chegado a hora da sua morte… Mas com o apoio de um senhor que estava no ônibus, que sutilmente a lembrou do poder de Deus e dos encantados, e com a força dessa guiança espiritual, ela cantou uma canção que fala da revoada das araras. E os policiais debandaram que nem araras. Se dispersaram. Sucumbiram frente à força de seu canto. Mayá comenta o causo:

Estava numa guerrilha e tentei me defender com a música. As músicas têm um grande poder. Elas são muito poderosas. Para mim, elas têm um sentido muito grande. São a minha arma mais forte. No momento que me vi nessa guerrilha, quem me defendeu? Deus. Nossos encantados, me libertaram dessa força maligna. Não precisei xingar eles. E o cântico veio. Sim, eu era uma índia guerreira.

Mayá conta outro episódio em que se livrou de muitos homens armados com a força dos encantados, com a força dos cantos. Foi lá por 1997, um período de muitas retomadas, quando retomaram a fazenda Milagrosa, na ocasião da morte de Galdino (que foi assassinado brutalmente em Brasília enquanto defendia os interesses da retomada Pataxó Hã Hã Hãe). Um coronel chegou na retomada com seus soldados e engrossou pra cima do cacique Nailton, irmão de Mayá. A situação estava tensa, prestes a se transformar em conflito direto, quando Mayá convocou a comunidade a começar o ritual. E puxaram o cântico:

Deus no céu, os índios na terra

Deus no céu, os índios na terra

Ô, quem é que pode mais?

É Deus no céu!

Ô, quem é que pode mais?

É Deus no céu!

No começo a tropa ficou observando. Quando menos se esperava, estavam cantando junto. A comunidade puxou outro canto de poder. E a tropa junto. O coronel viu que já tinha perdido a batalha, bateu em retirada, e os seus soldados foram no ônibus cantando “Deus no céu e os índios na terra”. Dava pra ouvir da retomada, o ônibus indo e os soldados cantando lá dentro, até perder de vista. Antes de sair o coronel disse: “Vocês são um povo muito forte”.

Da importância do saber que vem da sabedoria de viver

Imagem do VI Encontro de Pajés, Deriva Jornalismo

A socióloga e ativista boliviana Silvia Rivera Cusicanqui traz alguns elementos para entender a colonialidade e a luta anticolonial, o choque entre mundos que se deu quando as caravelas chegaram, e seguem se chocando. Ela diz que alguns ditados Aymara ajudam a entender o significado do Bem Viver, entre eles um que diz que é preciso caminhar o que se fala. Isso significa colocar em prática o que dizemos. Parece simples, mas não é o que acontece no mundo colonial. 

Na política colonial, os discursos são vazios. Servem pra enganar. Convencer. Muita propaganda, pouco diálogo. Um falar que não parte da escuta. Desconectado do coração, da verdade, do sonhar, dos encantados. Sem propósito profundo, a não ser ganhar. Um discurso sem sentido, expressão de um viver sem sentido. 

Se para sonhar de verdade é preciso sair de si e estar disposta ao encontro, para rezar de verdade é preciso saber ouvir – e este conhecimento também acrescenta muito à sua atuação como uma educadora que trabalha para a luta.

A gente pode estar com muita dificuldade com a luta. Quando a gente coloca o pé na terra, o ouvido na terra, quando sente o gemido da terra, escuta o seu chamado, a gente sabe como vai seguir os nossos passos, porque estamos ouvindo. Ela está dando direção pra gente. Foi feito este trabalho nas nossas retomadas: o nosso escutar. Porque, quando a gente tenta escutar, sabe que caminho vai seguir. Se a gente não escuta, como vai saber em qual estrada temos que ir, qual o caminhar, como vai caminhar, com quem temos que caminhar?

Mayá traz duas situações em seu livro que exemplificam bem esse choque entre mundos. Na primeira, ela conta de uma reunião da Teia dos Povos em que algumas pessoas “não sabiam o que queriam” e “criavam polêmica”, deixando as outras nervosas. Cabe um parênteses para destacar que a colonialidade do discurso, do caminhar, do viver, não é monopólio da direita. Afinal, a própria referência de esquerda e direita vem da política colonial! Mas se abaixo e à esquerda está o coração, é preciso saber acessá-lo. E só falar quando ele está de acordo, e como ele mandar. Como tantos povos ensinam. Falar bem para bem caminhar. Nesse momento tenso da reunião, Mayá puxou uma canção. “Pisa no massapé, escorrega, quem não sabe andar, olha a queda”.

Muitas vezes, a gente pensa que está sabendo andar, mas está pisando em falso, pisando um em cima do outro, maltratando, judiando e, se não souber andar, às vezes cai, escorrega e, para levantar, pode ter dificuldades. E, para fazer retomada, é preciso saber andar. Se você não escorregar e cair, está pensando que está fazendo tudo certo. Por isso, é preciso escorregar e cair para, quando levantar, levantar mais forte. Massapé é um mato meio crespo para a gente pisar. É um crespo que desliza. E é um remédio também.

Mayá conta sobre outro canto, um dos muitos pra Jurema, que termina falando “vamos lutar, meu povo, pra estas guerras terminar”.

Há sempre um silêncio depois desse canto. Acabam os conflitos. Precisamos não ter atritos entre nós mesmos. Em um local onde tem só briga e confusão, nada vai dar certo. Sempre disse isso para os jovens: “para tudo é preciso ter paz”. É meu jeito diferente de chamar para dar conselho. Precisamos ter um jogo de cintura muito forte para guerrear junto com o povo. Se estamos fazendo um trabalho comunitário, vamos ter que aprender a conviver. A gente sabe de plena certeza que ali tem gente de toda forma. Cada um Deus deixou do seu jeito. Cada um tem a sua forma de ser. Mas, se sabemos estar perto um do outro, vamos viver muitos anos todos juntos, tendo paz e tranquilidade. Mesmo que algum dia tenha uma pequena conversa, que aquilo acabe o mais rápido possível para não criar atrito. É o trabalho que venho fazendo na minha comunidade e com as outras. Canto quando chego. Porque temos que saber chegar, saber pisar, saber estar. Cada local é diferente. Temos que ter um jeito de chamar o pessoal para dar um conselho. Às vezes, falar não dá jeito, então vamos cantar.

Mas também é preciso saber impor território, território-saber, território-corpo. Mayá conta de uma vez que foram pra França e teve uma situação muito triste, disseram que eles eram índios da Amazônia. Ela brigou. Pegou no microfone e disse que eram do Nordeste, que ainda existem índios lá. Depois um antropólogo disse que tinha uma mesa preparada pra ela falar, mas que ela deveria ceder o lugar pra ele, que ele sabe falar tudo sobre os indígenas. E ela respondeu:

Peço que o senhor me desculpe, mas me respeite porque eu tenho boca. Eu posso falar. Do meu jeito, como eu sei falar. Não sei falar como o senhor que é doutor, mas vou falar do meu jeito e todo mundo vai ouvir e vai saber o que estou falando, porque não vou falar grego. Não sei falar inglês, francês, polonês, mas da minha forma eu sei falar. Me respeite porque o meu lugar é meu.

Mayá compartilha seu saber mas também conta que sua mãe dizia para não falar tudo. Falar alguma coisa, mas guardar o que é seu. O que é de seu povo. Seu segredo. É muito comum ouvir isso dos povos indígenas. Eles têm os seus segredos. Não contaram tudo aos antropólogos. E não basta ser curiosa, querer aprender, pra descobrir. Uma velha prática para reexistir à colonialidade. Nem só de palavras, mas também de silêncios e mistérios, se fazem os enfrentamentos. E como canta Mayá:

Todo índio tem ciência

Ai meu deus, o que será

Tem a ciência divina

No tronco do Juremá

Teia dos Povos e a força da luta indígena

Japira Pataxó, Nailton Muniz, Mayá e Joelson. Mestras e mestres da Bahia que foram reconhecidos como doutores de notório saber pela UFMG. Imagem: Raissa da Silva.

O livro da mestra Mayá é o segundo lançado pela Teia dos Povos, enredamento de sonhos e de lutas do qual ela é importante presença. O primeiro foi Terra e Território: caminhos da revolução dos povos no Brasil, do mestre Joelson Ferreira, do assentamento Terra Vista, em parceria com Erahsto Felício. O terceiro, Saberes dos matos Pataxó, da mesta Japira Pataxó, está na pré-venda.

E foi Joelson quem convidou os Pataxó Hã Hã Hãe para participarem da Teia. “Com Joelson e Solange, com o movimento de mulheres, começamos a participar, fomos tomando gosto e sentindo que a nossa luta era a mesma deles: era a luta por território, por terra, por plantios, por sobrevivência”, diz Mayá. 

A preocupação agora é ter uma universidade dentro da Aldeia. Mas ela diz que a Teia dos Povos é a universidade deles. 

Estou chegando aos 73 anos, mas ainda estou com coragem e disposição para dizer agora aos meus professores como devemos trabalhar.

E por meio do compartilhar e multiplicar sementes, produzir alimento, cuidar da terra, ter autonomia alimentar e diversidade de plantas, sem patente, sem veneno, sem latifúndio, sem monocultura, é que essa universidade vem se levantando na prática. Vem se tecendo entre muitos povos e territórios. E Mayá conta que estão tentando organizar um banco de sementes. 

É preciso fazer essa grande aliança, que a Teia dos Povos preconiza, acontecer.

Temos que aprender a ser humildes, amar mais, considerar, respeitar, senão não vamos chegar lá. Porque a guerra taí. E ela é mundial. Veja que a guerra é mundial, mas está todo mundo dentro de suas casas. E quem está lá em Brasília brigando? Os indígenas! A pandemia não está empatando os indígenas de guerrear. Quem é que está na beira das pistas guerreando? Os indígenas. Então a guerra mundial está para quem? Para os indígenas defenderem. Na semana passada, fiz a reunião com um grupo de jovens que está na frente das atividades e disse para eles que, ou aprendem a respeitar o ser espiritual e o poder de nossos encantados na nossa comunidade, ou vão se encontrar em situações difíceis, vão só pisar no massapé e escorregar. Digo que aprendam e sigam o caminho da verdade, porque nem eu nem Cacique Nailton somos eternos. Queremos que aprendam a trabalhar com seriedade, muito amor e respeito. Temos que pensar além das nossas comunidades. 

Relembrar o esquecimento e a pedagogia da reconquista

Imagem por Greice Coelho

Por que começamos a falar da Escola da Reconquista? As nossas falas indígenas estavam esquecidas. Como nossas falas indígenas estavam esquecidas, e como professora indígena que trabalhou em um magistério indígena, comecei a lembrar desse esquecimento.  Lembrei dessa escuta do pessoal que não estava querendo ouvir o nosso povo. Já tinham nosso povo como exterminado.

Mayá nos conta que começou a lembrar. Se lembrou do esquecimento. Se lembrou que a não-escuta também extermina. Assim, ela cria a pedagogia do lembrar, do escutar e do falar.

Eu sonhei. Meu sonho era tentar reconquistar esse caminhar, esse falar e esse ouvir, ou esse ouvir, esse falar e esse caminhar, em formas diferentes, lembrando que nosso povo ainda existe, que nosso povo tem ainda uma forma de viver, de caminhar. Então, é uma reconquista. Nós estamos a lembrar a humanidade que a nossa nação nunca morreu. Nunca morreu. Silenciou devido às guerrilhas contra os nossos povos indígenas. Vamos estar sempre reconquistando, sempre dizendo que nós resistimos, que nós existimos e resistimos.

Esta pedagogia, que Mayá carrega em sua trajetória e materializa em sua prática, nos desperta também para uma maneira de fazer política por meio de reconquistar a capacidade de ouvir a si mesma/o, ouvir seu povo e falar no presente, sobre algo que existe.

Sua ancestral mais próxima, sua mãe, foi quem despertou Mayá para a retomada de si própria, para a missão que seus ancestrais lhe deixaram. Seu corpo é retomado, e é transformado nesse canal para as retomadas de seu povo. E hoje é Mayá quem desperta seus alunos, a juventude e todes que se deixam tocar por sua voz, sua sabedoria, seu rezo, seu canto. 

Com sua pedagogia andarilha, caminha por onde seu povo está. E se lembra da importância de escutar da terra – sempre conectada aos ensinamentos das grandes e sábias educadoras, sendo elas mães, anciãs e anciãos. Uma pedagogia do aldeiar, da convivência, do vincular, do brincar e cantar como potentes ferramentas de reconquistar dentro, o reconhecer a si mesma; e reconquistar fora, sua terra, sua coletividade, sua cultura, sua ancestralidade. Que também estão dentro. Que se constrói entre pessoas e entre todos os seres – com a terra, com os rios, com as chuvas, com as plantas, com as encantadas e encantados: conexões de reconhecimento, afirmação e produção de vida.

O que Mayá pode nos ensinar sobre como combater o facismo

Vídeo em que Mayá conta do assassinato de Galdino Pataxó em 1997 em Brasília e finaliza com um cântico de fortalecimento que veio dessa situação difícil. Imagens de Juliana Tonalezzi e realização do Coletivo Etinerâncias, intercâmbio de saberes, 2015.

Mayá incita um movimento nas pessoas, de maneira pedagógica, que permite que elas se transformem para serem exatamente quem elas são: que elas se retomem e rememorem. Como dizia Paulo Freire, “se a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor”. Mayá caminha na contramão da produção de conhecimento da “ciência branca”, que em seus esquemas de poder entende os povos originários como pessoas que não têm nada. Que não são nada. 

E essas pessoas descobrem que elas têm dentro delas, a partir de sua ancestralidade, a partir de seu povo, a partir da conexão com a terra e com os espíritos, um infindável tesouro. Tão infindável que se multiplica ao ser compartilhado. E se renova. Se tornam a própria fonte de um conhecimento valiosíssimo, que não está nos livros. 

Na pedagogia de Mayá, lutar é reunir o povo esparramado para que cada um possa contar sua história. Pois se fortalecer enquanto povo é saber quem somos. Essa consciência dificulta as manipulações por falsos líderes: que o povo delegue seu poder, sinta ódio pelos seus, negue sua ancestralidade e produza morte estéril. Pessoas que sabem quem são assumem sua responsabilidade, se reconhecem dentro da coletividade e produzem vida.

Quem visa hoje vencer o fascismo tem tudo a aprender com Mayá e com seu povo guerreiro, basta abrir os olhos, os ouvidos e o coração para sua prática, para sua pedagogia. Essa grande mestra nos ensina como aldeiar-se para aldeiar a política.

Nessa pedagogia a educação é trabalho de base. É reencontrar e reencontrar-se para saber quem eu sou, da onde venho, onde estou, para onde quero ir. Para onde queremos ir. Em “mim” descobrir o “nós”. Lutar é reencantar-se! 

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Todas as citações neste texto são do livro A Escola da Reconquista. Comprando o livro você acessa toda essa sabedoria e apoia a Teia dos Povos.

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