Posted on: 22 de novembro de 2020 Posted by: Erahsto Felício Comments: 1

Buscando fortalecer nossa rebeldia e ao mesmo tempo cuidar de nossa militância, pensamos em falar sobre algumas características/atributos para construirmos individualmente visando nos fortalecer coletivamente. Escolhemos três atributos para poder falar hoje: Discernimento; Constância; e o Amor Incondicional. Sabemos que no debate político de hoje pouco espaço há para falar de éticas, valores e virtudes. A subjetividade da luta revolucionária está ancorada no máximo na década de 1960 do século XX. Pensamos que se não construirmos nossa própria subjetividade, nossos próprios valores, cairemos nas seduções do pensamento hegemônico. Então, aqui, trataremos de explicar um pouco o que são estes três adornos virtuosos e como podem nos ajudar na luta.

Discernimento é afastar-se das ilusões do caminho mediante dois exercícios: a crítica e a recordação. As ilusões fazem parte de qualquer caminhada política. Ilusões possuem naturezas diversas, podendo ser mobilizadas por aspectos interiores, próprio de cada um, ou por esforços políticos das elites e de outros grupos oprimidos para disputar, manipular e mesmo submeter as pessoas. Um exemplo de ilusão interior é quando a vaidade e a soberba de militantes os levam a tradições de lutas que operam cultos às personalidades, que mimetizam seus ideólogos e lideranças e por aí vai. Em verdade, um dado militante cultua e faz proselitismo político em torno de um líder porque sonha com o dia em que se torna líder e terá outros militantes cultuando ele. Mesmo que esta reprodução seja num microcosmo, como uma liderança política local, ou a líder de um grupelho revolucionário seguida por um séquito, esta ilusão opera contra a própria luta convertendo gente que deveria usar suas forças para vencer o latifúndio, derrotar o racismo e parar a reprodução do patriarcalismo, mas acabam por dirigir sua atenção à construção de uma personalidade falsa e de uma coesão do grupo não pela bandeira política, mas pela persona do líder. Isto é um atraso na luta revolucionária.

Já a ilusão exterior faz parte do conjunto de valores da hegemonia burguesa e dos processos de disputa políticas fratricidas no seio dos povos oprimidos. Como exemplo podemos citar a crença no avanço político da sociedade e que cada pequeno ganho no âmbito da cidadania burguesa é uma vitória para os povos. O pensamento crítico deve mirar, por exemplo, aos ganhos políticos dentro da democracia burguesa e se perguntar se eles fizeram o lucro dos bancos recuar ou avançar, se fizeram o latifúndio perder terra ou ganhar, se protegeram mais ou menos a Mãe Terra. Há um conjunto de valores difundidos no seio da ordem burguesa que queremos aperfeiçoar, no afã de melhorar nossas condições de vida,. Isto vai do sistema de saúde à escola, para ficar nos mais facilmente defensáveis. E nós não estamos dizendo para parar a defesa destas instituições, mas para razoar também se a ordem em que vivemos não se fez com estas instituições. Ou acaso o racismo não se valeu da exclusão dos pretos e indígenas do sistema escolar – e depois da inclusão destes dentro de um currículo racista – para reproduzir e seguir estruturando o racismo? Podemos também pensar em partidos que cooptam lideranças verdadeiras lhes dizendo que possuem condições reais de ocupar um lugar no legislativo municipal, mas estão usando-as para aumentar os votos do político tradicional do partido para alcançar o coeficiente eleitoral. Ou mesmo encaminhar lideranças para cargos de governo e vulnerabilizar o território desta liderança ao assédio do capital. Tudo isto já vimos e seguimos vendo.

E como combatemos estas ilusões? Em nossa caminhada temos utilizado dois exercícios, como dissemos. O primeiro é usar a razão e o pensamento crítico para compreender o verdadeiro e o falso, o fato e a publicidade, o que está manifesto e o que está oculto no pensamento político. Em cada decisão a ser tomada, em cada sedução do poder, é preciso fazer um minucioso inquérito para saber o quanto estamos cedendo na rebeldia e na capacidade de construir uma luta revolucionária. Não é fácil manter um pensamento crítico, contudo, se não lutamos e enfrentamos as contradições reais da vida, e se não estudamos podemos fincar pé em minas subterrâneas e acabarmos imobilizados nas armadilhas plantadas pelo inimigo. A leitura de textos revolucionários nos preenchem de questionamentos absurdamente capazes de mobilizar nossa reflexão. O segundo exercício é fazer uma recordação profunda e cotidiana das razões que te levaram à luta. É muito comum na caminhada sermos tomados por demandas urgentes e cada vez mais urgentes. De tanto apagar foto e fazer remendo na luta, não lembramos mais porque começamos. Sejam as viradas próprias que a vida dá, sejam as adversidades que pessoalmente enfrentamos, não é incomum que depois de anos já estejamos num caminho muito diferente do que começamos. E tudo isto está bem e não tem problema. Não precisamos seguir o mesmo caminho que começamos, nós crescemos e amadurecemos também politicamente. Porém às vezes há deturpações nestas mudanças. Por vezes abandonamos um princípio que estava muito sólido no início. Outras vezes mudamos completamente o rumo do barco. Então é fundamental sempre recordar as razões que nos colocaram nesta jornada de luta. Lembrar de nossas primeiras batalhas, das dores sofridas, e da consciência que despertou diante das injustiças. A contínua recordação nos faz recuar de propostas perversas de crescimento que nos tiram do rumo revolucionário e nos faz nos reposicionar diante do erro. Operar o esquecimento de nossa caminhada é a tarefa dos de cima. Não podem ver uma organização ou liderança crescer que buscarão, sem dúvida alguma, fazer com que ela esqueça a semente que lhe tornou grande.

O outro atributo é constância. Que pode está ancorada na paciência e atenção. Não venceremos em um só dia. Toda luta possui seus altos e baixos, recuos e avanços. Isto significa, entre outras palavras, que nas tarefas políticas faremos muitas coisas que nos desagradam, que não gostamos e que nem planejamos. Estas tarefas dolorosas fazem parte das derrotas que os inimigos nos impõem, bem como de duras decisões que avaliam a ausência de forças para fazer nossa luta avançar. Quase sempre é nestes momentos de depressão da caminhada da luta que muita gente sai, vai se afastando aos poucos, diz que há coisas da vida pessoal para tocar e etc. O fardo da luta é sempre pesado se não aprendermos a andar com leveza. Na luta política o excesso e a intensidade nos momentos de combate pode cansar a militância e esvaziar a luta em momentos de maior calmaria. Por isto é preciso dosar a força e ter constância.

Porque as contradições da história aparecem quando menos esperamos e é ali que muitas vezes teremos que intervir e fazer avançar nosso grito rebelde. Porém pode ocorrer que estejamos dispersos neste momento. Que as dores do caminho nos tenham afastado. Então precisamos conduzir nossa luta buscando um equilíbrio entre alegrias e frustrações políticas e serenamente manter viva a potência da digna raiva em cada um de nós. Para isto dois exercícios podem ajudar. O primeiro é o desapego do resultado. Hamilton Borges da Reaja ou Será Mort@ nos lembra que estamos acostumados a ir para rua para perder. Sua teoria geral do fracasso é compreender que nossa presença política segue fundamental ainda que as forças que nos têm oprimido permaneçam mais poderosas do que nós. Seguimos tendo a tarefa de resistir mesmo que não sintamos o gosto da vitória. Nossa luta, portanto, importa para além da vitória. Ela é a semente da rebeldia dos tempos vindouros e a nossa capacidade de fazer nos encontrar uns com os outros. Lutadoras e lutadores isolados e fragmentados, que se acreditavam sozinhos em sua jornada individual, bem, é na luta que se encontram.

O segundo exercício para manter a constância é pacificar a voracidade com que nos alimentamos do mundo. Se estamos muito intensos nas tarefas da militância e nossos estudos, nosso lazer, nosso trabalho pessoal estão ficando acumulados, sabeis que eles vão cobrar e talvez quando cobrem seja um preço alto demais para pagar. Se no afã de organizar o povo deixamos descobertos nossos amores, quem cuidou e quem cuida de nós, é possível que quando sentirmos falta, não estejam mais ali e esta dor será absurdamente profunda e nos dirá que a culpa é da luta. Esta sede de mundo, devora rapidamente, mas não sacia, não mata a sede. Há que pacificar a voracidade e equilibrar a militância para que entenda que dedicar-se não é esquecer-se de si. Ou a metáfora da aeromoça: se ocorrer um acidente com o avião, as máscaras de oxigênio cairão. Primeiro coloque-a em si e depois na criança ou na pessoa ao seu lado. Porque se você tentar colocar primeiro nela talvez não dê tempo de colocar em si e você desmaie. E se for uma criança, ela mesmo poderá tirar a máscara dela e não conseguirá te ajudar. Então pensemos nisto, cuidar de nós e de nossos amores é fundamental para luta. Mas atenção: que este cuidar de nós siga no plural e não se converta em um cultivo de uma individualidade que afasta e aparta dos cuidados necessários de seu povo. Ninguém pode ser feliz se vê seu povo e seus amores sucumbir.

Por fim, falemos sobre o amor incondicional. É preciso transformar o sentimento que temos de justiça social em um amor profundo e incondicional pelo povo, que portanto acaba sendo por si mesmo se redirecionarmos nosso olhar para outros referenciais cosmológicos. Porque existe uma diferença grande entre saber que é o certo (uma visão ética, portanto) e amar incondicionalmente. Vejamos, nós podemos em nossa caminhada abandonar um amigo, deixar de seguir ombro a ombro com ele e mesmo nos tornar adversários, inimigos. A vida das pessoas estão repletas de amigos deixados pelo caminho. Contudo quem desenvolve um amor incondicional, como o que muitas vezes desenvolvemos pelos pais e, sobretudo, por nossas filhas e filhos, não abandona estes amores. É preciso entender a diferença. Uma coisa é ter clareza do problema político do capitalismo, do racismo e do patriarcado. Isto é uma coisa. Outra, muito diferente, é lançar-se e viver para este enfrentamento. Uma coisa é ver o povo sofrido e apoiar as causas populares, outra, muito diferente, é se irmanar e lutar como parte. Uma coisa, por fim, é você ter clareza sobre as teorias políticas que criticam as opressões, outra é está embaixo junto ao povo ouvindo suas teorias, suas memórias e suas lideranças.

Este amor incondicional é o que conduz um esforço duro, sofrido e cuja recompensa, por vezes, vem das coisas mais banais: um sorriso, um carinho, uma palavra nova que a criança aprendeu, uma conquista, etc. Neste aspecto as pequenas vitórias do povo precisam nos preencher como os primeiros passos de um bebê ou como o novo emprego da mãe. E para cada empreitada que o povo se coloque, também nós estaremos lá apesar dos pesares, com fé e esperança na vitória. Sem titubear, sem negociar os valores e princípios, sem se vender, sem deixar vender a causa do povo, sem trair. Porque o amor incondicional não nos deixa vender nossa mãe ou nossos filhos.

A grande dificuldade em fazer o sentimento de ética em favor dos mais oprimidos se transformar em amor incondicional está na incapacidade de escutar a própria sabedoria dos povos. Esta ética não converte a inteligência do militante em submisso à vontade dos povos. A arrogância no meio das esquerdas é uma praga avassaladora também. Se comportam como pais que não escutam seus filhos e acreditam que eles não falam nada de sábio ou como filhos rebeldes que precisam abandonar o caminho dos pais e ignorar suas sabedorias. Seja a soberba do adulto, seja a impetuosidade arrogante do jovem, esta é a grande dificuldade. Acreditamos, pois, que é necessário passar da inteligência crítica à crítica de nossa própria inteligência a partir da memória, das histórias, das teorias, da escuta e das práticas dos povos. Irmanar, ser um com o outro. Ou como falamos, ser um pequeno afluente e se tornar profundo com cada novo córrego que encontramos pelo caminho até que tenhamos a profundidade do mar da luta.

Olhando as biografias de revolucionários que marcaram a nossa história vemos que muitos deles desenvolveram estes atributos e se adornaram destas virtudes. O pensamento sobre as subjetividades revolucionárias abandonou o plano do debate político. Não podemos deixar de ver neste abandono parte também do nosso insucesso. Por isto, temos que reinventar uma ética e a caminhada virtuosa para nossas lutas. Do contrário a subjetividade dos de cima nos aplacarão. Esta é nossa palavra.

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