Compromisso com o enfrentamento ao feminicídio, fortalecimento da luta das mulheres nos territórios e a importância da conscientização entre os homens foram algumas pautas do evento. Celebração do 34º aniversário do Assentamento Terra Vista encerra o encontro.
Mulheres de todas as regiões da Bahia, estados do país e de outros países se juntaram no Assentamento Terra Vista, em Arataca (BA), para o V Encontro da Rede de Mulheres da Teia dos Povos. O evento, que reuniu mais de 2 mil mulheres e outras milhares de pessoas, incluindo homens e crianças, aconteceu entre 05 e 09 de março, com uma programação intensa de giras de conversa e de saberes, formações, oficinas, feira de produtos agroecológicos, Terreiro Lúdico, Tenda de Cuidados em Saúde, apresentações culturais e, principalmente, diálogos entre Territórios e Elos que compõem a articulação.
As Caravanas chegaram na tarde de quinta-feira (05), e, após montarem seus acampamentos na extensão do Assentamento, coberto de Mata Atlântica, fizeram a primeira janta coletiva. Na manhã de sexta-feira (06), a conversa se aprofundou na importância do fortalecimento da unidade das mulheres; o protagonismo histórico feminino no enfrentamento ao capital, ao colonialismo e às suas formas de opressão; bem como diálogos sobre o urgente combate ao feminicídio no Brasil e no mundo.
Indígenas, quilombolas, mulheres campesinas, das marés, das florestas e das cidades, alinharam temáticas fundamentais à proteção da liberdade feminina nos diversos contextos, trocando saberes e fortalecendo a histórica luta das companheiras. Ao longo dos dias, as manhãs foram dedicadas a giras de saberes e plenárias, que também abordaram temas como soberania alimentar, saúde popular, educação e o papel das mulheres como guardiãs da terra, das águas e dos territórios.





“A gente não vai mais apanhar de homem. A gente não quer morrer. Esse momento agora é pra gente se ver, se abraçar e sair daqui com as forças que a gente já tem, para enfrentar o que enfrentamos em nossos territórios. Também vamos pensar estratégias de como ajudar os homens a resolver o problema deles”, afirmou a mestra Marizelha Lopes, liderança na Ilha de Maré, durante a primeira gira de conversa. “A gente precisa contar a nossa experiência de violência, mas também de experiências que tem dado certo pra gente enfrentar esses problemas”, completou.
Dados recentes revelam que o Brasil registrou o maior número de feminicídios da última década. De acordo com a pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 2025 foram pelo menos 1.568 mulheres assassinadas por conta do seu gênero, aumentando em 4,7% os números já alarmantes de 2024. O estudo aponta que 80% destes crimes foram cometidos por homens que mantinham vínculos afetivos com as vítimas. Dentre as mulheres assassinadas entre 2021 e 2024, 62% eram negras. O FBSP também afirma que municípios com até 100 mil habitantes representam 50% dos casos.
No evento, os homens se reuniram em uma gira de conversa entre eles, para discussão da conjuntura da violência de gênero em suas comunidades, compartilhar experiências e compor estratégias de combate ao patriarcado, principalmente assumindo a responsabilidade de atuarem educando-se uns aos outros. Também, durante todo a atividade, o Terreiro Lúdico envolveu crianças em atividades artístico-educativas, jogos e brincadeiras, práticas fundamentadas fazeres coletivos, em contato direto com a natureza.




“Nosso encontro é parte de um processo político, formativo, espiritual, cultural e ancestral, construído coletivamente pelas mulheres de diversos territórios da Bahia que integram a Teia dos Povos. É uma caminhada contínua de escuta, articulação, cuidado coletivo e fortalecimento das lutas em defesa da terra, das águas, dos territórios e da vida”, diz a Carta oficial do evento, divulgada hoje (02) no portal da Teia dos Povos.
“Convocamos os homens a assumirem a responsabilidade na defesa dos territórios através do enfrentamento ao machismo e ao patriarcado. É necessário discutir o impacto do uso abusivo de álcool nas comunidades, que intensifica violências patrimoniais, simbólicas, econômicas, psicológicas e físicas. É urgente construir ações coletivas que despertem nos homens uma consciência crítica para o fortalecimento e a defesa das mulheres”, afirma outro trecho do documento.
Organizada pela Rede de Saúde da Teia dos Povos, a Tenda de Cuidados em Saúde foi outro espaço que funcionou durante todo o Encontro. Lá, companheiras puderam acessar diversas técnicas terapêuticas, formações, momentos de escuta coletiva e partilhas de medicinas tradicionais, como uso de ervas e produção de fitoterápicos.





Outra atividade permanente no evento foi a Feira Literária, que reuniu lançamentos de livros e exibição cinematográfica. “Elas me veem como uma estrela, vocês acreditam?”, perguntou ao público a escritora e pescadora do quilombo Graciosa, falando sobre as meninas como as meninas de seu território recepcionaram sua carreira literária. “Para elas é algo inédito, e é. As crianças brilham os olhos”, se emocionou a autora de A Princesa Akili e os Mistérios da Terra, obra relançada durante o Encontro.
Durante as tardes, também aconteceram oficinas temáticas e trilhas pedagógicas, aprofundando na prática os debates construídos nas giras, como a formação promovida pela rede de mulheres Arte da Terra – coletivo organizado por mulheres assentadas produtoras de óleos essenciais e outros itens de perfumaria naturais -, e as oficinas sobre sementes nativas crioulas, ministrada pela Rede de Semente da Teia dos Povos, e beneficiamento do cacau e seus derivados, com técnicas da Fábrica de Chocolate Terra Vista.
Bandas e coletivos musicais animaram as noites culturais. Quem abriu a programação, na sexta-feira, foi a Orquestra das Meninas, levando o clima do São João, com xotes, xaxados e baiões. Em seguida, o grupo Mulheres em Domínio Público conectou o público com as matas e cabrucas por meio de cantos de trabalho de mestras do sul da Bahia. No sábado, a roda se abriu para o samba rural sertanejo do Quixabeira da Matinha e o roots reggae da banda Simples e Natural.
No domingo (08), após o café da manhã – preparado, como em todas as refeições, com ingredientes da terra, agroecológicos – a plenária se reuniu para consolidar os temas discutidos. “Permanecer na luta é uma guerra parecida entre todas as nossas companheiras. Neste encontro da Teia nos unimos e nos tornamos parceiras. O encontro entre cidade e terra é excelente”, refletiu Maura Cristina, do Movimento Sem Teto da Bahia (MTSTB).
“Muitas vezes os homens saem daqui e continuam reproduzindo o machismo e o patriarcado. Então, a gente quer que eles realmente aprendam”, afirmou a Mestra Nádia Akawã Tupinambá, liderança do povo Tupinambá de Olivença. “Na cidade tem muitas mulheres morrendo, mas nos territórios também e nas aldeias também. A gente precisa dar um basta nisso. Os homens têm uma parcela muito grande de contribuição, porque eles podem falar com outros homens, isso não vai os fazer menos homens. As mulheres pariram o mundo”.
Após a reunião, o evento foi encerrado à noite, com a celebração de aniversário do Assentamento Terra Vista, que contou com a presença do compositor e cantor Tiganá Santana. Também se apresentaram o cantador forrozeiro Cecéu Amorim e o cantor Alfredo Neto.“Esse Assentamento é dedicado à luta das mulheres”, disse o Mestre Joelson Ferreira, um dos mais antigos assentados e agricultores do Terra Vista, na comemoração do 34º ano de fundação da comunidade do MST no Sul da Bahia. “Quem estava na linha de frente aqui eram as mulheres, então a gente fica muito feliz de ter esse encontro. São anos de luta, resistência e construção”, celebrou.
Para acompanhar mais detalhes sobre todos os momentos do V Encontro de Mulheres da Teia dos Povos, acesse o instagram @teiadospovos. Inscreva-se na nossa Newsletter e receba, toda semana, um resumo do nosso conteúdo.
