Posted on: 8 de julho de 2026 Posted by: Teia dos Povos Comments: 0

por Esteban del Cerro e Maria Quadrado1

Entre os dias 7 e 14 de junho, a Aty Guasu, grande assembleia Guarani e Kaiowá, se reuniu na retomada de Kunumi Poty Verá, município de Caarapó (MS). Esta assembleia foi organizada não só através das reivindicações históricas e lutas por terra e território, mas também pela indissociável memória que acompanha o retorno para a terra: no dia 14 de junho, 10 anos atrás, ocorreu o Massacre de Caarapó, que resultou no assassinato do agente de saúde indígena Clodiodi de Souza e ao menos seis feridos. Além de relembrar Clodiodi e todos aqueles que deram sua vida pelo tekoha – lugar onde se é, terra tradicional Kaiowá e Guarani –, a Aty Guasu também reafirmou seu firme posicionamento: a terra não se vende e não se negocia.

Antecedentes do Massacre

Em maio de 2016, a Terra Indígena (TI) Amambaipegua I teve o seu Relatório Circunstanciado de Identificação e Delimitação aprovado com 55.590 hectares, após mobilização Guarani e Kaiowá que resultou na ocupação da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (FUNAI). Após a identificação, os indígenas se organizaram para avançar na retomada de algumas partes deste território, incluindo o tekoha Toro Paso, onde se sobrepunha a fazenda Yvu. 

A retomada se encontra nos arredores da Reserva Indígena de Caarapó, conhecida como aldeia Te’yu Kue, uma das oito reservas demarcadas ao largo das décadas de 1910 e 1920 em Mato Grosso do Sul pelo Serviço de Proteção ao Índio, antecessor da FUNAI, com o objetivo de confinar os indígenas em pequenas porções de terra para permitir o avanço da colonização e das frentes extrativistas e agropastoris. A região estava densamente povoada de bosques nativos, devastadas especialmente após a Marcha para o Oeste durante a ditadura de Getúlio Vargas nas décadas de 1940 e 1950.

As retomadas, por sua vez, respondem a este processo histórico de usurpação, concentração fundiária e remoções forçadas provocadas pelas frentes coloniais. Nesta região, as retomadas começaram em 2013, quando latifundiários assassinaram o jovem Guarani Kaiowá Denilson Barbosa, de 15 anos, com uma bala na cabeça enquanto pescava para sua família, e jogaram seu corpo em uma estrada que divide o território com as fazendas. Na ocasião, um grupo de mães, inclusive a mãe de Denilson, começa a retomada de Pindo Roky, seguida por Itaguá e Pai-Tavyterã, com a força das mulheres. Nos anos seguintes, avançaram em Te’yu Jusu, que sofreu muitos ataques químicos por aviões e máquinas agrícolas que lançaram agrotóxicos contra as famílias indígenas e suas casas. Em 2013, também ocorreu o “Leilão da Resistência”, quando os latifundiários vendiam gado para comprar armas e contratar seguranças privados para matar indígenas e atacar retomadas. Um dos presidentes deste leilão é Eduardo Riedel, atual governador do estado de Mato Grosso do Sul.

14 de junho de 2016: o Massacre de Caarapó

No caso da retomada de Toro Paso, em 2016, a terra recuperada tem em sua história sangrenta as mãos de um dos primeiros colonizadores e fundadores da Federação da Agricultura e Pecuária do Mato Grosso do Sul (FAMASUL), que fundou uma milícia ruralista ainda na década de 1970. Sylvio Mendes Amado, primeiro proprietário, a deixou como herança para Raquel Silvana Cerqueira Amado Buainain, esposa de Nelson Buainain Filho, requerente da reintegração de posse contra os Guarani e Kaiowá e, posteriormente, um dos cinco acusados formalmente por orquestrar o Massacre de Caarapó.

O ataque contra a retomada em 2016 foi realizado por ao menos 70 camionetes de latifundiários fortemente armados, incluindo armas de precisão e três pás carregadeiras, em colaboração com a Polícia Militar. Os latifundiários se reuniram na madrugada no estacionamento da COAMO, uma das maiores cooperativas a serviço do agronegócio e do latifúndio na América Latina, em especial para monocultura de soja e milho transgênico, que cedeu suas instalações para a nova milícia ruralista. Quando mataram Clodiodi, ele estava apoiando as vítimas dos ataques, em especial os feridos por balas, pois atuava como agente de saúde comunitária de seu território. Jesus, de 29 anos, Josiel Benites, de 12 anos, Valdilho Garcia, de 26, Libério Marques, de 43, Norivaldo Mendes, de 37 e Catalina Rodrigues de Souza, de 50 anos foram hospitalizados com feridas em órgãos vitais. Depois do assassinato de Clodiodi, com balas na cabeça e na barriga, tentaram retirar seu corpo com uma das pás carregadeiras, o que foi impedido pelos indígenas.

Mesmo diante destes acontecimentos, a retomada de Toro Paso permaneceu em resistência, como resultado de uma insurreição Guarani e Kaiowá por seus mártires e pela terra. Renomearam a retomada de Kunumi Poty Verá, nome de batismo indígena de Clodiodi, como homenagem a sua memória. Ao mesmo tempo, outras quatro retomadas avançaram em resposta aos crimes do latifúndio: Nhamoi Guavira’i, Jeroky Guasu, Nhandeva e Guapo’y. A polícia foi expulsa do território, carros e máquinas agrícolas foram incendiadas.

A atualidade do Massacre e a Grande Assembleia

Em 2018, dois anos após o Massacre, o pai de Clodiodi, Leonardo de Souza, foi criminalizado e preso, acusado de liderar a resistência. Idoso e com doenças crônicas, ficou encarcerado por cinco anos, enquanto os assassinos de seu filho respondiam o processo criminal em liberdade. Virgilio Mettifogo, Jesus Camacho, Eduardo Yoshio Tomonaga, Dionei Guedin e Nelson Buainain Filho foram os acusados formalmente por organizar e executar o massacre. As audiências sobre o Massacre de Caarapó só foram iniciadas em 2022 pela Justiça Federal, e todos os acusados seguem respondendo em liberdade ainda hoje. No latifúndio de Virgílio também foram encontrados indígenas em condição de trabalho escravo em 2023. 

Em 2022, outro massacre ocorreu, dessa vez na região de Amambai, conhecido como Massacre de Guapo’y, quando Vitor Fernandes foi assassinado pela Polícia Militar após a retomada de Guapo’y Mirim Tujury, seguido do assassinato por emboscada de Marcio Moreira e Vitorino Sanches. Como no caso de Caarapó, os assassinos seguem impunes e não há justiça para as comunidades.

A assembleia da Aty Guasu, que começou no dia 7 de junho de 2026, reivindicava a justiça ancestral, por meio do avanço dos processos de retomada. Na assembleia, se reuniram familiares e sobreviventes dos massacres, que relembraram seus mortos e levantaram a voz por território, justiça e liberdade. Durante os sete dias de assembleia, os temas principais foram subdivididos em: 1) território, retomadas e direitos indígenas; 2) saúde indígena; 3) educação; 4) juventude indígena e mídia e meios de comunicação; 5) mulheres indígenas; 6) políticas públicas e organização social. A assembleia também contou com a presença de representantes da FUNAI, incluindo sua presidente; do Ministério dos Povos Indígenas, na figura do Ministro Luiz Henrique Eloy Amado Terena; do Ministério da Justiça e do Ministério Público Federal, todos duramente cobrados para o cumprimento de seu papel institucional e por respostas imediatas às reivindicações dos povos que atravessa todos os eixos da assembleia.

Durante a assembleia, também ficou evidente como a Polícia Militar tem sido utilizada sistematicamente como segurança privada dos grandes fazendeiros, o que as retomadas mais recentes deixam explícito. Foi o caso de Nhanderu Marangatu, em 2024, no município de Antônio João; de Passo Piraju e Guyraroka, em 2025, nos municípios de Dourados e Caarapó; e de Tapyi Korá, em 2026, no município de Amambai. No caso de Tapyi Korá, parte da Terra Indígena Iguatemipeguá II, três indígenas permanecem presos em diferentes penitenciárias. 

Por fim, o espaço da Aty Guasu, organização de quase 50 anos, foi um momento fundamental de encontro entre comunidades e povos, para o fortalecimento das redes e organização internas, fortalecimento espiritual e estruturação de um plano de ação e mobilização para o período vindouro, de grandes incertezas a nível nacional. Os direitos indígenas seguem gravemente ameaçados pelo Estado brasileiro, dominado pelo latifúndio. As retomadas não se detém e se multiplicam com intensidade, desafiando a ordem agrária-empresarial. Para os povos, a terra é um corpo, e nós fazemos parte do corpo da terra. A terra não é propriedade, é o comum, onde criamos relações com os seres e as forças vitais, que não podem ser alvo do extrativismo.

O futuro das demarcações?

As escolas indígenas da aldeia Te’yi Kue paralisaram suas aulas para que os estudantes participassem. Dois ônibus chegaram na assembleia com os estudantes, e os rezadores e rezadoras (nhanderu e nhandesy) foram recebê-los com rezas. Em seguida, todos marcharam na direção do túmulo de Clodiodi, situado na entrada da retomada onde foi assassinado pelos fazendeiros. No momento em que era realizada a homenagem para Clodiodi, durante a fala dos sobreviventes e criminalizados, chegam diversos carros e viaturas oficiais, adentrando a região do cemitério ostensivamente com o ronco dos motores e perfurando o círculo que agregava todos os participantes da assembleia. Primeiro, saem do carro diversos seguranças à paizana, provavelmente da Polícia Federal, com fones de comunicação nos ouvidos e afastando as pessoas para a saída das autoridades. Em seguida, Eloy Terena, Ministro dos Povos Indígenas, junto da presidência da FUNAI e de representantes do Ministério da Justiça. 

Acompanhado pelos rezadores e rezadoras, os Guarani e Kaiowá deram voz aos mortos. A imagem do túmulo de Clodiodi inaugurou a interlocução com as instituições. No regresso da marcha ao centro da assembleia, os representantes do governo federal se sentaram em linha no pequeno palco da Aty Guasu. Em cada canto, um rezador e uma rezadora. Durante a organização da mesa, a equipe federal inseriu uma propaganda oficial do governo em vídeo no telão, que se reproduzia incessantemente gerando imagens do agronegócio: grandes monoculturas, máquinas agrícolas e bois se defrontavam com a imagem diametralmente oposta de dezenas de famílias e centenas de Guarani e Kaiowá aguardando respostas sobre a demarcação de seus territórios, algumas após mais de 20 anos de espera. Ao perceberem a contradição, cessaram as imagens, paralisaram em um grande tereré, em seguida dando lugar ao logotipo da Aty Guasu, pelo protesto dos presentes.

O diálogo com o governo federal se inicia com a leitura da carta final da Aty Guasu, transcrita abaixo na íntegra. Na segunda parte desta matéria, iremos debater as contradições apontadas por esta carta em relação às instituições presentes e o atual estado das coisas referente a demarcação de terras indígenas, considerando o presente julgamento em curso no Supremo Tribunal Federal da Lei 14.701, que, entre outras violações dos direitos indígenas consagrados na Constituição de 1988, aplica o Marco Temporal e abre as Terras Indígenas para o neoextrativismo. A carta da Aty Guasu expressa, dentre diversos pontos, que 1) a não-demarcação é política; 2) desarticulação entre as forças do executivo – incluindo a FUNAI e o MPI, como ficou evidente na assembleia; 3) oposição à estratégia de compra de terras referendada pelo MPI; 4) crítica às articulações do ministro dos povos indígenas com Eduardo Riedel, governador do MS; 5) aproximação do MPI com Gilmar Mendes, mercantilização da terra e tese das indenizações de terra nua; 6) reforço da via da tradicionalidade para demarcação de Terras Indígenas. Segue a carta da Aty Guasu:

CARTA DA ATY GUASU AO MPI – 10/06/2026

Ministro Eloy, como o senhor sabe muito bem, nosso povo sofre um genocídio – que mais uma vez o Estado e o Governo não enfrentaram. Por isso o povo Kaiowa marchou em tantas incidências à Brasília neste último período. Andamos por toda capital federal, de sala em sala, Ministério em Ministério, órgão por órgão, procurando segurança e encaminhamentos contra os ataques de fazendeiros e policiais que nossas comunidades sofreram. Procuramos também a demarcação de nossos territórios pela via da tradicionalidade – única medida possível de acabar com toda esta dor e descaminho.

Todos nós sabemos que a não demarcação é política. Isto está claro. Sempre esteve. No momento, por exemplo, diferente de um ou outro momento oportuno para o executivo, não há impedimento técnico algum e isso foi evidenciado ainda mais em nossa última incidência. Mas dizer só isso esconde parte da verdade e das responsabilidades. A pergunta é: Vocês irão permitir isso ou frente a determinações tão claras do STF pela continuidade do processo de demarcação irão garantir nossas portarias declaratórias de Dourados Amambai Pegua I e Iguatemi Peguá I e nossas publicações acordadas com a FUNAI, ambas medidas que tem condições plenas de acontecer antes mesmo do período eleitoral.  

 O que nos assustou muito nas nossas idas a Brasília  e nos deixou muito revoltados durante todo este governo foi que percebemos:

a) Que durante todas as nossas muitas marchas por Brasília a Aty Guasu constatou que existe uma falta de articulação assustadora entre as instâncias do Executivo e esta era a principal competência do MPI – cuidar que as partes do Executivo estivessem alinhadas e firmes para garantir nosso direito. Cada instância falava uma linguagem diferente e interpretava diferente as iniciativas dos inimigos como a lei 14.701 ou outros instrumentos, ignorando até mesmo pareceres da AGU que permitiam avançar o processo de demarcação. Essa falta de articulação não pode ser entendida como um problema político dos outros órgãos apenas, mas sim como uma falha de competência do próprio Ministério dos Povos Indígenas. Essa era a principal carta que tínhamos através do MPI e após 4 anos de governo, em especial agora em momentos derradeiros essa articulação simplesmente não existe. Inclusive em alguns momentos constatamos que o MPI contribuiu com os ruídos. Não só percebemos isso como recebemos estas respostas dos outros órgãos, como MJ por exemplo. Cansamos de escutar que “o que a Aty Guasu está fazendo é o que deveria estar fazendo o MPI”.

b) Que com o assédio contra nossas comunidades sobre as compras de Terras e “alternativas fora da demarcação pela tradicionalidade” o MPI acabou causando constrangimentos inclusive dentro do próprio Governo. Isso foi possível testemunhar através de inúmeras audiências com outras instâncias. Não era um tema conciliado dentro do governo e foi uma ferida muito grande perceber que quem levava isso a frente era o MPI mesmo com a Aty Guasu já tendo manifestado inúmeras vezes que não concordava com as propostas. Inúmeras vezes imploramos a vocês e a FUNAI que não cedessem as ideias de Gilmar Mendes e demais, que se mantivessem no caminho da tradicionalidade e da constituição pela demarcação.

c) A insistência do MPI por soluções de mercado e ao mesmo tempo a aproximação do MPI com Gilmar Mendes e com as teses da indenização dos ruralistas em especial durante o primeiro momento da mesa de conciliação onde se tentou levar para lá lideranças indígenas, contribuíram significativamente com o atual cenário dos direitos indígenas que serão julgados a partir do dia 19 de Junho nos embargos. A decisão final do STF trazendo confusão com o tema das indenizações, direito de retenção da criminalização das retomadas só foi possível da forma que foi pela atitude que o MPI manteve nos dois últimos anos.

d) Foi duro constatar que o Governo decidiu também abrir mão da sua prerrogativa de demarcação que é só do executivo para negociar a pauta com os Estados como o MS e a Bahia que são os estados que mais assassinam e massacram os povos. Neste sentido lamentamos também a relação que se criou com o Governo Riedel – que permitiu inclusive que ele se sentisse seguro o suficiente para usar a policia do Estado de forma ilegal contra nosso povo por dezenas de vezes – questão que não foi coibida e nem apurada como se devia pelo Governo. Não houveram responsabilizações.

Dito isso queremos propor ao MPI como compromisso para ajudar os Kaiowa – respeitando nossa determinação e caminhos próprios – as seguintes pautas que podem minimizar o genocídio que sofremos:

a) Queremos uma reunião com o Ministro da Justiça. Ministra da casa Civil, Secretaria da presidência, AGU, FUNAI e MPI com a presença de nossa comissão da Aty Guasu para alinhar de vez os entendimentos e garantir nossos procedimentos de portarias e publicações. Desta forma tudo fica claro e articulado, sem que um ou outro órgão tire do trilho o que está determinado pelo STF ou negligencie sua atribuição através de posições confusas ou nebulosas, culpando outros órgãos. Se for decisão política não avançar então que falem, todos juntos, e assumam isso de frente para nosso povo.  Exigimos as portarias e as publicações. 

b) Que o MPI se manifeste para além do que já vai fazer AGU nos embargos e também em âmbito geral do RE, e peça para o Presidente Lula se manifestar junto sobre a questão de temas como a indenização de terra nua, que qualquer discussão de indenização se de em ato apartado ao procedimento de demarcação e sobre o direito a retenção e criminalização das retomadas.

c) Que o MPI abandone a estratégia que tem adotado com o Governo Riedel – pois falar com o governo por uma posição institucional não é ceder a este Governo assassino a acordos de interesse anti-indígenas a ponto do mesmo sentir-se tão empoderado como esta. Que o MPI e o MJ ajudem a responsabilizar quem agrediu nosso povo. 

A demarcação é um direito.

A terra não é uma mercadoria.

Esperamos poder contar com sua palavra.

Assinam abaixo:

Grande Assembleia da Aty Guasu Guarani e Kaiowa


  1.  Esteban foi encontrado à deriva pelos Guarani e Kaiowá. Maria Quadrado participou da resistência em Canudos. ↩︎

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