Foto: Palestinos assistem ao funeral coletivo dos membros das famílias Irahem, Malaka, Qanbour, Balawi e Dahdouh, que morreram em um ataque israelense em 2023 e cujos restos foram recuperados dos escombros, de acordo com a Defesa Civil de Gaza, na cidade de Gaza, em 6 de setembro de 2026.
Por ANRed
Originalmente publicado em: https://desinformemonos.org/naza-el-documental-premiado-y-la-respuesta-del-gobierno-israeli-mientras-gaza-sigue-bajo-fuego/
O documentário israelense NAZA, de Yuval Abraham e Rachel Szor, recebeu o Prêmio Especial do Júri no Festival de Veneza. O filme reconstrói, a partir de depoimentos de 24 integrantes e ex-integrantes dos serviços de inteligência e do aparato militar israelense, os mecanismos utilizados para selecionar alvos e calcular as mortes civis em Gaza. A resposta do governo israelense foi pedir a expulsão dos cineastas do país. Enquanto isso, continuam os ataques israelenses sobre a Faixa: nas últimas 48 horas, foram registrados pelo menos 10 palestinos assassinados e 56 feridos.
No sábado, o documentário NAZA recebeu o Prêmio Especial do Júri da 83ª edição do Festival Internacional de Cinema de Veneza. O filme, dirigido pelos cineastas israelenses Yuval Abraham e Rachel Szor, teve ainda uma recepção excepcional durante sua estreia: uma ovação de aproximadamente 25 minutos, enquanto parte do público levantava bandeiras palestinas.
O trabalho se introduz dentro da própria estrutura israelense. Durante três anos, seus realizadores entrevistaram secretamente 24 militares, oficiais de inteligência e pessoas ligadas ao aparato de segurança israelense. Os depoimentos descrevem sistemas de vigilância, coleta massiva de dados e procedimentos utilizados para selecionar alvos em Gaza, bem como a consideração de possíveis vítimas civis antes de executar determinados ataques.
O título NAZA faz referência a uma expressão utilizada no âmbito militar israelense para calcular a quantidade estimada de civis que poderiam morrer em uma operação como consequência de um ataque contra determinado alvo. O filme propõe que essas mortes não podem ser explicadas simplesmente como «danos colaterais» produtos de erros individuais, mas que fazem parte de mecanismos e decisões institucionais.

Os realizadores já haviam obtido o Oscar em 2025 por No Other Land, documentário que registrou a expulsão e a destruição de comunidades palestinas em Masafer Yatta, na Cisjordânia. Com NAZA, Abraham e Szor deslocam a investigação para o interior da máquina militar israelense e seus mecanismos de seleção de alvos em Gaza.
Traição: a resposta do governo israelense
O reconhecimento internacional provocou uma reação imediata do governo de Benjamin Netanyahu. O ministro da Cultura israelense, Miki Zohar, chamou os diretores de «traidores» e anunciou que buscará revogar a cidadania israelense deles. Também afirmou que ambos os cineastas agiam contra o próprio país para obter reconhecimento internacional.
A ameaça se dirige contra dois cidadãos israelenses cujo crime, segundo o ministro, seria ter exposto internacionalmente depoimentos sobre as operações de Israel em Gaza. A medida de revogação de cidadania não é automática: exige passar por procedimentos legais e judiciais.
A reação do governo israelense expõe assim uma contradição: enquanto o documentário recebe um dos principais reconhecimentos do cinema internacional, do próprio Estado israelense se tenta desacreditar e punir quem documentou os mecanismos utilizados durante a guerra.
O Exército israelense, por sua vez, rejeitou as acusações apresentadas pelo filme e questionou os depoimentos anônimos utilizados pelos realizadores.
Gaza: ataques até durante o cessar-fogo
A premiação de NAZA ocorre enquanto os ataques israelenses continuam em Gaza, apesar do cessar-fogo vigente desde outubro de 2025, as mortes nunca pararam.
Nas últimas 48 horas, o Ministério da Saúde de Gaza informou 10 palestinos assassinados e 56 feridos como consequência de ataques e disparos israelenses. Entre as vítimas está uma mulher grávida de oito meses, Iman Shalouf, assassinada enquanto estava em uma barraca junto à sua família na área de al-Mawasi. Também foram relatadas vítimas em Beit Lahia, Khan Younis e Cidade de Gaza.
Neste domingo, além disso, um ataque com drones contra um veículo no bairro de Tel al-Hawa, ao sul da Cidade de Gaza, provocou dois mortos e 13 feridos, segundo fontes médicas citadas pela Anadolu. Testemunhas apontaram que o drone lançou pelo menos dois mísseis contra o veículo e que também ficaram feridas pessoas que estavam perto.
O Ministério da Saúde de Gaza contabiliza desde a entrada em vigor do cessar-fogo 1.369 palestinos assassinados e 4.627 feridos por ações israelenses. Desde outubro de 2023, o saldo da ofensiva supera os 73.000 palestinos assassinados e 174.000 feridos, segundo as autoridades sanitárias de Gaza.
Alguns dias antes, em 10 de setembro, outro ataque israelense contra uma residência em Gaza deixou quatro palestinos mortos, enquanto ataques em Khan Younis provocaram ferimentos em crianças palestinas.
Em 11 de setembro, além disso, o Exército israelense afirmou ter matado três integrantes das Brigadas Qassam em Khan Younis. As autoridades israelenses apresentaram o ataque como uma operação contra integrantes do Hamas, enquanto não houve resposta imediata da organização palestina.
Um filme premiado que incomoda o sionismo
NAZA chega assim a Veneza em um contexto no qual a violência sobre Gaza continua e as denúncias sobre as operações militares israelenses voltam a ocupar o centro da discussão internacional.
O filme não é construído a partir de depoimentos de observadores externos, mas das vozes de pessoas que participaram ou estiveram ligadas ao aparato militar e de inteligência israelense. Seus realizadores sustentam que buscavam mostrar como funciona o sistema por trás da morte de civis palestinos.
