Posted on: 14 de abril de 2021 Posted by: Teia dos Povos Comments: 1

A série TERRA, TERRITÓRIO e AUTONOMIA é organizada pelo Núcleo de Pesquisas sobre Espaço, Política e Emancipação Social (NEPES-UFOPA) e pelo Núcleo de Estudos Território e Resistência na Globalização (NUREG-UFF).
Queremos dialogar com lutadoras(es) da América Latina que têm a autonomia como horizonte de pensamento e ação, apontando para “um mundo onde caibam muitos mundos”.
No primeiro encontro conversaremos com Casé Angatu Xukuru Tupinambá, da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC, Ilhéus, Bahia), Mestre Joelson Ferreira, da Teia dos Povos, e Raúl Zibechi, educador popular e jornalista uruguaio.
Na mediação, o coordenador do NEPES Rafael Zilio e o coordenador do NUREG Timo Bartholl.

Transcrição de trechos da live transmitida em 06/04/2021 (parte II).

Timo Bartholl

Durante muito tempo a própria Esquerda, a Universidade, costumava olhar para as periferias urbanas no sentido de tentar ajustá-las ao centro. Olhando sempre o que está faltando. Mas as periferias urbanas se apresentam como a melhor solução possível nas cidades, e isto não é pouca coisa.

Porque para um povo que é forçado a migrar para os centro urbanos, porque lhe falta opções no campo, e que não é bem-vindo, a não ser para ser explorado como mão-de-obra, que não tem onde morar, conseguir se auto-organizar em comunidades populares nas periferias enquanto favelas não é pouca a resistência que tem sido necessária para conseguir garantir isto.

Se a gente pensa na periferia urbana que só vamos ser autônomos se toda a nossa alimentação vamos ser nós mesmo quem plantamos, provavelmente vamos ficar muito frustrados. Vamos ficar tristes a partir do primeiro momento.

Mas se a gente pensa que a cada vez que não vamos no supermercado, cada vez que a gente consegue trazer um alimento diretamente do campo dos nossos companheiros que estão produzindo, cada vez que se consegue fazer uma pequena horta urbana, plantar na nossa própria laje, a gente constrói autonomia.

E vamos no rumo do horizonte da autonomia. A autonomia é o nosso horizonte, mas ela não vai se realizar como algo integral. Por isto que reflexão e ação tem que andar de mãos dadas, de forma tão íntima.

A cada passo que a gente dá, temos que nos perguntar: “- Eu me fortaleci ou me enfraqueci com este passo?

Se colocou aqui no chat a questão da caridade, que foi muito importante para a sobrevivência nas periferias urbanas. Como a gente trabalha com o par caridade x solidariedade?

Estamos sempre trabalhando com híbridos. Nada é puro.

A gente precisou de muita caridade para sobreviver. Mas isto não quer dizer que aceitamos a caridade como regra ou norma.

Para estes alimentos que foram doados pelas empresas capitalistas chegarem até os moradores da favela, os que mais enfrentam a emergência econômica, foi necessário muita solidariedade.

As pessoas voluntariamente trabalhando nas frentes de mobilização. Foram moradores das favelas que entregaram. Este é o lado que precisamos fortalecer: a solidariedade.

As empresas capitalistas tem mais do que obrigação de fornecer alimentos, porque vivem da exploração dos territórios e dos trabalhadores. Mas esses alimentos nunca chegariam às casas das pessoas se não fosse pela solidariedade intra-território.

Eu penso muito a autonomia nessa questão dos passos lentos, enquanto uma autonomia parcial. Que se constrói avançando um passo um dia, e sempre tomando cuidado de não regredir no outro dia.

Nós que estamos aqui militando nas favelas muitas vezes nos sentimos pequenos, ou muito pequenos, diante de tudo que se enfrenta.

Para pensar autonomia a partir das periferias urbanas há grandes referências acontecendo no dia a dia. Como o Movimento das Comunidades Populares (MCP), a Comunidade Chico Mendes, o Ocupa Alemão, a Favela Quilombo, vários grupos aqui na Maré, onde eu estou também.

Joelson Ferreira

A urbanidade está desequilibrada. Está em risco profundo. As pessoas precisam entender isso. Se não entender vai procurar remendar a coisa, e não vai resolver.

Nós precisamos ir no centro da problemática.

Todos os países latino-americanos a primeira coisa que fizeram foi tomar o território dos povos. Então se a gente não discutir essa primeira questão, dificilmente vamos resolver.

Isso não quer dizer que no processo de organização do povo urbano não se possa fazer autonomia das periferias das cidades. E lá também é onde está a grande população que antes foi rural.

Se não tivermos como primeira tarefa e responsabilidade equilibrar o urbano e equilibrar o rural, dificilmente teremos sucesso com as autonomias nos centros urbanos. Porque elas são paliativas. E nós precisamos ir no cerne do problema.

Nós precisamos ter essa clareza. No urbano pode-se fazer muita coisa. Tem muita coisa prá se fazer.  Se quisermos fazer qualquer mudança, temos que dialogar com as periferias. Porque é lá onde está o nosso povo.

A questão dos povos originários e do povo preto no Brasil não será resolvida sem resolvida se não resolver o problema da Terra e do Território. E resolver o problema da Terra não é dar um pedacinho de terra aos pretos, não é dar um pedacinho de terra aos povos originários.

Não terá saída se a gente tentar resolver os problemas macro no micro. Nós precisamos entender que o problema é macro e nós precisamos resolver no macro.

Mas se a gente não resolver a particularidade, começar a fazer a revolução na particularidade, nós não fazemos no macro.

Se continuarmos com essas ilusões que vamos resolver os problemas com essas instituições do Estado burguês que está aí, nós estamos fora de qualquer aprofundamento.

Porque esses sistemas foram colocados aí justamente para controlar os povos. Justamente para tomar os territórios dos povos, para destruir os povos.

Como é que vamos acreditar na caridade dos que nos massacram para resolver os nossos problemas.

Não tem saída por aí.

Esse país, essa América Latina, tudo isso aqui é nosso. E nós precisamos lutar por tudo, porque senão nós não teremos nada.

A Esquerda está querendo salvar o Capitalismo. O Capitalismo não tem salvação. Tem que parar com essa ilusão.

A Esquerda está com uma problema grande que já vem não é de agora. Desde os anos 1980. E principalmente depois da Queda do Muro de Berlim. E levando o povo todo prá essas ilusões. Que nós vamos resolver os problemas da humanidade através do voto e da democracia burguesa.

Várias pessoas que eu conheço, que estavam na luta, quando entraram nesse processo não retornaram mais prá casa.

Eu não acredito nem no neo-desenvolvimentismo, nem no Capitalismo, nem nessa forma de representação do nosso povo. Através dessas ilusões nós não vamos chegar a lugar nenhum.

No mundo do avanço e da concentração do Capital é impossível governar. Hoje os Estados não são mais nacionais. Os Estados não tem mais poder de incidir na Economia. Quem resolve são as transnacionais. Quem resolve são os Impérios.

Já fui muito reclamado por vários companheiros da Esquerda, quando falamos da possibilidade de renascer na nossa comunidade, no nosso fazer de fato, e na busca da nossa ancestralidade e da nossa autonomia.

Nós podemos construir um mundo extraordinário.

Eu moro num assentamento. E não saio daqui por nada desse mundo para ir atrás de qualquer desenvolvimento.

Aqui a gente sai da safra de abacate, entra na safra de jaca, na safra de banana. A gente vive numa riqueza. Nós aqui bebemos água mineral. Tomamos banho de água mineral. Temos nosso território organizado.

Recuperamos a mata ciliar. Fazemos um chocolate rebelde que ganhou notoriedade.

Moramos num sistema cabruca que foi idealizado pelos povos indígenas e o povo preto. O retirante nordestino que veio prá aqui.

Esses saberes é que estão me dando a  condição de estar presente nessas discussões. Então, como vou abandonar um negócio deste prá acreditar num desenvolvimento controlado pelo Capitalismo.

Como é que eu vou sair de um local deste prá ficar recebendo políticas públicas, que um dia sai outro dia não sai.

Como é que eu vou sair de um lugar deste prá ficar mendigando e pedindo favor das elites. E ficar pedindo os Deputados prá votar esse auxílio emergencial.

Aqui nós estamos produzindo a nossa autonomia. Esse desenvolvimento que a Esquerda está iludida não nos interessa.

Poder sem Terra e Território não existe. A nossa forma de pensar a Revolução é fazer ela todos os dias. Construir o poder popular.

E todas essas nascentizinhas vão formar um rio caudaloso, vai formar um grande mar de povo. E não vai ter ninguém que vai deter a gente.

E nós vamos ser vitoriosos.

Raúl Zibechi

A Esquerda tradicional tem a teoria política da escada. Ela busca crescer para cima. A idéia da Esquerda é chegar ao poder do Estado, e daí mudar o mundo.

Eles olham os espaços de autonomia de cima para baixo. Não compreendem essa questão da autonomia.

Para nós a autonomia não cresce para cima, cresce para os lados.

Os Zapatistas tem uma frase muito interessante. Eles dizem: “Nós não desejamos governar aos outros. Queremos ajudar a que todos os povos se auto-governem.”

Auto-governo pode ser problemático, pode ser lento. Mas é o caminho.

Nosso mundo não cresce para cima, cresce para os lados. Ajudando a outros comunidades a se auto-governar.

É possível autonomia urbana. Mas autonomia no meio urbano não pode se desligar do meio rural. Os pequenos grupos autônomos da cidade tem que criar uma aliança de complementaridade com o setor rural.

Não podemos pensar a autonomia urbana isolada do mundo rural. Mas sim como uma ponte rural-periferia urbana.

Sem dúvida a terra é uma questão universal. Também a terra urbana. Não como propriedade. Sim como capacidade de uso. Bem de uso e não bem de troca.

Nós criamos autonomia e defendemos coletivamente nossas autonomias. No campo e na cidade.

Acredito que toda a teoria e a prática política da Esquerda estão ultrapassadas pela vida.

A idéia do partido de vanguarda, a idéia do partido que dirige as massas. Como se as massas fossem sem forma.

A idéia de tomar o poder, a idéia do desenvolvimentismo, a idéia de participar do Estado, das instituições da burguesia.

Tudo isto está ultrapassado.

Estamos diante de dois mundos. O mundo dos partidos e dos sindicatos. E o mundo das comunidades.

Para um partido e um sindicato as pessoas são um meio para atingir o objetivo. A natureza é um meio para atingir um objetivo.

Na comunidade o objetivo são as pessoas, o objetivo é a natureza. Não são coisas separadas.

Estamos diante de duas civilizações diferentes.

A civilização das comunidades, da natureza, da vida, da existência e da re-existência. E a cultura do poder, do dinheiro da conquista. A cultura colonial, patriarcal.

São duas culturas, duas civilizações que não tem possibilidade de caminhar juntas. Eles vão fazer seu caminho. E nós vamos fazer nosso caminho.

Casé Angatu Xukuru Tupinambá

Eu nasci na periferia. Minha família foi migrada. Foi expulsa da terra na década de 1930. Lá de Palmeira dos Índios. Dois irmãos de meu pai tiveram a orelha cortada.

Migração nordestina é migração de índio e de negro. De gente que vivia na terra.

Eu fui morar na periferia leste de São Paulo. Com 80 xukurus. Que se lasque a Prefeitura e o Governo do Estado! A gente não falava isto, mas a gente vivia assim!

A gente vivia com 80 xukurus autonomamente. Com a nossa cultura, nossa tradição, fumando o nosso cachimbo, fazendo a nossa reza. Em plena capital paulista.

Quando vou prá São Paulo, vou fazer palestra em baixo de viaduto, com moradores em situação de rua. Aí eu falo: “- Rapaz, você também é índio. Você é afro-descendente.”

Essa fala que eu faço é perigosa. Por quê? O medo do Estado e dos capitalistas não é você se auto-assumir afro-descendente ou indígena.  É o seu direito originário ao território.

E aí você assumir formas de viver que o Capitalismo não quer. Que é ter as coisas não como propriedade, mas como pertencimento.

Paraisópolis é um bairro da periferia de São Paulo, e como enfrentou a pandemia? Eles auto-contrataram uma ambulância e equipe médica.

Para mim não existe dilema entre caridade e solidariedade. Primeiro tem que tá vivo. Eu só faço a luta se estiver vivo.

É caridade? Venha! Pode trazer aí. Venha, venha!

Se for de solidariedade, coletivista, no sentido profundo, ótimo! Mas se for caridade, mas que venha! Nós precisamos estar vivos prá fazer a luta.

Não estou falando de micropolítica. Esta palavra me incomoda muito. É igual ecologia sem luta com o Capitalismo. Ecologia sem luta com o Capitalismo é jardinagem.

Nós indígenas não somos ecologistas. Nós somos lutadores pela defesa do território originário. Nós temos essa cor porque nós somos a terra, nós somos o território.

Cabe a nós fazer a militância. Temos que ter o orgulho de militar. Já existe um outro mundo sendo construído. As autonomias já existem.

Eu sou professor de uma universidade estadual. E dou aulas numa universidade federal. Na federal eu não ganho salário. Me convidaram prá dar aula de mestrado. É para abrir vaga prá índio, prá quilombola, prá LGBT, prá trans? Então pode colocar o meu nome. Dou aula sem ganhar um dinheiro. Isso é militância!

O direito ao território não é Reforma Agrária. Nós não queremos ser uma unidade produtiva. Nós não queremos tornar o índio um micro-empreendedor.

Tem indígena que luta pelo agrotóxico. Tem índio bolsonarista. O Vice-Presidente da República do Brasil, o Mourão, ele se auto-declarou indígena. É índio? É índio. Mas é meu aliado? De forma alguma!

Ele está usando um direito sagrado ao território como unidade produtiva capitalista. Ele foi cooptado.

Onde tem índio, onde tem quilombola, onde tem povo da terra, onde tem ribeirinha, onde tem marisqueira, onde tem pescador, tem natureza preservada.

Porque a nossa produção é artesanal. Porque a nossa produção é de respeito à natureza. Porque trata-se de defender aquilo que nós somos. E assumimos que somos. Os Encantados, a Encantaria.

Bahia terra de coco e azeite de dendê
a água do coco é doce, eu também quero beber
Vamo dançar, balançar o catimbó
Vou pegar o Bolsonaro e amarrar lá no cipó

Quando a gente canta, a gente canta falando da natureza. E o nosso canto é um canto de resistência, dentro da natureza como um chão.

O problema não é ser indígena ou não. O problema é quando você tem uma relação originária com o território. É óbvio que o Estado e o Capital não vai te querer. Cabe a nós fortalecer a nós mesmos.

Eu não vou esquecer de Kátia Abreu no governo, como Ministra da Agricultura. Eu não posso esquecer de Belo Monte. Eu não posso esquecer do PAC.

Você vê a entrevista do principal candidato dessas esquerdas, ele se jogando nos braços da dona do Magazine Luiza. Ele quer que ela seja candidata a vice. Então eles estão repactuando de novo com a Direita, com os ruralistas, com os setores mais conservadores.

Aí prá manter o governo eles vão ter que dar a moeda de troca. E qual a moeda de troca? É não demarcar território.

Tem um Deputado do Rio de Janeiro, de um partido mais a Esquerda, dizendo vamos já direto fazer uma aliança de centro-esquerda.

Estão pactuando com os mesmos setores que não demarcaram o território Tupinambá, por exemplo. Quando se coloca uma Kátia Abreu no Ministério da Agricultura, morre índio!

Ao invés de aprender com o tomo que tomaram e repactuar com nós, dos movimentos populares, vão repactuar lá em cima.

Na nossa forma de ser naturalmente a não existência do Estado já é fato. O Estado é sempre o capataz.

Excludente de ilicitude não é novidade prá gente. A coroa portuguesa declarou guerra justa aos povos que não aceitavam a conversão ao Cristianismo. Isso é excludente de ilicitude. Já existe há 521 anos.

Miliciano? O que é o miliciano? O que é o bandeirante? O que é o capitão do mato? Eles são os milicianos!

Por isto que não se trata de tomar poder, de empoderamento, de apoderamento. Oxê… Trata-se da luta cotidiana fortalecendo outras possibilidades de autonomia, de construir esses outros mundos possíveis.

Pelos estudos historiográficos acadêmicos desde o século XVI não existia mais Tupinambás, que haviam sido exterminados.

E olha nós aqui!

vamos todos nessa marcha prá lembrar o que passou
nosso antepassado que seu sangue derramou
ou devolvam nossas terras, que essas terras nos pertence
pois mataram ensanguentados os nossos pobres parentes
o manto aqui da aldeia é de pena de guará
meu colar é de semente, meu cocar macucuá

vídeo:


sobre Caminhar para a Autonomia:

  • aborda casos concretos de comunidades e territórios com lutas e experiências em seu processo de conquistar autonomias;
  • um passo além dos Diários da Pandemia, até mesmo porque muito embora a pandemia prossiga é impositivo florescer territórios para além dela;
  • envolve também um diálogo com o livro “Por Terra e Território: os Caminhos da Revolução dos Povos no Brasil”, com as caminhadas que este propõe, para divulgar não só situações já existentes como aquelas que surjam a partir de sua leitura.

acesse a série completa: aqui


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