No extremo sul da Bahia, na Terra Indígena Comexatibá, território que teve sua portaria declaratória expedida pelo Ministério da Justiça em novembro de 2025, o povo Pataxó segue sob fogo cruzado. O fogo dos fuzis das milícias rurais, a desinformação e a perseguição dos órgãos de repressão do Estado.
No dia 24 de fevereiro, doze indígenas – incluindo quatro menores de idade – foram arrancados de sua retomada na Barra do Cahy pela Força Integrada de Segurança – composta por Polícia Militar, Polícia Civil, Polícia Federal e também pela Força Nacional de Segurança Pública (FNSP) e levados para prestar depoimento. Enquanto aguardavam em uma sala gelada, sem camisa e sob condições desumanas, um adolescente de apenas 14 anos era torturado psicologicamente, ameaçado com armas e facas para que confessasse um crime que não cometeu e para que incriminasse lideranças de seu povo. O crime deles é lutar pelo seu território.
Naquele mesmo dia, ocorreu o crime pelo qual foram injustamente acusados: turistas foram alvejadas na região. Imediatamente, a máquina de ódio do grupo miliciano “Invasão Zero” – braço armado e midiático do latifúndio – deflagrou uma campanha para vincular os Pataxó aos disparos, ignorando a geografia, ignorando os fatos, ignorando que os verdadeiros invasores são aqueles que há séculos roubam suas terras. Enquanto isso, na calada da noite, tiros eram disparados contra a retomada, contra mulheres e crianças que ali permaneciam.
Essa violência injustificável é a reação dos que foram beneficiados pelo roubo. É o mesmo dinheiro maldito do agronegócio que financia as agromilícias, as mesmas que, nos últimos anos, ceifaram as vidas de Samuel, Nawir, Gustavo e Vitor, e que em janeiro de 2024 vitimaram nossa querida pajé Nega Pataxó. É o mesmo ódio que hoje tenta calar as lideranças que ousam retomar o que lhes foi tomado.
Não aceitaremos nenhum retrocesso. A morosidade na demarcação é a mãe da violência. A TI Barra Velha do Monte Pascoal espera há 18 anos desde que foi declarada como terra indígena. A TI Comexatibá acaba de ser declarada, após anos de espera, e quem sabe quantos anos mais levará para que seja demarcada. As retomadas e a autodemarcação são a resposta legítima de um povo que nunca se desvinculou de seu território originário e que não aguardará de braços cruzados pela justiça que é cega e lenta.
Cobramos das autoridades o fim da perseguição às lideranças Pataxó. Exigimos:a imediata anulação da prisão preventiva do cacique Mandy Pataxó; a imediata anulação da prisão domiciliar e das medidas cautelares contra os demais acusados; a conclusão definitiva das demarcações, a retirada imediata de todos os invasores e a investigação rigorosa dos grupos que articulam a violência, a tortura e a desinformação contra os povos indígenas. Que os agentes e órgãos do Estado responsáveis respondam pelas condições desumanas e pela tortura contra o adolescente Pataxó.
Enquanto o governo comemora recordes do Plano Safra, destinando R$ 400 bilhões ao latifúndio que nos ataca, seguimos em pé. Enquanto as big techs e os políticos regionais se aliam para nos criminalizar, seguimos em luta. Porque a espiritualidade que nos move está a serviço da terra. Como os antigos profetas karaíba, como os rezadores guarani, como a Confederação dos Tamoios e a Revolta dos Malês, seguimos peregrinando de aldeia em aldeia, de território em território, fortalecendo nossa articulação.
A violência contra o povo Pataxó é a violência contra todos nós. O que acontece no extremo sul da Bahia é o ensaio do que o fascismo quer para o Brasil: a terra sem seus povos originais, o silêncio dos que resistem, o lucro regado a sangue.
Em solidariedade ao Povo Pataxó.
Em memória de Nêga Pataxó, Samuel, Nawir, Gustavo, Vitor
e de todos os mártires que tombaram na luta pela terra.
A luta continua, e a vitória é certa!
