O preço do cacau no sul da Bahia chegou a R$ 240 a arroba, o que significa cerca de R$ 16
por quilo. O chocolate está quase 25% (24,77%) mais caro em comparação com o ano
passado. Para quem vive da terra, esse valor não representa apenas um número de
mercado — representa a desvalorização de um trabalho que começa no plantio e só termina
quando a amêndoa está ensacada e pronta para seguir viagem. Plantar, adubar, podar,
colher, quebrar a cabaça, fermentar, secar e transportar: todo esse processo não alcança
sequer 6% do valor final de um chocolate 100% cacau vendido a R$ 269 o quilo.
A contradição é evidente: se o cacau está barato, por que o chocolate continua caro? A
resposta não está apenas na oscilação da bolsa ou na importação do cacau africano. Está na
estrutura da cadeia produtiva e em quem controla suas etapas mais lucrativas.
Durante o beneficiamento, há perda de 25% a 35% do peso da amêndoa na torra e na
moagem. No entanto, essa perda é compensada na indústria com a adição de açúcar e
outros ingredientes de baixo custo, especialmente nos chocolates com 70% ou menos de
cacau. Além disso, o nibs — que é composto por aproximadamente 50% de pó e 50% de
manteiga — revela onde está a parte mais valiosa do produto. A manteiga de cacau, que
pode ultrapassar R$ 150 o quilo, é frequentemente extraída e vendida separadamente,
enquanto muitas empresas substituem esse componente nobre por gorduras mais baratas
nos produtos industrializados.
É no beneficiamento que se concentra a maior parte do lucro. Enquanto o produtor vende a
amêndoa por R$ 16 o quilo, o mercado comercializa chocolate 85% por valores que chegam
a quase R$ 500 o quilo, destinando ao agricultor porcentagens que variam entre 3% e 8% do
preço final. A desproporção revela que o problema não é apenas o valor pago hoje pela
amêndoa, mas o controle concentrado da cadeia por grandes multinacionais que atuam na
compra, logística, processamento e comercialização.
Empresas como Barry Callebaut, Bunge, Nestlé e Cargill dominam o setor e operam de
forma verticalizada, influenciando preços em diferentes continentes e mantendo os
produtores dependentes da venda da matéria-prima bruta. Assim, mesmo quando há
mobilização contra a importação de cacau, permanece a estrutura que define quanto vale o
nosso trabalho.
Ao controlar diferentes etapas da cadeia produtiva, essas corporações conseguem definir
margens de lucro e pressionar o valor da matéria-prima para baixo, enquanto mantêm o
preço final do chocolate elevado. Assim, mesmo quando o quilo da amêndoa é vendido a
R$ 16, o mercado continua ofertando chocolates a mais de R$ 200 ou até R$ 400 o quilo —
e a maior parte desse valor não retorna ao território onde o cacau foi produzido.
Diante desse cenário, a questão que se impõe é estratégica: continuar vendendo apenas
amêndoa ou avançar no processamento e na agregação de valor dentro dos próprios
territórios? Assim como aprendemos que vender farinha gera mais autonomia do que vender
mandioca, talvez seja hora de fortalecer nossas agroindústrias territoriais e ir do cacau ao
chocolate.
Se somos nós que produzimos o cacau, é preciso disputar também o valor que ele gera. Não
se trata apenas de preço, mas de soberania econômica, organização coletiva e construção
de autonomia nos territórios.
