Posted on: 11 de junho de 2026 Posted by: Teia dos Povos Comments: 0

Cidade do México | Desinformémonos.

“O trabalho nem sempre é visível. E não é só trabalhar a terra. Mais do que isso, o trabalho mais importante não aparece, não é daquele jeito que todo mundo vê que você está trabalhando […]. Trabalhe, mesmo que não te vejam. Lute, mesmo que ninguém esteja contabilizando”, disse o Subcomandante Moisés, do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN), conforme lembrou o Capitão Marcos em um novo comunicado.

Entre os temas do texto zapatista, que compõem a sexta parte da narrativa “Um trator em Comum e o caso do Periquito Louco”, o Capitão Marcos inclui diferentes episódios sobre as mulheres nos territórios autônomos, evoca o subcomandante Pedro (que morreu nos primeiros dias de janeiro de 1994 após ser ferido a bala) e relembra o caso da mulher tseltal Petrona, que foi presa por matar o marido quando ele tentou agredi-la, e posteriormente libertada ao ser comprovada a legítima defesa.

A seguir, o comunicado completo:

Sofremos como mulhereshomensmulhereshomens… que somos (pois é).

(7 imagens dispersas)

A parte privada.

Há um curso de plantas medicinais. A maioria dos alunos são mulheres, embora não faltem homens (poucos). No intervalo, como são maioria, as mulheres é que ditam o assunto da conversa, e o seu foco. Agora estão checando “as notícias” que mandam de suas comunidades. Nos Altos de Chiapas, uma mulher indígena, companheira de partido, foi presa por ter matado o marido. “Ela vai sair”, diz uma companheira, “porque foi em legítima defesa”. Como existem diferentes línguas, o espanhol é o idioma ponte entre elas. “Sim”, diz outra, “os coletivos de mulheres cidadãs apoiaram ela”. Uma outra detalha o ocorrido: “ela sofria maus-tratos do marido, ele batia muito nela e a insultava, de um jeito que não dá pra acreditar. E a mulher aguentava, não dizia nada. Um dia ela segue o marido até onde ele vai, e descobre que ele tem outra mulher e que com ela fica bêbado. A companheira decide largar ele de uma vez. O maldito marido volta pra casa todo bêbado, mal conseguindo ficar em pé. Quer bater nela, mas a companheira se defende e corta o ‘yat’ dele de uma vez, e ele morre sangrando.”

O ambiente é festivo, como de “como mulheres que somos”; não há pena ou dó do morto. A companheira usou a língua materna para se referir ao local onde ele foi ferido. Todas riem, cúmplices. Um jovem homem, de outra língua de raiz maia, pergunta o que significa esse tal de “yat”. Todas ficam coradas e sorriem. Uma delas: “é assim que se diz na minha língua a parte privada dos homens. O ‘como-é-que-se-chama’, como diz o Capitão”. “O pênis, pois, com os testículos, ou seja, ela cortou tudo de uma vez”, esclarece a mais velha, que defende o uso de nomes científicos. O jovem, pálido, pergunta: “Como se chama a cidade? Para não procurar minha mulher lá”. Outra companheira diz, pegando no celular: “já vou ligar pro meu marido, olha, ele não me atende, já sabe o que pode acontecer com ele”. Riem.

De volta ao quartel (o jovem é insurgente), ele comenta com a insurgente que o acompanha: “Urrr, essa companheira não tem pena alguma. Claro que ela disse sobre essa parte que cortaram do pobre homem”. A insurgente se irrita: “Por que ‘pobre’? Se ele bem que batia na mulher dele e uma vez quase a matou. Eu acho que ela até demorou”.

No dia seguinte, ainda na língua materna, as outras mulheres chamam a atenção da companheira que usou o nome “da parte privada” dos homens. Dizem a ela para não falar assim na frente dos homens. Começam a discutir: se precisam se separar para falar como mulheres que somos, se precisam se esconder. No final, concluem que sim, que se fale com liberdade, havendo ou não homens presentes. “Melhor ainda com homens”, diz uma, “assim eles vão aprendendo”. “Ou pelo menos andam com cuidado nas suas besteiras”, completa outra.

O tema daquele dia foi “Plantas medicinais para cólica menstrual”. O jovem homem anotou detalhadamente toda a aula.

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A lenha.

Um dos homens se queixa, na frente só de homens, de que a mulher dele pede “lenha maciça”. “Fiquei puto”, diz, “já disse que é isso que tem e que ela se aguente”. “Mas que lenha é essa que você leva?”, perguntam a ele. Há uma série de traduções em até 5 línguas maias antes de chegar ao espanhol: é a que chamam de “cortiça” ou “madeira balsa”.

Outro dos homens intervém: “Bom, sem te ofender, companheiro, mas você é bem idiota e a companheira tem razão. Porque essa madeira solta muita fumaça e a pobre mulher não demora a ficar doente dos pulmões, além de não conseguir nem enxergar por causa da fumaça. Se ela tiver um bebê, pior ainda para o bebê. Não seja molengão e vá procurar a lenha que ela te disse. É pro bem dela, e pro seu bem porque vocês não vão gastar com remédio depois. E pro bem de todos nós porque assim não vamos ter que ouvir suas besteiras. Sem te ofender, companheiro”.

Um silêncio sepulcral dá por encerrada a reunião do “como machinhos que somos”. O SubMoy chama eles para ver a medição dos terrenos.

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A dança.

Uma jovem machuca a mão com o facão, quando estava roçando. Não quer dizer nada porque tem vergonha que saibam que ela mesma se feriu. Ela amarra o lenço para estancar o sangramento, mas sua companheira de “linha” (elas se posicionaram “em linha dispersa” para roçar um emaranhado de mato) percebe e avisa ao Comitê que é sua guardiã.

Rapidamente conseguem um carro para levar a companheira ao serviço de saúde do povoado próximo. Chegam: sinais vitais, a deitam, monitoram. O promotor de saúde luta para desamarrar o lenço. “Ora, como você amarrou isso, companheira? Está bem apertado”. Está prestes a recorrer à tesoura, quando a promotora de saúde intervém e, pá!, num movimento ela o desata. Depois, limpeza, desinfecção, um pouco de anestésico local, e costurar. “Colocamos 4 pontos. Ela vai ficar bem, só não pode usar essa mão por uns dias”, sentencia o promotor. “Mas posso dançar?”, pergunta a paciente. O promotor não diz nada, apenas balança a cabeça e faz uma cara de “agora é que não dá pra acreditar”. A promotora de saúde pergunta à paciente: “Quando vai ter dança?” e as duas começam a cochichar na língua materna. Só se entende “promotor”, “miliciano”, “insurgente”. O promotor de saúde guarda os equipamentos.

Mostraram o vídeo ao Capitão. Ele só comentou: “Bom, deram uns pontos estilo Frankenstein – Foda, mas ela vai ter uma cicatriz para exibir… e ameaçar”. Depois disse à companheira ferida: “Você diz que brigou com um filho da puta que queria te pegar à força, sacaram os facões e rolou a briga. Você saiu com esse ferimento na mão, mas o machinho não é mais machinho e nunca mais vai ter filhos”. O Capitão fica pensando, avaliando o impacto da história, e depois acrescenta: “mas não conta pra todo mundo, porque se você contar pro rapaz de quem você gosta… como é que eu vou dizer… ele vai correr como nunca na vida dele”.

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Os espinhos.

“Olhei a companheira que está mancando, ela anda como se estivesse manca. Perguntei logo e ela disse que foi um espinho”, informa o Monarca. O comandante: “Mas ela foi ao posto de saúde?” “Não, que os próprios companheiros tiraram ali mesmo”. “Vai e leva você pessoalmente ao posto de saúde e manda examinarem ela. E diz a ela para não andar de chinelo na roçada”. O Monarca volta para informar: “Que tinham tirado um espinho sim, mas deixaram outro, ou seja, ela tinha dois espinhos. Já tiraram e fizeram curativo. E que ela estava de bota de borracha, mas esse espinho é muito bravo. Eu mesmo conheço, é assim, grande (o Monarca faz o sinal de um palmo, uns 20-25 centímetros de comprimento), atravessa até a bota que usamos, é como um prego, sangra, e se infeccionar, bem, aí você já era”. “E como está a companheira?” “Está um pouco triste, porque não vai poder dançar cumbias”.

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A Matemática e o amor.

Checam as medidas no plano. “Já tem uma boa parte, limpa, sem raízes, nem espinhos, nem vespas. Acho que já temos que ver quantos terrenos cabem em cada lado, para ir marcando”. O SubMoy decreta: “bom, chama os jovens do ensino fundamental para fazerem as contas”. Chegam os promotores de educação. Explicam a eles. Os jovens: “mas precisamos de calculadora”. Caçoam deles. “Ou caderno”. Mais caçoadas. “Na cabeça”, dizem a eles, “senão estudaram à toa”. Dão a eles uma caneta. Eles tentam fazer as contas na mão, mas as têm cheias de bolhas. As risadas são ouvidas até na cidade vizinha. Uma jovem, sorrindo com fingimento e ignorando todos os outros, se aproxima e diz a um dos promotores de educação: “meu celular tem calculadora”. “Traga então”, dizem a ela os comitês. A jovem sai correndo e volta com o celular. Todas as mãos dos Comitês ficam estendidas no ar. Como se não houvesse mais ninguém, ela entrega o celular ao promotor, que parece um semáforo porque todas as cores iluminam o rosto dele. A jovem só diz “depois você me devolve” e, com um brilho no olhar, acrescenta “lá estão minhas fotos”. O pobre promotor de educação, os Comitês disseram de tudo pra ele, acho que até o aconselharam. Claro que ele fez os cálculos errados. Fazer o quê, afinal sofremos como homens que somos.

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O pedaço faltante.

Apesar do sol feroz e implacável, as tardes e noites agora se refrescam com a chuva. Como se o céu se fizesse cúmplice da terra e lhe desse forças para suportar o calor do dia seguinte, aqui… no trabalho em comum.

No pátio onde se amontoam lonas e barracas dispersas, dorme-se ou vela-se, mas não em silêncio. Escuta-se música saindo de várias casinhas e lonas adaptadas como tetos para proteger um pouco do sol durante o dia, e da chuva à noite. Os guardas se revezam com apenas alguns sinais. E sorriem ao ouvir a “playlist” que se choca com a teimosa persistência dos grilos e, pouco a pouco, dos sapos e rãs que as primeiras poças convocam.

Sob o teto, os mais velhos, os sensatos, roncam sem cerimônia alguma. As crianças se aconchegam ao corpo das mães e irmãs. Algum bebê chora apenas alguns segundos graças ao consolo rápido das mãezinhas.

Mas nos tetos das jovens e dos jovens, não há silêncio nem se dorme. A lembrança de quem falta é culpada. Alguém, uma luz corpórea – mulher, homem ou outroa – está longe daqui. Esse alguém ficou em alguma cidade, numa barraca, com um pedaço de quem o/a lembra e padece de um coração incompleto, um olhar sem destino, uma palavra truncada sussurrada. Cada canção, de amor – ou desamor – que os celulares e caixinhas bluetooth reproduzem, cada tentativa, vã, de pegar no sono, é uma pequena homenagem à parte faltante, ao seu carinho ausente e à ferida que o amor ou o desamor festejam.

Porque há abraços que nunca terminam e há luzes que nem de noite se apagam.

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O que não se vê.

Uma menininha, de uns 12 anos, conversa com o SubMoy:

“Você está trabalhando aqui conosco”, diz ela.

“Estou”, diz o SubMoy.

“Eu tinha entendido que os Subs não trabalham”, insiste a menina.

O SubMoy: “O trabalho nem sempre é visível. E não é só trabalhar a terra. Mais do que isso, o trabalho mais importante não aparece, não é daquele jeito que todo mundo vê que você está trabalhando. Então, se você não vê alguém ao seu lado trabalhando, não quer dizer que ela não trabalhe ou que não tenha trabalhado. Só que você não vê, mas você vê e sente o trabalho dela, mesmo que ninguém esteja contabilizando. Conheceu o SubPedro? Conheceu, não é? Bom, se recuperamos a terra, se estamos aqui, se você está aqui, se agora lutamos pela vida, é porque ele fez o trabalho dele, que é lutar pelos povos. Trabalhe, mesmo que não te vejam. Lute, mesmo que ninguém esteja contabilizando”.

(Continua…)

Das montanhas do Sudeste Mexicano.

Originalmente publicado em: https://desinformemonos.org/lucha-aunque-nadie-te-lleve-la-cuenta-ezln/

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