por Grain.
Originalmente publicado em: https://grain.org/e/7415
Embora o mercado chinês de sementes tenha atingido a impressionante soma de 19,1 bilhões de dólares americanos, há mais de vinte anos o gigante asiático é um importador líquido de grãos, dependendo principalmente dos EUA, Austrália, Ucrânia e Brasil. Apenas 2% das empresas chinesas de sementes possuem a infraestrutura necessária para o desenvolvimento de variedades, a produção e a comercialização de sementes.12 As dez principais empresas de sementes da China detêm uma participação de mercado de apenas 13,8%. Essa limitada capacidade de desenvolvimento varietal foi identificada pelas autoridades como um gargalo na estratégia de segurança alimentar do país.
Em 2021 – ainda antes de a guerra da Ucrânia e a guerra comercial declarada por Trump evidenciarem ainda mais a vulnerabilidade do país em relação às sementes – o governo chinês lançou o “Plano de Ação de Revitalização da Indústria de Sementes”, instituindo as sementes como os microchips da agricultura.
Diante do constante recrudescimento das tensões geopolíticas, a China tem urgência em reestruturar seu setor de sementes para emular o modelo de seus rivais e reduzir drasticamente sua dependência das importações. A menos de cinco anos desde o início do plano nacional de sementes, aponta-se que o rápido crescimento do setor elevou a taxa de autossuficiência na produção de sementes comerciais de hortaliças para 75%.3
Essa mudança está atraindo grandes capitais e infraestrutura para expandir o alcance nacional e internacional das empresas de sementes da China por meio de uma estratégia em duas frentes. Na frente tecnológica, a China aposta no desenvolvimento acelerado de sementes transgênicas, na edição gênica e no desenvolvimento de variedades impulsionado por inteligência artificial para aumentar a produção nacional de grãos. Simultaneamente, busca expandir os mercados de sementes no exterior, para que os grãos e cultivos importados pela China sejam produzidos a partir de sementes desenvolvidas na China, criando, desta maneira, uma cadeia de suprimentos de circuito fechado que fortalece seu controle sobre o abastecimento alimentar.4
Desenvolvimento de sementes com respaldo estatal
Com o objetivo de desenvolver uma indústria de sementes centrada na biotecnologia, o governo chinês implementou diversas medidas: desde instalações nacionais de pesquisa compartilhadas até o uso prioritário de terras para a produção de sementes e o acesso rápido ao germoplasma para as empresas. Em vez de oferecer o mesmo apoio às milhares de empresas locais de sementes já existentes, o Estado optou por ajudar algumas poucas para consolidar o setor sementeiro, criando um novo modelo no fornecimento e controle do material para o desenvolvimento de variedades.
O Ministério da Agricultura e Assuntos Rurais selecionou 69 empresas nacionais ideais e criou um “time nacional de sementes agrícolas”, garantindo-lhes acesso privilegiado a capital e a outros recursos. A arquitetura central deste novo programa é em grande parte definida por uma série de gigantescas indústrias estatais de sementes: CITIC-Longping, Sinochem-Syngenta e State Development and Investment Corporation (SDIC), uma empresa estatal de investimento de capital.5
Entre elas, nove subsidiárias da CITIC, lideradas pela Longping, foram designadas como empresas-modelo, enquanto o Grupo Estatal para o Desenvolvimento de Tecnologia em Sementes, de propriedade da SDIC, obteve sete posições na lista. Em conjunto, essas empresas possuem agora mais de cem patentes de tecnologias de desenvolvimento genético por meio de biotecnologia.
Essa maior associação entre instituições públicas e empresas tecnológicas de sementes reflete uma importante reconfiguração da estrutura financeira que é o suporte do futuro agrícola da China. Em dezembro de 2024, a Longping Hi-Tech transferiu uma participação de cerca de 11% na Longping Biotechnology, uma subsidiária localizada em Hainan especializada no desenvolvimento de cultivos geneticamente modificados, para o Fundo Central de Investimento em Empresas Rurais, o qual é administrado pela SDIC, com um valor de 53 milhões de dólares. Essa transação aumentou a participação da SDIC para quase 45%6. Mediante a aquisição de participação estratégica nas principais empresas de sementes, como a Guofeng Biotechnology e a Dabeinong, bem como por ter adquirido o controle da Fengle Seed Industry – a primeira empresa de sementes a abrir capital no país – esses investidores apoiados pelo Estado ampliaram sua influência sobre o setor de biotecnologia em sementes em um prazo de poucos anos.
A pecuária e a aquicultura sob o modelo das sementes
O ministério da agricultura e assuntos rurais copiou a estratégia de estabelecer “times nacionais” para o setor da pecuária e da aquicultura. Assim como ocorreu com as sementes agrícolas, o governo supervisionou a criação de um consórcio de conglomerados para consolidar o controle: 86 empresas foram selecionadas para o registro nacional da indústria de desenvolvimento de raças de gado e aves, incluindo gigantes como Food Group de Wen e Foshan Gaoming District Xinguang Agriculture. Ao mesmo tempo, 121 empresas foram selecionadas para a indústria de melhoramento aquícola, como Aquatic Seed Industry de Guangdong Liang, Guandong Haid, Hainan Chenhai Aquatic e Ningbo Xiangshang Habour Aquaculture and Breeding.7
Os resultados dessa consolidação estão começando a transformar o perfil importador da China. Até o final de junho de 2024, os frangos de corte de plumagem branca criados no país haviam alcançado mais de 25% do mercado nacional, substituindo gradualmente as raças importadas dos EUA e permitindo uma transição sustentada da dependência de material genético estrangeiro para um sistema de fornecimento dirigido pelo Estado. As raças de frango de corte chinesas criadas no país estão agora chegando aos mercados internacionais, com exportações para países como Tanzânia e Paquistão. 8
Alinhados com a UPOV 91
Em paralelo com a consolidação da indústria, a China introduziu recentemente um marco legal mais rigoroso para proteger os direitos dos melhoristas genéticos comerciais. Em dezembro de 2021, a emenda à lei de sementes incorporou formalmente uma gama maior de proteções de variedades vegetais alinhadas com a UPOV 91, o que foi chamado de sistema de Variedades Essencialmente Derivadas (VED). O sistema VED impede que qualquer nova variedade de semente que seja considerada como herdando a maioria de seus genes a partir de uma variedade protegida seja distribuída livremente sem a autorização do proprietário da variedade protegida inicial. Isso permite que as empresas continuem monopolizando e obtendo lucros de um maior número de variedades resultantes do desenvolvimento genético e potencialmente impede que as camponesas e os camponeses desenvolvam novas variedades de sementes. Em abril de 2025, essa medida foi seguida por um conjunto de regulamentações como parte da Proteção das Obtenções Vegetais, a primeira reforma abrangente desde 2014, a qual se alinha explicitamente com a nova lei de sementes (sistema VED).9
Em outubro de 2025, a delegação chinesa institucionalizou com sucesso o uso do idioma chinês na reunião anual da UPOV em Genebra.10 Esta convergência em andamento reflete a profunda integração da China ao regime da UPOV, impulsionando uma implementação mais forte dos direitos de propriedade intelectual das sementes como parte da reforma da indústria do setor no país. A maior severidade da lei de sementes e das regulamentações sobre proteção de variedades transfere efetivamente o controle das sementes das comunidades camponesas para os conselhos corporativos, dominados por empresas como SDIC e Longping.
Mais germoplasma para o desenvolvimento genético comercial
O próximo pilar fundamental para a China no desenvolvimento da indústria de sementes impulsionada pela biotecnologia é fortalecer o fornecimento de germoplasma para o desenvolvimento comercial de variedades. Com o lançamento do Plano de Ação para a Revitalização, em 2021, o Ministério da Agricultura e dos Assuntos Rurais iniciou um amplo censo nacional dos recursos genéticos agrícolas. Esse processo, realizado ao longo de três anos, mobilizou 625 mil pessoas nas aldeias para coletar mais de 530 mil novas amostras de germoplasma. Trezentas e trinta circunscrições foram incluídas pela primeira vez nos registros do levantamento nacional de germoplasma e, o que é mais importante, 87,5% do germoplasma coletado era proveniente de variedades locais cultivadas por gerações pelas famílias camponesas. 11
Até o momento, mais de meio milhão de amostras de sementes foram coletadas em comunidades camponesas e levadas para um banco nacional de sementes criado recentemente em Pequim, que reúne mais de 2 milhões de amostras de germoplasma. Em parceria com a gigante tecnológica Tencent, está sendo desenvolvida uma base de dados digital de recursos genéticos agrícolas para apoiar e facilitar o acesso dos geneticistas a esse banco de germoplasma e o desenvolvimento genético assistido por inteligência artificial.12 13
Atualmente, cerca de 80% da capacidade de desenvolvimento de variedades do país ainda está nas mãos de instituições de pesquisa científica.
O governo considera isso um obstáculo à renovação do setor de sementes e tem defendido uma parceria mais estreita entre os geneticistas públicos e o setor privado de sementes.14 Algumas das medidas adotadas até agora incluem a reforma do mecanismo governamental de financiamento de pesquisas em colaboração público-privada e a criação de comitês de desenvolvimento de sementes para estabelecer prioridades. Como resultado, as empresas de sementes estão ganhando uma influência sem precedentes sobre a direção dos programas nacionais de desenvolvimento de variedades, processo que é deliberadamente apoiado por mecanismos destinados a facilitar o fluxo de recursos de germoplasma dos institutos públicos para o setor privado. 15
Ao entregar suas sementes para a coleção nacional de germoplasma, as comunidades camponesas esperavam que fossem criadas leis que apoiassem suas práticas de guardar e conservar sementes; no entanto, a realidade tomou outro rumo. Além de ampliar sua coleção de germoplasma, principalmente em benefício das empresas privadas de sementes, as autoridades chinesas também avançaram na comercialização de cultivos transgênicos. Desde 2022, 64 novos milhos transgênicos e 17 variedades de soja transgênica foram aprovados para cultivo em oito províncias, abrangendo mais de 660 mil hectares. Essas novas sementes transgênicas são principalmente cultivos com capacidade inseticida e resistência a herbicidas, semelhantes à primeira geração de cultivos transgênicos que tanto contribuiu para consolidar o uso intensivo de agrotóxicos e outros petroquímicos pela agricultura industrial. Essa expansão dos cultivos geneticamente modificados na China foi impulsionada por mais de 40 empresas autorizadas a comercializar sementes transgênicas, incluindo conglomerados como Dabeinong, Syngenta, Longping e China Seeds.16 17 18
Apesar dos relatórios que apontam que essas novas variedades transgênicas de milho e soja apresentam um rendimento 20% menor, o Estado continua promovendo o uso de sementes transgênicas por meio da concessão de subsídios às agricultoras e aos agricultores que desejam utilizar essas sementes e da criação de estações de demonstração de campo em todo o país. 19 Em Hebei, uma importante província produtora de milho, por exemplo, o governo oferece subsídios no valor de 660 dólares por hectare para quem cultivar soja e milho transgênicos. Como essas corporações têm acesso preferencial garantido aos projetos governamentais e dominam a obtenção de autorizações para sementes transgênicas, as comunidades camponesas encontram-se em uma posição cada vez mais precária. As sementes que elas conservaram agora estão ameaçadas não apenas pelas mudanças nas políticas, mas também pela contaminação genética proveniente dos cultivos transgênicos impostos em suas terras.
O rápido crescimento da indústria chinesa de sementes transgênicas também prejudicou empresas estrangeiras do setor. Em 2023, a KWS Saat, importante produtora alemã de sementes, anunciou a venda de seu negócio de milho na China, apontando seus temores de que a flexibilização das regulamentações sobre transgênicos pudesse tornar não competitivas as características convencionais de suas sementes. A Kenfeng-KWS Seed foi fundada como uma joint venture em 2014, quando a KWS Saat apostava na abertura do mercado chinês de milho para empresas estrangeiras. Com a venda, a KWS Saat ficou em grande medida fora do mercado chinês. A nova empresa criada recebeu o nome de Kenfeng (Beijing) Seed, na qual a estatal Beidahuang Kenfeng Seed Co. passou a deter a maioria das ações, com 51%. Os 49% restantes estão nas mãos do fundo de private equity China Agricultural Reclamation Industry Development Fund.20 21
A busca pelo controle do mercado global
Além de seu interesse pela renovação das sementes domésticas, a China abriga uma ambição mais ampla: expandir sua influência no mercado global de sementes.
Atualmente, a China importa alimentos de todo o mundo, e o país acredita estar ficando para trás em relação às empresas ocidentais na aquisição de germoplasma estrangeiro, que poderia ajudar a desenvolver variedades de cultivos adaptadas às condições de cultivo de diferentes países. Atualmente, as empresas chinesas obtêm apenas 15% de seu germoplasma do exterior, em comparação com 75% de suas concorrentes sediadas nos Estados Unidos. 22
Para agravar ainda mais a situação, o mercado chinês de sementes híbridas vem enfrentando uma grave superprodução, resultado da pressão exercida pelas políticas voltadas para o setor. Em 2025, a relação entre oferta e demanda de sementes híbridas de milho e arroz chegou a 175% e 125%, respectivamente. A velocidade de crescimento da oferta é maior que a da demanda real, criando um ambiente volátil que gradualmente sufoca os pequenos comerciantes de sementes e obriga as empresas a buscar canais de comercialização no exterior para absorver o excedente. 23
A expansão das sementes transgênicas da China
Em abril de 2025, o Uruguai aprovou o cultivo de três variedades de soja transgênica desenvolvidas pela Dabeinong, um conglomerado sediado em Pequim que atua principalmente na produção de ração animal, criação de suínos e sementes. Anteriormente, essas mesmas três variedades haviam sido aprovadas para cultivo na Argentina e no Brasil.24
Na China, a Dabeinong possui a maior coleção de autorizações para produzir e comercializar soja transgênica tolerante a inseticidas e herbicidas. Para reduzir a dependência dos suprimentos de soja dos Estados Unidos, a Dabeinong formou uma joint venture com a comercializadora estatal de grãos COFCO Group, promovendo sementes transgênicas na América Latina entre produtores de soja destinada à exportação para a China. 25
Em 2017, o CITIC Group comprou uma parte do negócio de sementes de milho da Dow AgroSciences no Brasil por 1 bilhão de dólares. No mesmo ano, a Longping comprou uma participação adicional de 36% na operação de milho da Dow no Brasil por 400 milhões de dólares. A expansão continuou em 2023, quando a Longping investiu outros 100 milhões de dólares para ampliar sua presença no Brasil. 26
Para penetrar ainda mais nas redes de distribuição em toda a América Latina, a Morgan, marca de sementes híbridas da Longping, firmou uma parceria com a Lavoro, a maior distribuidora de insumos agrícolas do Brasil. Aproveitando o amplo alcance geográfico da Lavoro, o império de sementes da Longping avançou sobre Argentina, Brasil, Equador, Colômbia e Uruguai. Com o apoio do CITIC AgriFund, em uma década, a Longping se tornou o centro regional da expansão das marcas de sementes chinesas por toda a América Latina, um mercado que costumava ser dominado pelas empresas de sementes dos Estados Unidos e da Alemanha, como Corteva e Bayer.
Hoje, a Longping High-Tech possui participação em 72 empresas que abrangem o mercado nacional e internacional de sementes (ver tabela). 27Sua presença global permite à Longping estabelecer fluxos comerciais sob medida entre diferentes regiões geográficas. Na Tanzânia, por exemplo, a Longping criou uma nova empresa chamada Longping Agriscience Tanzania, que vende sementes de soja, milho e sorgo produzidas no Brasil e especializadas para o mercado tanzaniano. 28Outra subsidiária, a Hunan Longping Hi-Tech Africa Agricultural Development Co., administra em toda a África um negócio de sementes ainda mais amplo, incluindo Madagascar, Nigéria, Zâmbia e Etiópia. 29
Por meio de sua expansão no exterior, a China busca assegurar o controle total de sua cadeia de abastecimento de grãos, ao mesmo tempo em que adquire tecnologia e germoplasma estrangeiros para atender à sua ambição no mercado global de sementes. Em 2025, a Longping havia acumulado mais de 8 mil amostras de germoplasma de milho da América do Norte e da América do Sul. Os lucros da empresa provenientes do mercado de sementes no exterior haviam aumentado para 48%. 30
Claro — aqui está a tabela traduzida e padronizada em português do Brasil:
| Filiais da Longping no exterior | ||
|---|---|---|
| Nome da empresa | País | Principal cultivo |
| Longping India Seed R&D Centre Private Limited | Índia | arroz híbrido, diversos cultivos |
| Longping South Asia Seed R&D Centre | Paquistão | arroz híbrido |
| Longping Philippines (隆平菲律宾研发公司) | Filipinas | arroz híbrido |
| PT. Longping High-Tech Indonesia | Indonésia | arroz híbrido, milho |
| Longping Vietnam R&D Company (隆平越南研发公司) | Vietnã | arroz híbrido |
| Longping High-Tech Seeds LLC | EUA | milho, diversos cultivos |
| Longping Brazil | Brasil | milho, arroz híbrido, diversos cultivos |
| Longping Agriscience Tanzania Ltd. | Tanzânia | milho, soja, sorgo |
O emergente desenvolvimento de sementes assistido por inteligência artificial
Se a Corporação Estatal de Desenvolvimento e Investimento da China cumpre o papel de braço de investimentos e a Longping facilita o acesso aos recursos de germoplasma, a Syngenta vem se posicionando para liderar o desenvolvimento de tecnologias inovadoras de melhoramento genético dentro da agenda de Revitalização das Sementes.
Juntamente com outras grandes empresas, como Corteva, Bayer e BASF, a Syngenta está ampliando o uso de ferramentas de inteligência artificial em seus programas de desenvolvimento de variedades. A empresa formou uma equipe com as empresas de inteligência artificial InstaDeep e Biographica, uma startup criada em 2024, por meio da qual os programas de melhoramento genético da Syngenta estão combinando inteligência artificial e tecnologias CRISPR de edição genética para desenvolver novas variedades vegetais. Em parceria com o Google, a InstaDeep desenvolveu um modelo de linguagem de inteligência artificial chamado AgroNT1, que serve para decodificar os genomas vegetais e prever a regulação dos genes, com o objetivo de acelerar o ciclo de melhoramento genético. Globalmente, gigantes da tecnologia como Google, Meta e Alibaba, assim como a ByteDance (empresa-mãe do TikTok), estão se preparando para desenvolver ferramentas de inteligência artificial e infraestruturas digitais para apoiar o desenvolvimento de sementes por meio da biotecnologia. 31
Os acordos comerciais abrem os mercados de sementes do Sudeste Asiático
Diferentemente da recente expansão da indústria chinesa na América Latina, que é frequentemente dominada por empresas estatais como a COFCO e a Longping, a proximidade geográfica e cultural com o Sudeste Asiático há muito tempo é um fator de atração para os agronegócios chineses de diferentes portes, entrelaçando uma rede de empresas do agronegócio que exportam arroz, frutas, frutos do mar e outros produtos perecíveis para atender à crescente demanda da China.
Com o respaldo de dois projetos considerados estratégicos — a Iniciativa do Cinturão e Rota e o Tratado de Livre Comércio China-Camboja —, o primeiro projeto do Corredor do Peixe e do Arroz foi iniciado em 2025 na província de Kampong Chhnang, no Camboja. Liderado pela Forward Cam International Investment Co., uma subsidiária da Forward Agricultural Investment Co., o projeto está construindo uma moderna zona de cooperação industrial de arroz de 70 hectares na província. Nessa área serão cultivadas sementes de arroz híbrido importadas do sul da China, estabelecendo um modelo de demonstração para uma área maior no entorno do lago Tonlé Sap. A produção de arroz e os produtos pesqueiros locais produzidos pelo projeto do Corredor do Peixe e do Arroz serão exportados para a China por meio de uma cadeia de frio ferroviária que conecta o Sudeste Asiático à província de Yunnan, no sudoeste da China. 32
Como parte da bacia do rio Mekong, o lago Tonlé Sap e as áreas úmidas ao seu redor constituem o maior ecossistema lacustre de água doce do Sudeste Asiático, contribuindo com 60% da produção pesqueira continental do Camboja. As grandes quantidades de produtos químicos utilizadas na produção de arroz híbrido, juntamente com a poluição provocada pela aquicultura industrial, já estão causando preocupação entre as comunidades locais do entorno de Anhchanh Rung, na província de Kampong Chhnang. 33
Em Mianmar, o governo de Guangxi, em parceria com várias empresas de Mianmar e da China, se uniu para criar a Base Sino-Mianmar de Ciências Agrícolas e Demonstração Tecnológica (Guangxi) e a Estação Experimental de Variedades de Cultivos China-Mianmar, em Maypyidaw, com o objetivo de promover variedades de cultivos entre os dois países. A empresa Guangxi Haokay Agricultural Biotechnology Co., uma das principais empresas participantes, introduziu 39 variedades de cultivos de Mianmar em Guangxi para promover programas de melhoramento genético. 34
Para se apropriar do crescente mercado de sementes em todo o Sudeste Asiático, as autoridades chinesas organizaram uma reunião em março de 2025 para acelerar a implementação do Plano de Construção do Silicon Valley das Sementes do Sul da China, em Hainan, a província mais meridional do país.35 Dentro do regime do Porto de Livre Comércio de Hainan, o governo provincial está autorizado a aprovar licenças internacionais para comercialização de sementes por meio de um mecanismo de quarentena de via rápida. Para isso, o Tribunal de Propriedade Intelectual do Porto de Livre Comércio de Hainan possui jurisdição exclusiva sobre disputas relacionadas aos direitos sobre variedades vegetais, alinhando seu marco jurídico à UPOV 91. Até o momento, Hainan possui mais de 2.800 empresas nacionais e internacionais de sementes registradas, em busca de oportunidades no mercado regional; em 2023, essas empresas movimentaram mais de 1,7 bilhão de dólares em negócios. 36
- Judy Cui, “China nurtures indigenous seed industry to reduce import reliance, secure food supply”, SCMP, enero 13 2024: https://www.scmp.com/economy/china-economy/article/3248214/china-nurtures-indigenous-seed-industry-reduce-import-reliance-secure-food-supply ↩︎
- “2024年中国基因编辑育种行业发展现状:国家鼓励发展基因编辑育种,行业商业化进程不断加速”, abril 8 2024: https://www.chyxx.com/industry/1180521.html ↩︎
- Mandy Zuo, “China sows seeds of self-reliance with ‘historic breakthrough’ in agricultural autonomy”, SCMP, agosto 14 2024: https://www.scmp.com/economy/economic-indicators/article/3274457/china-sows-seeds-self-reliance-historic-breakthrough-agricultural-autonomy ↩︎
- Orange Wang, “China food security: Beijing moves to ‘revitalise’ seed industry as coronavirus, geopolitical tensions ramp up supply fears”, SCMP, abril 26 2022: https://www.scmp.com/economy/china-economy/article/3175459/china-food-security-beijing-moves-revitalise-seed-industry ↩︎
- “农业农村部办公厅关于扶持国家种业阵型企业发展的通知”, MoA, julio 21 2022: https://www.moa.gov.cn/govpublic/nybzzj1/202208/t20220810_6406693.htm ↩︎
- 谢小丹, “隆平高科出售子公司股权予央企基金,“国家队”持续加码生物育种”, Jie Mian News, enero 2 2024: https://www.jiemian.com/article/10621317.html ↩︎
- Riccardo Ghia, “China’s agritech investment moves from outbound mega-deals to homegrown innovation”, septiembre 13 2023: https://www.linkedin.com/pulse/chinas-agritech-investment-moves-from-outbound-riccardo-ghia-%E9%AB%98%E7%91%9E%E5%85%8B/ ↩︎
- “International Food Exhibition | China’s Homebred White-Feather Broiler Breeds Achieve Major Breakthrough with Growing Market Share”, mayo 25 2025: https://www.sialchina.com/media/industrynews/2026-06-11/3986 ↩︎
- “海南自由贸易港法律法规及政策解读——农业“芯片”植物新品种的政策与保护”, King & Wood Law firm, marzo 27 2024: https://www.kingandwood.com/cn/zh/insights/latest-thinking/hainan-ftp-relevant-policies-on-plant-variety-rights-protection.html ↩︎
- “China passed revised Regulations on the protection of New Plant Varieties and recent cases updates on test method”, CMS Law, noviembre 12 2025: https://cms.law/en/chn/legal-updates/china-passed-revised-regulations-on-the-protection-of-new-plant-varieties-and-recent-cases-updates-on-test-method#utm_campaign=redirect_law-now” ↩︎
- “一粒种子如何获得“身份证”?如何成为“国家队”的一员?记者探访“种子银行”, CCTV News, enero 28 2024: https://content-static.cctvnews.cctv.com/snow-book/index.html? ↩︎
- “走进种子诺亚方舟”, julio 11 2025: https://mp.weixin.qq.com/s/v4BdKUBpgFrSTgMPGSb4yQ ↩︎
- 郭丽琴, “AI如何变革中国作物育种”, Caijing, julio 11 2023: https://www.mycaijing.com/article/detail/496789 ↩︎
- 郁靜嫻, “人民日報關注湖南:政策精准幫扶,激發種業發展活力”, People’s Daily, enero 21 2022: http://hn.people.com.cn/BIG5/n2/2022/0121/c208814-35105959.html ↩︎
- CM Tay, “China must bridge regulatory gap to unlock new breeding technology market potential”, AgNavigator, enero 27 2026: https://www.agnavigator.com/Article/2026/01/27/china-must-bridge-regulatory-gap-to-unlock-new-breeding-technology-market-potential/ ↩︎
- “Recap of the 2025 China Seed Congress”, Nieuwsbericht, enero 5 2025: https://www.agroberichtenbuitenland.nl/actueel/nieuws/2025/05/01/2025-china-seed-congress—nanfan-seed-silicon-valley-forum ↩︎
- “大北农、中种集团等企业领跑生物育种产业化,触角已伸至海外”, AgroPages, enero 15 2025: https://cn.agropages.com/News/printnew-33850.htm ↩︎
- “China moves closer to commercial planting of GMO corn, soybeans”, Reuters, octubre 19 2023: https://www.reuters.com/article/markets/commodities/china-moves-closer-to-commercial-planting-of-gmo-corn-soybeans-idUSL4N3BP1VF/ ↩︎
- “China accelerates adoption of GM crops to strengthen food security”, UKr Agro Consult, febrero 6 2026: https://ukragroconsult.com/en/news/china-accelerates-adoption-of-gm-crops-to-strengthen-food-security/ ↩︎
- “超1亿美元!种业巨头再次剥离玉米业务”, 农财网, julio 6 2025: https://mp.weixin.qq.com/s/Zlgk087mt_PV_43G61KQQw ↩︎
- “KWS Saat to sell China corn business as GMO rules overhauled”, Reuters, octubre 31 2023: https://www.reuters.com/markets/deals/kws-saat-sell-china-corn-business-gmo-rules-overhauled-2023-10-31/ ↩︎
- 乔金亮 吉蕾蕾,“种业问题调查”, Economic Daily, abril 12 2022: http://paper.ce.cn/pc/content/202204/12/content_252083.html ↩︎
- “种业“内卷”时代,如何应对?”, 农财网, abril 10 2025: https://mp.weixin.qq.com/s/PGhIagjh4GIeqFxSM_N2MA ↩︎
- “Dabeinong says biotech unit’s GM soybean products approved by Uruguay for planting”, Reuters, abril 3 2025: https://www.reuters.com/markets/commodities/dabeinong-says-biotech-units-gm-soybean-products-approved-by-uruguay-planting-2025-04-03/ ↩︎
- “大北农"种出豆进"战略在巴西、阿根廷、乌拉圭已进入执行阶段”, Eastmoney.com, abril 12 2025: https://caifuhao.eastmoney.com/news/1539097445 ↩︎
- “LongPing High-Tech Agriculture investing US$100 million in Brazil”, the Macao News, diciembre 22 2023: https://macaonews.org/news/lusofonia/longping-high-tech-agriculture-investing-us100-million-in-brazil/ ↩︎
- “募资约11.88亿元!隆平高科5月14日定增上市”, 农财网, mayo 13 2025: https://mp.weixin.qq.com/s/cYsNUTFd5Kr3_q0G6UAEOw ↩︎
- Valentine Oforo, “Longping Agriscience to fill the 60,000 tons seeds”, Tanzania Times, julio 31 2025: https://tanzaniatimes.net/longping-agriscience-to-fill-the-60000-tons-annual-seeds-vacuum-in-tanzania/ ↩︎
- “中非“湘”约企业行 隆平高科, 非洲朋友给你点了个赞”, 华声在线, mayo 21 2019: https://hunan.voc.com.cn/news/201905/25264397.html ↩︎
- “Longping Hi Tech annual report 2025”: https://static.cninfo.com.cn/finalpage/2026-04-18/1225122138.PDF ↩︎
- “Syngenta and InstaDeep Team Up to Boost Crop Seed Trait Research with AI Language Models”, Krishi Jagran, junio 26 2024: https://krishijagran.com/industry-news/syngenta-and-instadeep-team-up-to-boost-crop-seed-trait-research-with-ai-language-models/ ↩︎
- “中柬“鱼米走廊”广西现代水稻产业合作项目在柬签约并开工”, The Cambodia China Times, junio 3 2025: https://cc-times.com/posts/28489 ↩︎
- GRAIN field visit in agosto 2024. ↩︎
- “Agri-research ties to help China, Myanmar”, Xinhua, febrero 17 2020: https://www.chinadaily.com.cn/a/202002/17/WS5e49f2f1a310128217277fcd.html ↩︎
- “农业农村部部署推进国家南繁硅谷建设”, Ministry of Agriculture & Rural Affairs, marzo 1 2025: https://www.moa.gov.cn/xw/zwdt/202503/t20250301_6470774.htm ↩︎
- “China Plans a “Silicon Valley” for Seeds”, Dim Sums, marzo 2 2025: https://dimsums.blogspot.com/2025/03/china-plans-silicon-valley-for-seeds.html ↩︎
