Posted on: 20 de setembro de 2026 Posted by: Teia dos Povos Comments: 0

por Isadora Leite Escosteguy

– “Não dou cinco anos para o rural desaparecer na nossa comunidade.”

Cinco anos. Essa frase me chocou. O que significa imaginar o desaparecimento do rural em uma comunidade? Para além de simplesmente deixarmos de ver plantações ao longo da estrada, isso pode significar que determinadas pessoas deixarão de existir naquele território como produtoras de alimento. Que determinadas sementes não serão mais guardadas. Que determinadas festas, conhecimentos, quintais, relações de vizinhança e formas de cuidar da terra deixarão de ser transmitidos.

E então à pergunta: se o rural acabar, o que será de nós?

Esse assunto é muito precioso para mim. O rural no imaginário coletivo muitas vezes está associado a um olhar ao passado, aquilo a ser superado, que está distante do agora e de onde queremos chegar (futuro): um lugar à margem do que é concebido como “novo”, ainda mais quando comparado às nossas vidas citadinas, “ágeis” e modernas.

Durante esses anos atuando como Agrônoma no campo da Agroecologia, fui adentrando o universo rural através das leituras, vivências e escuta. A medida que fui experenciando e conhecendo, percebi que o rural não tem condições de ser estereotipado nem homogeneizado. Há tanta diversidade e, por incrível que pareça, está muito mais perto de nós do que imaginamos.

Interessante perceber que a agricultura não nos é alheia. Ela está presente diariamente e disponível aos nossos sentidos, na forma como nos alimentamos e nos relacionamos com a comida. A própria palavra agricultura cede mais da metade de si à cultura. Agricultura é cultura. E a cultura está profundamente vinculada à maneira como as populações humanas se desenvolveram em comunidade. Ao longo do tempo, as sociedades foram convivendo com os diferentes ambientes naturais e envolvendo diferentes formas de habitar, produzir, celebrar, cuidar, transmitir conhecimentos e, de certa forma, construir pertencimento.

Quando procuro o que é o rural, muitas definições começam pelo que ele não é. Rural é aquilo que não é urbano.

E isso me parece sintomático. O urbano aparece como referência. O rural é definido pela ausência. Como se o urbano fosse o centro e o rural, aquilo que está à margem. Como se o seu existir tivesse necessariamente uma direção natural, inevitável e desejável.

Mas onde habita essa linha tênue entre o que é rural e aquilo que simplesmente não é urbano? Essa fronteira pode ser muito mais complexa do que os mapas conseguem mostrar. Porque há ruralidades dentro das cidades. Há cidades que dependem profundamente do rural. Há agricultores vivendo nas bordas das metrópoles. Há comunidades periféricas cuja origem comum é o campo, e migraram para as cidades para ter “oportunidades”, furto de uma promessa.

Há pessoas que insistem em produzir alimentos onde os planos diretores enxergam apenas áreas de expansão. Há quintais produtivos escondidos atrás de muros. Há mulheres guardando sementes. Há jovens tentando encontrar maneiras de permanecer. E há também territórios sendo rapidamente transformados em condomínios, galpões, estradas e empreendimentos imobiliários.

De um lado, o rural como território de produção, cultura e reprodução social. De outro, o rural como cenário para um determinado modo de vida desejado. Quando pensamos especialmente nas regiões litorâneas, essa tensão fica ainda mais evidente. As cidades estão “apertando” o universo das ruralidades de forma acelerada, muitas vezes orientadas pela especulação imobiliária. As terras agrícolas passam a valer mais enquanto terrenos do que enquanto espaços de produção de alimentos.

E os corpos das/dos agricultoras e agricultores que vivem nesses territórios começam a sentir essa pressão. Corpo que é território. Corpo que carrega uma história. Corpo que faz sentido ao reproduzir socialmente a cultura daquele lugar e que caminha, há gerações, junto às memórias e às histórias.

O acesso à natureza está na moda, cada vez mais requisitado nos condomínios “eco” , nas experiências de turismo, nos espaços que vendem uma ideia de vida mais próxima “do verde”. E se parássemos para refletir sobre o valor da terra a partir de outras perspectivas, levando em consideração, também, a visão de quem vive e trabalha nela?

Ta aí uma contradição que ainda não sabemos encarar. Queremos a natureza, mas não necessariamente queremos quem vive dela. Desejamos a paisagem bucólica, mas nem sempre queremos o rural vivo. Desejamos consumir alimentos de qualidade, mas raramente perguntamos quem os produz, onde produz, em que condições e se essa pessoa conseguirá continuar produzindo naquele território daqui a dez, vinte ou trinta anos?

E, enquanto isso, há galpões sendo construídos em áreas rurais para atender à nossa comodidade nas grandes cidades. O mundo das entregas rápidas precisa urgentemente de espaço e, por sua vez, de terras para fazer seus centros de logística funcionarem e entregarem rapidamente os pacotes que, a partir de um simples clique na tela cintilante dos desejos, chegarão aos nossos lares.

A entrega chega à nossa porta. Cada vez mais rápida. Cada vez mais barata.

Mas a que preço?

Ao retornar das viagens a campo visitando famílias agricultoras no interior de Santa Catarina, questões relacionadas a tal dicotomia CAMPO vs CIDADE começaram a me cutucar. Por que o espaço rural onde habitam tantas vidas, muitas vezes o que está em falta é justamente aquilo que é essencial à vida (saúde, cultura, lazer, educação)?

Muito se fala sobre a importância da agricultura familiar e das comunidades tradicionais para a alimentação brasileira, mas os números também mostram a diminuição da presença dessas pessoas no campo ao longo do tempo. Pois é, a juventude vem sendo convocada a sair do espaço rural há décadas. O êxodo rural brasileiro para além de um movimento demográfico, também representa a ruptura de modos de vida, saberes, vínculos comunitários e formas de relação com a terra. É verdade que hoje também observamos movimentos de saída das cidades. Mas, muitas vezes, essa migração para áreas rurais ou periurbanas acontece em doses homeopáticas e geralmente acaba reforçando as desigualdades no acesso à terra em nosso país.

As idas a campo durante esses anos, foram uma espécie de mergulho nessas reflexões e me permitiram um deslocamento do olhar. Ao sair da capital e daquele aglomerado de carros, lojas, prédios e holofotes, aos poucos, tudo ia ficando para trás… As estradas começavam a ficar mais vazias, os caminhos mais tortuosos, o asfalto dava lugar a outros tons de terra e surgiam outras formas de habitar e conviver com as paisagens. A paisagem se abre. O céu fica mais disponível aos olhos. O solo se recorta em cercas, matas, rios e córregos que atravessam as estradas e seguem seus próprios caminhos. Há uma espécie de linha invisível conectando tudo aquilo. Um fio que chamamos de rural. Rural esse que carrega consigo uma construção histórica e política, presenciando violências e desigualdades desde o Brasil colonizado.

Há muito tempo nos acostumamos a olhar para o campo como aquilo que ficou para trás. Possivelmente ele esteja nos mostrando justamente aquilo que ainda precisamos aprender para seguir caminhando.

Faço um convite para valorizarmos os modos de vida que existem no rural, sem nos fixarmos em uma ideia de passado distante e idealizado, mas, sim, na possibilidade de construir futuros possíveis. Futuros em que a terra seja para além de uma mercadoria e o alimento, para além de um produto. Em que o agricultor e a agricultora não sejam apenas pessoas que produzem para que a cidade consuma, e sim pessoas que possam escolher viver de forma distinta da norma de vida imposta pelas cidades.

Aspiro que consigamos pautar e criar condições para que todas as pessoas e seres que habitam o espaço rural tenham qualidade de vida e que a juventude possa escolher permanecer, se assim sentir e quiser.

Enfim, pergunto: Se o rural acabar, haverá cidades?

Quando chegarmos ao ponto de descobrir a resposta, talvez já não aguentemos mais sustentar a terra sob os nossos pés.

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