Posted on: 21 de setembro de 2026 Posted by: Teia dos Povos Comments: 0

por Astrid Arellano

Publicado originalmente em: https://desinformemonos.org/america-latina-concentro-el-85-de-los-asesinatos-de-personas-defensoras-del-territorio-y-el-ambiente-en-2025/

No território kakataibo, na Amazônia peruana, defender a floresta implica enfrentar invasões, cultivos ilícitos e grupos vinculados ao narcotráfico. Seis líderes desse povo foram assassinados desde 2020, e aqueles que continuam vigiando suas comunidades precisam percorrer com cautela um espaço que, há duas ou três décadas, consideravam seguro.

“Em nosso território andávamos livremente. Podíamos caçar, podíamos pescar, desfrutar da nossa floresta, mas hoje não. Temos que andar prevenidos, temos que andar com cuidado”, afirma Segundo Ispón, comandante da Guarda Indígena do Povo Kakataibo.

A transformação que ele descreve reflete um problema generalizado na América Latina, a região mais perigosa do mundo para quem defende a terra e o meio ambiente. O novo relatório da Global Witness, intitulado Poder coletivo: a luta pela proteção das pessoas defensoras do território e do meio ambiente, adverte que, em 2025, pelo menos 124 pessoas defensoras foram assassinadas no mundo e 105 desses crimes — quase 85% — ocorreram nessa região.

Um guardião da comunidade kakataibo de Santa Marta. Esse povo protege a floresta porque quer que seus filhos a conheçam e possam cuidar dela quando crescerem. Foto: cortesia Global Witness

A organização documentou 2.375 assassinatos e desaparecimentos de longa duração desde que começou esse registro, em 2012. Embora os assassinatos tenham diminuído em relação aos 142 e aos quatro desaparecimentos registrados em 2024, a Global Witness adverte que os números provavelmente subestimam a magnitude real da violência e não necessariamente representam uma melhoria.

“Embora o número de assassinatos tenha caído, vimos que os casos de criminalização, de certa forma, aumentaram. No México, por exemplo, este ano os números de assassinatos diminuíram, mas também aumentaram os números de criminalização”, explica Juliana Vélez Echeverri, sênior de campanha da Global Witness. Os assassinatos, acrescenta, são a pior parte de um panorama que também inclui ameaças, desaparecimentos, acusações penais, intimidação e campanhas de desprestígio que colocam em risco as pessoas defensoras.

Metade das pessoas que lideram a Guarda Indígena Kakataibo são mulheres, que incorporaram entre suas prioridades o combate à violência de gênero, a participação política e a transmissão cultural. Foto: cortesia Global Witness

A violência se concentra nos territórios

A Colômbia foi, pelo quarto ano consecutivo, o país mais perigoso do mundo para as pessoas defensoras. Embora esse país tenha voltado a encabeçar a lista mundial, com 39 assassinatos — nove a menos que os 48 documentados em 2024 —, o maior aumento ocorreu no Brasil: passou de 12 para 26 casos, mais que o dobro em um ano. Juntos, os dois países concentraram 52% dos assassinatos registrados em 2025.

Também mudou a distribuição dos casos em outros países da região em relação ao ano anterior. Honduras passou de seis assassinatos documentados em 2024 para 12 em 2025, enquanto a Guatemala caiu de 20 para oito e o México de 19 para 10. O Peru registrou quatro assassinatos e a Nicarágua e o Equador, três cada um. Oito dos dez países com maior número de assassinatos estão na América Latina, em uma lista que também inclui países fora da região, como Filipinas e Tanzânia.

Dos 39 assassinatos que ocorreram na Colômbia, 35 estavam relacionados a conflitos territoriais. O departamento de Cauca concentrou 13 assassinatos, incluindo os de quatro integrantes de guardas indígenas. Desde 2012, a Global Witness registrou 171 casos ali, o número acumulado mais alto registrado pela organização em um departamento. O relatório relaciona essa violência à localização estratégica de Cauca para as rotas de exportação de cocaína e à expansão da mineração ilegal e de outros grupos armados.

Em outubro de 2020, cerca de 8.000 manifestantes indígenas viajaram da região de Cauca até Bogotá para dar visibilidade à presença de grupos armados em seus territórios. Foto: cortesia Juancho Torres/Anadolu Agency via Getty Images/Global Witness

No Brasil, a maioria dos 26 assassinatos foi relacionada a demandas de reconhecimento de territórios ancestrais e de reforma agrária. Entre as vítimas havia 11 camponeses e sete habitantes indígenas.

Os ataques se concentraram principalmente nos estados amazônicos de Rondônia e Pará, onde o avanço das fronteiras agrícolas e extrativistas sobre comunidades camponesas é acompanhado por invasões, grilagem de terras e violência impulsionada por madeireiros ilegais, mineradores e pecuaristas.

“No Brasil também foi reportado um grande aumento, sobretudo porque os casos que reportamos também são casos de massacres”, explica Vélez. “E não reportamos apenas a pessoa defensora que é assassinada, mas também os familiares ou outras pessoas relacionadas que foram assassinadas como represália contra a pessoa defensora.”

Em nível mundial, as disputas territoriais estiveram vinculadas a 84 dos 124 assassinatos. A Global Witness também relacionou 11 mortes à mineração — dois casos ocorreram no Peru — e a outras indústrias extrativas, oito a interesses madeireiros — todas na América Latina — e seis à agroindústria — metade dos assassinatos ocorreu na Nicarágua. Em mais de um terço, identificou supostos vínculos com o crime organizado ou com assassinos de aluguel, conhecidos comumente como sicários.

Guarda Indígena Kakataibo na floresta da comunidade de Yamino. Foto: cortesia Global Witness

“Podemos ver que o crime organizado, de certa forma, tem facilitada a sua atuação em lugares onde o Estado falhou e não está presente”, diz Vélez. “Também vimos casos em que o crime organizado colabora com entidades estatais e estamos vendo ainda que são grupos que não apenas se dedicam a certas atividades criminosas, mas também podem se conectar com o trabalho que outras indústrias e corporações fazem, por isso às vezes é muito difícil estabelecer ou identificar os diferentes perpetradores.”

Os conflitos territoriais ainda estão muito concentrados na América Latina, acrescenta Vélez. Estes incluem tanto as disputas pelo reconhecimento de territórios ancestrais quanto a falta de acesso à terra e de implementação de reformas agrárias para as comunidades camponesas.

A organização aponta que mais de três quartos das vítimas documentadas em 2025 eram indígenas, camponesas ou afrodescendentes: 47 eram pequenos agricultores, 44 pertenciam a povos indígenas e três eram afrodescendentes. Sete das pessoas indígenas assassinadas faziam parte de guardas comunitárias dedicadas a proteger seus territórios.

Vélez explica que essas comunidades enfrentam riscos desproporcionais porque suas casas se encontram em zonas cobiçadas por interesses extrativistas, corporativos e criminais. Por isso, ao defendê-las, não apenas protegem ecossistemas importantes para enfrentar a crise climática, mas também os espaços dos quais dependem sua vida e sua identidade.

Um ancião ou sábio da comunidade Mariscal Cáceres. É uma das poucas pessoas que restam que sabem fabricar armas tradicionais, como lanças e flechas. Foto: cortesia Global Witness

A violência que não aparece nos números de assassinatos

Das 124 pessoas defensoras assassinadas em 2025, 109 eram homens, 14 mulheres e uma pessoa não binária. Entre as mulheres, dois casos ocorreram na América Central e outros dois no México. No entanto, o relatório adverte que os assassinatos são apenas a parte visível de um “iceberg” de violência que inclui criminalização, ameaças, vigilância, assédio e campanhas de difamação, amplificadas cada vez mais pelas redes sociais.

As defensoras enfrentam essas agressões de maneira persistente. Entre 2012 e 2023, a Iniciativa Mesoamericana de Defensoras de Direitos Humanos documentou mais de 30.000 ataques não letais contra mulheres no México e na América Central, desde assédio e ameaças verbais até vigilância de suas atividades cotidianas e violência psicológica.

O México mostra com clareza essa tendência. Embora os assassinatos tenham diminuído de 19 em 2024 para dez em 2025, o Centro Mexicano de Direito Ambiental (CEMDA) registrou 107 casos de criminalização, além de centenas de episódios de estigmatização, intimidação e difamação.

Os desaparecimentos também continuam sendo um problema central no país. Em 2025 foi assassinado em Guerrero um defensor que ainda procurava seu irmão, também defensor ambiental, desaparecido desde 2021.

Mulher integrante da guarda indígena do povo shipibo. Foto: cortesia Global Witness

“No México os defensores têm sido assassinados e há um contexto muito profundo e difícil de desaparecimentos forçados de longa duração”, sustenta Vélez. “Isso, enquanto são criminalizados e difamados nas redes sociais, com narrativas que deslegitimam seu trabalho, apresentando-os como obstrucionistas do desenvolvimento.”

Quando essas narrativas são permitidas e se viralizam, acrescenta, torna-se legítimo para os Estados criminalizar defensores cujo perfil já foi destruído. “Então, podemos ver que há outras formas pelas quais os defensores são atacados, não apenas com o assassinato; são várias e a essas também é preciso prestar atenção”, acrescenta a especialista.

Documentar esses ataques é cada vez mais difícil. As organizações e grupos em defesa dos direitos humanos enfrentam represálias, restrições ao espaço cívico e falta de recursos. A ajuda mundial para o desenvolvimento caiu 23% em 2025, a maior redução anual registrada pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE). Esses cortes afetaram organizações que acompanham comunidades e coletam informações sobre agressões.

“Há muitas organizações que dependem desses recursos para desenvolver diferentes projetos destinados à proteção de pessoas defensoras, desde campanhas até litígios, mas os cortes também enfraqueceram organizações que coletam e verificam dados, reduzindo sua capacidade de documentar as violências”, explica Vélez. “Se não sabemos o que está acontecendo, é muito difícil responder ao que não conhecemos”, adverte.

“Em nosso território está nossa floresta: ali temos muitas vidas, a biodiversidade. Estão nossas plantas, estão nossos animais, estão nossos peixes nos rios e todos os seres vivos que enriquecem esta natureza”, explica Segundo Ispón. Foto: cortesia Global Witness

“Nós cuidamos uns dos outros”

A resposta dos povos indígenas diante desse panorama é um dos eixos centrais do relatório. A Global Witness documenta mecanismos de proteção coletiva como patrulhas territoriais, sistemas de alerta precoce, redes de monitoramento e espaços comunitários de decisão.

Um desses casos é o do povo kakataibo, cujo território se estende entre as regiões peruanas de Huánuco e Ucayali, na Amazônia. De acordo com o relatório, seu território ancestral, de cerca de 1,5 milhão de hectares, perdeu aproximadamente um quinto de sua cobertura arbórea entre 2000 e 2023. Segundo reporta o Instituto do Bem Comum (IBC), com sede em Lima, se a tendência continuar, mais de um quarto de suas florestas terá desaparecido até 2030.

A pressão se intensificou com o narcotráfico. Entre 2019 e 2023, os cultivos de coca em Ucayali aumentaram mais de 600%, ultrapassando 12.000 hectares. Em um sobrevoo realizado em 2024, foram identificadas três pistas clandestinas, áreas desmatadas, cultivos de coca e poços de maceração dentro da Reserva Indígena Kakataibo Norte e Sul, criada para proteger povos kakataibo em isolamento.

Desde 2020, seis líderes kakataibo foram assassinados. Para Segundo Ispón, cada crime deixa uma ausência impossível de reparar.

“Os filhos ficam órfãos, a mãe viúva”, afirma. “Nos tiram um líder, nos tiram uma autoridade e ela não voltará.”

Na comunidade Yamino, foi celebrado o quinto aniversário da Guarda Indígena Kakataibo. Foi um espaço de encontro, reflexão e reafirmação do compromisso dos povos indígenas com a proteção de seus territórios e da Amazônia. Foto: cortesia Global Witness

Diante das ameaças e da falta de resposta estatal, as comunidades criaram formalmente a Guarda Indígena Kakataibo em maio de 2022. Começou com apenas algumas dezenas de integrantes e hoje reúne mais de 150, com bases em dez comunidades. Cada uma trabalha junto com suas autoridades para organizar patrulhamentos, intervenções e outras ações de defesa.

“A guarda é um nome que demos, mas a resistência sempre existiu”, explica Ispón. “Nossa resistência tem mais força. Estamos mais empoderados, não temos medo, mas nos preocupa o dia em que nos matem: quem vai olhar por nossos filhos e nossa família? Quem vai cuidar do nosso território? Isso é o que nos fortalece, a unidade.”

Quando detectam cultivos de coca, desmatamento ou invasões, as comunidades se reúnem para decidir como agir. Em ocasiões, dialogam com os responsáveis e lhes dão um prazo para abandonar o território. No entanto, intervir também pode expô-las a represálias: segundo Ispón, alguns infratores apresentam primeiro denúncias por crimes como roubo ou sequestro e as autoridades acabam criminalizando e investigando os guardas indígenas.

“Em vez de sairmos favorecidos, a autoridade competente favorece o infrator”, denuncia Ispón. “Nos tratam como violentos, como revoltosos. Por isso somos criminalizados, nos tratam de violentos… desculpas das autoridades.”

Os patrulhamentos da guarda são realizados sem armas de fogo e com escassos equipamentos. Enquanto os grupos ilegais contam com recursos e assassinos de aluguel, os guardas levam flechas e lanças tradicionais. Pelo menos seis integrantes receberam ameaças de morte por WhatsApp e redes sociais, de acordo com o relatório.

“Sem território, uma comunidade indígena não é povo indígena”, explica Segundo Ispón. “Porque em nosso território está nossa floresta: ali temos muitas vidas, a biodiversidade. Estão nossas plantas, estão nossos animais, estão nossos peixes nos rios e todos os seres vivos que enriquecem esta natureza. Estamos sempre preocupados com a proteção, monitorando as atividades ilegais e pessoas inadequadas que entram em nosso território.”

Uma mulher integrante da Guarda Indígena Kakataibo. Foto: cortesia Global Witness

Ispón sustenta que a guarda precisa de coletes à prova de balas, GPS, câmeras, drones, rádios e sistemas de comunicação via satélite. Também pede reconhecimento legal e coordenação efetiva com as autoridades. Além disso, assegura que as medidas de proteção concedidas pelo Estado não foram aplicadas.

“Poderei me sentir protegido quando tiver um colete à prova de balas no meu corpo”, afirma. “Um documento não vai me proteger.”

Vélez esclarece que esses sistemas comunitários não substituem as obrigações de proteção dos Estados. O relatório da Global Witness recomenda que os governos reconheçam a proteção coletiva, financiem-na quando apropriado e a integrem em suas políticas.

Também propõe que os mecanismos estatais tenham caráter civil, sejam baseados em direitos e respondam aos contextos culturais, evitando abordagens militarizadas que possam agravar os riscos. Para o caso peruano, o Instituto de Defesa Legal (IDL) propõe ainda mecanismos interculturais de colaboração entre as guardas indígenas e as autoridades, assim como equipamentos e apoio logístico, operativo e técnico.

Além disso, a proteção coletiva vai além do patrulhamento. Três das seis pessoas que integram a diretoria da Guarda Kakataibo são mulheres, que incorporaram o combate à violência de gênero, a participação política e a transmissão cultural entre suas prioridades.

Povos indígenas como os kakataibo fortaleceram suas guardas e outros mecanismos coletivos para defender suas vidas, territórios e culturas. Foto: cortesia Global Witness

“Não é apenas monitorar o território”, sustenta Vélez. “São processos organizativos muito mais profundos que vão em direção à proteção da vida.”

O relatório exige atender às causas estruturais da violência, garantir os direitos coletivos sobre a terra, combater a impunidade, proteger o espaço cívico, ratificar e implementar o Acordo de Escazú e colocar as pessoas defensoras no centro das políticas climáticas e de biodiversidade.

Para Ispón, enquanto essas medidas se materializam, a proteção com que os kakataibo contam atualmente provém principalmente de sua própria organização comunitária.

“Não sentimos proteção por parte do Estado, mas entre nós, entre povos, entre apus; por isso estamos alertas a qualquer momento”, conclui o defensor. “Nós corremos risco, mas estamos preparados para dar nossas vidas pelo nosso território, pela floresta.”

Imagem principal: na comunidade Yamino, foi celebrado o quinto aniversário da Guarda Indígena Kakataibo. Durante o encontro, houve um chamado à reflexão e à reafirmação do compromisso dos povos indígenas com a proteção de seus territórios e da Amazônia. Foto: cortesia Global Witness

Publicado originalmente em Mongabay Latam

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