por Silvia Adoue
Originalmente publicado em: https://huelladelsur.ar/2026/10/01/elecciones-en-brasil/
No próximo domingo, 4 de outubro, ocorrerão as eleições para presidente (e vice), governadores (e vice-governadores) de estado, deputados federais e estaduais e dois senadores por estado (renovando 2/3 do Senado Federal). A principal expectativa é quem conduzirá o poder executivo nos próximos quatro anos. Se Luís Inácio Lula da Silva será reeleito ou se Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Messias Bolsonaro, agora preso, assumirá a presidência.
As últimas pesquisas de opinião apontam Lula como favorito no primeiro turno. A empresa Quaest indica 39% para Lula contra 34% de Bolsonaro. A Datafolha prevê 40% para Lula e 36% para Bolsonaro. Ambas antecipam um empate de ambos no segundo turno, com cerca de 42%. Mas esses números podem se alterar a partir de quinta-feira, 1º de outubro, quando será anunciado o último debate entre os candidatos. Historicamente, os debates e os dias que precedem os pleitos são instâncias de revelações que modificam as tendências “nervosas” do eleitorado, como ocorreu em 1989, quando Lula perdeu a presidência para Fernando Collor de Mello.
Esta talvez seja a campanha mais pobre em debate programático dos últimos tempos no Brasil. Pouco se fala dos programas de governo. Os projetos aparecem bastante desfocados. Lula defende a ampliação das políticas sociais de auxílio à pobreza e o aumento da oferta de vagas nas universidades federais. Nas periferias das grandes cidades, onde as mulheres não têm sequer um pedaço de terra para garantir a sobrevivência de suas famílias, as políticas de auxílio à pobreza tornaram-se, em muitos casos, imprescindíveis para a sobrevivência. Por esse motivo, nenhum candidato cometeria o suicídio de negá-las. Bolsonaro deixa claro que manterá políticas como o “Bolsa Família” e criará incentivos aos empreendedores com um programa que chama de “Minha primeira empresa”. Ambos propõem uma reforma tributária: Lula, isentando os que têm rendimentos menores de 5 mil reais (cerca de mil dólares); Bolsonaro, favorecendo as empresas. Os eleitores de Lula têm o argumento do funcionamento do Sistema Único de Saúde, o SUS, na ponta da língua para defender seu voto. No entanto, a campanha nos meios de comunicação e nas redes formula temas como o combate às apostas on-line e se Nossa Senhora Aparecida deve continuar sendo a virgem padroeira do Brasil, devido ao crescimento de evangélicos no país, embora o catolicismo ainda mantenha sua posição majoritária.
Se ganhar, o Partido dos Trabalhadores (PT) entrará no 6º mandato da presidência desde 2003 (e Lula, em seu 4º mandato, desde então). Sequência interrompida pelo impeachment de Dilma Rousseff em 2016 e pela eleição de Jair Messias Bolsonaro de 2019 a 2023. Ainda assim, os governos do PT estão permanentemente ameaçados pelo crescimento da direita fascista. Sua tática vem sendo tentar assegurar sua governabilidade por meio de alianças cada vez mais à direita e abandonar propostas por ele defendidas até o início do século XXI, como reforma agrária e demarcação das terras indígenas.
A mudança de rumo da política estadunidense nos últimos anos, que intensifica seus esforços pelo controle absoluto das riquezas e dos territórios do continente, incide sobre este pleito. A direita vem ganhando eleições na região com o apoio dos Estados Unidos, que empenham sua política externa e todos os recursos de sua tecnologia para isso. O controle das riquezas praticado na atualização da doutrina Monroe (“América para os americanos” – americanos dos Estados Unidos), no entanto, está sendo realizado por meio de procedimentos variados. Na Venezuela, por exemplo, a política externa dos Estados Unidos escolheu os herdeiros do chavismo, cujo palavrório anti-imperialista não dava um passo na ruptura da dependência da Venezuela dos mercados internacionais, como mediadores de suas estratégias, porque entende que a direita local não teria força para impô-las. Isso nos dá a medida da capacidade imperial de avançar em seus objetivos por meio de táticas variadas. Não é com retórica nos fóruns da ONU que se pode contê-la. Os acordos com os fundos de investimento dos BRICS tampouco levam a proteger os territórios da espoliação. Antes, alinham forças em uma corrida dos diferentes fundos de investimento pelos “recursos” dos territórios.
A imprensa corporativa, que representa os interesses da burguesia local aliada ao grande capital internacional, vem apontando Bolsonaro como o candidato das milícias, vinculado à delinquência. Ao mesmo tempo em que pressionam Lula para que se comprometa com um novo ajuste fiscal que leva à redução de políticas sociais e propicia as privatizações “por fatias” (terceirização de serviços) que vêm sendo realizadas por governos de todas as cores durante as últimas décadas.
Em todo caso, a simples observação do ocorrido no Brasil na última década e meia nos permite concluir que não se detém o crescimento do fascismo com eleições. O fascismo vai além das instituições governamentais. Dissemina-se nas relações da sociedade, alimentado pela decepção diante das promessas de transformação não realizadas e pelo ressentimento que segue essa decepção. Alimenta-se da passividade que a esquerda propõe em nome da representação institucional dos interesses populares, sempre adiados. Os movimentos sociais, que outrora se lançavam a iniciativas autônomas, em sua grande maioria, sufocam qualquer iniciativa de ação direta, delegando seus objetivos a instâncias do Estado, agrupando-se em torno de candidatos que supostamente responderão a seus desejos transformando-os em políticas públicas. Multiplicam-se as mediações, dissipando, em cada trecho de mediação, a energia vital e criativa das gentes. E as demandas terminam afogando-se no pântano das “relações de forças” das instâncias da democracia representativa, com seus dispositivos de segurança que impedem qualquer mudança estrutural.
O Estado já não pode sequer aspirar a ser “de direito”. Na dinâmica atual do capital, o Estado é um “Estado de guerra” contra os territórios, independentemente da cor do governo. Vemos governos supostamente de esquerda aplicando os projetos da direita, como fez Boric no Chile aumentando a militarização no território mapuche, como faz Delcy Rodríguez na Venezuela com o argumento de que pior seria se a direita declarada executasse as ordens de Donald Trump. Lula vem, em nome do desenvolvimento, propiciando a destruição dos territórios. “Não são a mesma coisa”, nos dizem. “Não é a mesma coisa Lula que Bolsonaro”. De acordo. E as consequências de um governo como o de Kast no Chile estamos observando: há um par de semanas condenaram, pelo sabotagem a uma empresa, um grupo de comuneros mapuche, a um total de mil anos de prisão, sendo a pena menor de 35 anos. Mas essas barbaridades não podem nos fazer ceder à extorsão de pôr todas as energias na eleição do mal menor. A campanha do PT mobiliza o terror ao governo miliciano, sendo que as milícias fascistas operam com plena liberdade nos territórios, mesmo com o PT no governo nacional.
Enquanto as eleições vêm hegemonizando as manchetes e as redes sociais, os povos vêm realizando recuperações de territórios contra o avanço do extrativismo espoliador. Sem muito barulho, sem levantar a perdiz.
