Membros da União dos Pedreiros, Carpinteiros e Outras Artes, 1919
por Carlos Ferreira de Araujo Junior
Embora poucas páginas tenham sido dedicadas aos militantes libertários negros no Brasil, eles estiveram na vanguarda de importantes eventos e conquistas do movimento operário brasileiro.
A cronologia começaria, sem dúvida, com o professor, filósofo e jornalista Antônio Pedro de Figueiredo (1814–1859). Figueiredo fundou a revista O Progresso (1846–1848), que contou com a colaboração de outros escritores que, assim como ele, foram influenciados pelo socialismo “utópico” francês.
No Recife dos anos 1840, havia uma pequena colônia de imigrantes franceses, incluindo o engenheiro socialista Louis Vauthier, que trouxe diversos livros de autores socialistas como Saint-Simon, Owen e Fourier, além do já autoproclamado anarquista Proudhon. Em 1849, Figueiredo condenou a escravidão e o latifúndio em Pernambuco com base na máxima de Proudhon: “destruir o despotismo encarnado na grande propriedade territorial”. Por conta de suas ideias socialistas, Figueiredo sofreu constantes insultos racistas de seus opositores.
Os primeiros anarquistas negros começaram a aparecer frequentemente em jornais e periódicos durante as décadas de 1910 e 1920. Naquela época, o comunismo libertário de Kropotkin, o sindicalismo revolucionário de Pouget, a pedagogia de Ferrer e, até certo ponto, as ideias de Tolstói eram as principais influências sobre os libertários, associações e movimentos grevistas. Fotografias do Primeiro Congresso Operário Brasileiro (1906), realizado no Rio de Janeiro, mostram que uma grande parcela dos representantes sindicalistas presentes era negra.

Delegados no Primeiro Congresso Operário Brasileiro (Wikipédia)
Entre 1917 e 1920, grandes greves gerais com forte influência anarquista eclodiram por todo o Brasil. As capitais regionais e centros industriais do país — Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre, Belém, Salvador e Recife — tornaram-se epicentros de movimentos que levaram milhares de trabalhadores às ruas exigindo desde a jornada de oito horas e aumentos salariais até o fim da propriedade privada e a abolição do Estado.
Lembramos de inúmeros anarquistas negros que participaram dessas greves e foram presos, torturados ou mortos: João da Costa Pimenta, Armando Gomes, Hermogêneo Silva, Custódio Paes, Eustáquio Marinho, Justiniano Silva, Pedro Lessa, Olímpio Santana, João Lopes, Minervino Oliveira, Sinval Borges, Cândido Costa, José Argolo, José Leandro, Sebastião Silva, Tomaz Derliz Borges, Laudelina Silva, Domingos Passos, José da Silva Gama, Abílio José, José Domiense, Luiz França, Djalma e Cristiano Fettermann.
Cândido Costa foi um dos anarquistas mais ativos no Rio de Janeiro durante a década de 1910. Suas palestras anticlericais e libertárias atraíam centenas de trabalhadores. Ele também participou do Segundo Congresso Operário (1912). Durante um discurso aos trabalhadores, Costa foi brutalmente espancado pela polícia e por pessoas que participavam de uma procissão religiosa que passava perto do comício.

Cândido Costa
O marmorista negro Minervino Oliveira, nascido na Bahia, mas ativo no Rio de Janeiro, foi um dos principais representantes dos marmoristas. Participou de diversos comícios operários e associações libertárias. Laudelina Silva, costureira, tornou-se um símbolo na luta contra o racismo, a exploração do trabalhador e a violência sexual. Ela foi presa enquanto protestava em frente à casa de seu patrão contra a sua própria demissão e a de seus colegas de trabalho. Antes de chamar a polícia, o patrão declarou que não queria “aquela negra preguiçosa” na frente de sua casa. Laudelina e os outros trabalhadores não se intimidaram e continuaram o protesto até serem levados para a delegacia.
Na década de 1910, em Porto Alegre, a capital mais ao sul do Brasil, os irmãos Fettermann foram anarquistas anticlericais, educadores, sindicalistas e ilegalistas ativos por vários anos. Cristiano Fettermann publicava artigos no jornal O Exemplo. Os editores do jornal fundaram uma escola noturna para trabalhadores com o mesmo nome. O jornal também publicou textos do socialista negro Tácito Pires. Djalma Fettermann trabalhou como jornalista e lecionou francês e português na Escola Moderna de Porto Alegre. Participou ativamente da Greve de 1917 em Porto Alegre e, segundo alguns historiadores, fabricou bombas que foram atiradas contra a polícia.

Almerinda Gama (1899-1999)
Em Belém do Pará, no norte do Brasil, os irmãos negros Almerinda Farias Gama e José Gama destacaram-se como figuras importantes no anarcosindicalismo. José Gama foi um influente representante trabalhista dos tipógrafos. Ele também publicou artigos em jornais operários de Belém, como O Semeador. Gama opôs-se ao preconceito racial e à expulsão de estrangeiros do Brasil. Ao lado de Plácido de Albuquerque, representou associações de trabalhadores no Terceiro Congresso Operário (1920) no Rio de Janeiro. Almerinda Gama iniciou sua carreira política como libertária, ministrando palestras para trabalhadores tipógrafos em sua própria casa.
Na cidade de Campinas, no interior de São Paulo, Armando Gomes foi um ferroviário ativo tanto como anarquista quanto como membro de associações negras como a Liga Humanitária dos Homens de Cor, que combatia o preconceito e defendia os direitos dos negros. Em Maceió, Olympio Santana despontou como liderança anarquista. Pertencia a coletivos anarquistas da cidade e publicava textos em jornais operários. Luiz França foi outro militante anarquista negro nascido em Maceió, mas ativo no Rio de Janeiro. No Recife, o estivador libertário Pedro Lessa foi morto pela polícia durante uma greve no porto. Em Salvador, o Sindicato dos Pedreiros, Carpinteiros e Outras Artes (SPCDC) foi fundado em 1919 por trabalhadores negros comprometidos com o sindicalismo revolucionário. O sindicato introduziu diversas táticas inéditas na região, como a sabotagem, o boicote e a greve geral.
Durante a década de 1920, o anarquismo começou a perder terreno nas associações de trabalhadores, enquanto o comunismo marxista avançava por meio de uma campanha agressiva nos sindicatos. Muitos anarquistas tornaram-se comunistas, especialmente após a fundação do Partido Comunista do Brasil (1922). Além da concorrência do PCB, o anarquismo sofreu repressão das autoridades estatais. Durante o governo autoritário do presidente Arthur Bernardes (1922–1926), muitos opositores foram enviados para a notória colônia penal de Clevelândia, no Oiapoque, no extremo norte do Brasil. Das 1.500 pessoas enviadas para lá, metade morreu em menos de dois anos. Muitos anarquistas foram deportados para esse “inferno verde”, como ficou conhecido. O ilegalista negro uruguaio Thomas Derliz Borche e Domingos Passos, um comunista libertário negro ativo no Rio de Janeiro, conseguiram escapar.

Domingos Passos
Passos, neto de ancestrais indígenas e negros, foi sem dúvida o anarquista brasileiro mais perseguido e uma das figuras mais ativas do movimento operário durante a década de 1920. Enquanto muitos anarquistas migravam para as fileiras do PCB, o pedreiro e carpinteiro Domingos Passos defendeu ferrenhamente o comunismo libertário em comícios, greves e associações de trabalhadores. Ele também publicou artigos sobre o comunismo libertário em jornais operários como Spartacus, Voz do Trabalhador e A Plebe. Participou de grupos de teatro tanto em São Paulo quanto no Rio de Janeiro. Em 1925, Passos foi preso e enviado para Clevelândia, de onde escapou cruzando a floresta amazônica até chegar à Guiana Francesa, depois ao Pará e, finalmente, ao Rio de Janeiro em 1927.
O julgamento do cozinheiro anarquista negro José Leandro, preso em 1921 após uma altercação que resultou na morte de três pessoas — incluindo um policial — no Rio de Janeiro, recebeu atenção em jornais operários de todo o Brasil e de países vizinhos. O julgamento ocorreu em 1924 e terminou com a absolvição unânime de José Leandro.
Anarquistas negros também escreveram e se organizaram por meio de periódicos e jornais operários. O jornal anticlerical A Lanterna contava entre seus editores com o poeta anarquista pardo Raimundo Reis, também conhecido como Beato da Silva. Em Porto Alegre, socialistas, sindicalistas e libertários negros escreveram, editaram e publicaram o jornal negro O Exemplo. Cristiano Fettermann, por exemplo, publicava artigos sobre educação. O Semeador era publicado por Bruno de Menezes e Silva Gama, anarquistas negros de Belém do Pará. Eles também pertenciam a grupos de propaganda anarquista e lecionavam em Escolas Modernas na cidade. Em Salvador, o jornal Germinal foi fundado em 1919 pelo advogado socialista pardo Agripino Nazareth, enquanto Voz do Trabalhador foi fundado pelo anarcosindicalista negro Eutachio Marinho.

Gilka Machado (1893-1980)
Na literatura, muitos escritores brasileiros — libertários ou não — foram influenciados por autores anarquistas como Émile Zola, Guerra Junqueiro e Leo Tolstói. Raimundo Reis e Adalberto Viana foram poetas anarquistas negros amplamente publicados em periódicos libertários entre 1910 e 1920. Pereira da Silva foi um poeta influenciado por Tolstói. Gilka Machado foi uma escritora famosa em sua época, especialmente entre trabalhadores e libertários. Sua poesia tinha caráter erótico. Bruno de Menezes, além de jornalista, também foi um poeta dedicado às questões sociais e à cultura afro-brasileira.

Lima Barreto (1881-1922)
Lima Barreto foi um jornalista e escritor libertário negro nascido no Rio de Janeiro, então capital do Brasil. Suas crônicas permanecem como uma das maiores fontes para o estudo da Primeira República no Brasil. Elas denunciavam o racismo, o militarismo e a hipocrisia da elite brasileira. Barreto chegou a ser internado em instituições psiquiátricas, onde escreveu O Cemitério dos Vivos, uma obra autobiográfica.

Btilhante. Are agora nao havia lido uma resenha tao repelea de informacoes e pontos de origem para pesquisas sobre apoea e os movimentos libertarios. Parabens.