Nos dias 14 a 18 de setembro a Superintendência Estadual do Mato Grosso do IPHAN, o Conselho Nacional de Arqueologia e a Coordenação Geral de Licenciamento Ambiental de Brasília, estiveram na Terra Indígena Areões do povo A’uwé Xavante para uma missão de reconhecimento de aldeias antigas na região onde foi projetada a Ferrovia de Integração do Centro-Oeste FICO, na área situada entre as Terras Indígenas Areões e Pimentel Barbosa e as terras em processo de reconhecimento Wedezé, Norotsutsutupá e Etedzutserehi.
O trajeto da linha de trem incidirá sobre uma centena de sítios arqueológicos no trecho licenciado pelo IBAMA sem nenhum procedimento de Consulta ao povo Xavante. A Defensoria Pública da União recomendou a suspensão da Licença de Instalação da FICO enquanto não haja procedimento de Consulta. O IPHAN levou a cabo um Programa de resgate de peças, liberando obras de terraplanagem sobre o nosso território ancestral. A missão de reconhecimento de aldeias antigas visa proteger nosso território das obras da Ferrovia. Por isso, acompanhamos os arqueólogos na identificação de diversas aldeias antigas situadas hoje dentro de propriedades privadas, entre elas Pó’onarada (Flechas dos antigos), Norotsutsutu’narada (Broto de babaçu), Norotsutsutupá, U’ãiene (Morro do Jaboti), Etedzutserehi/antiga Missão Santa Terezinha, Ete’re, as cavernas da Serra do Roncador e Ödzahiré (Água Brava). Apesar das difíceis condições de preservação desses sítios históricos, vários deles tendo sido transformados em pastagens, o IPHAN reconheceu a necessidade de continuar o trabalho de identificação sobre nosso território ancestral.
Etedzutserehi, a montanha serrilhada, e suas cavernas já registradas pelo IPHAN em momento anterior, foram apropriadas pela mineradora Calcário Vale do Araguaia – Cavasa que realiza a moagem da montanha calcárea. Da mesma família proprietária da CCR, a Fazenda e Pousada Água Viva, dedica-se ao turismo e à pecuária. Sediada sobre a antiga Missão Salesiana Santa Terezinha, detém área da margem esquerda do rio das Mortes. A Fazenda cedeu parte das montanhas para o grupo religioso Santuário Roncador, que realiza empreendimento turístico nas cavernas que são antigos sítios rituais. Visitando as grutas, os A’uwé reconheceram seu local sagrado de práticas rituais, e notaram a sua transformação com a redução da umidade das cavernas, a quebra de eslactites, o calor no interior de seu sítio sagrado, consequências do desmatamento e da mineração, que desagradam os verdadeiros donos da montanha (Ete’re Tedewa).
O calor e as secas prolongadas, a desaparição de nascentes e córregos, pântanos, brejos e campos de murundu, regiões alagadas hoje secas, e com eles a extinção de muitas espécies, são consequências do avanço da fronteira agrícola, agora de grande escala e para a exportação de commodities, sobre o território ancestral xavante. A FICO, o asfaltamento de rodovias e as barragens no Rio das Mortes são infraestruturas em processo de construção para consolidar o esbulho das terras ancestrais Xavante na Serra do Roncador, entre os rios Araguaia e as nascentes do Xingu. O reconhecimento de sítios sagrados, aldeias antigas, cemitérios, áreas de captação de recursos é mais um elemento fundamental para questionar o licenciamento da Ferrovia sobre o território ancestral A’uwé Xavante.





