por Silvia Beatriz Adoiue
Tero, tero, tero, tero,
muy bien, por el compañero.1
Domingo 4 de outubro houve eleições para a presidência e vice-presidência da república, governação e vice governação dos estados, para a câmara de deputados e dois terços do senado, assim como para assembleias legislativas dos estados. Flávio Bolsonaro obteve 47% dos votos válidos, contra os 45% do atual presidente pelo Partido dos Trabalhadores (PT), Luiz Inácio Lula da Silva. Flávio, da ultradireita, filho do ex-presidente Jair Messias Bolsonaro, agora preso pela participação na tentativa de golpe no dia 8 de janeiro de 2023, quando Lula ganhou as eleições para presidente. O segundo turno das eleições está marcado para domingo 25 de outubro. Quem ganhar a presidência governará com um senado, uma câmara de deputados e governadores com maioria de direita. Houve 21% de abstenções, o que corresponde a 33,4 milhões de eleitores, e 5% entre votos brancos e nulos.
Se Lula ganhar, será o 6º mandato do PT. Esses mandatos consecutivos foram interrompidos em 2016, com o impeachment da presidenta Dilma Roussef. Nessa ocasião, quem continuou como presidente foi o vice, Michel Temer, político de direita com quem o PT tinha se aliado. Nas eleições seguintes, com Lula preso por acusações de corrupção (sendo libertado em 2021 pelo Supremo Tribunal Federal), Jair Messias Bolsonaro foi eleito presidente.
Com o argumento de enfrentar o fascismo, o PT vem fazendo alianças cada vez mais “amplas”, moderando sua ação política. A demarcação de terras indígenas e a reforma agrária vem sendo congeladas ao longo de todos esses mandatos. No entanto, o fascismo não deixa de crescer, e não apenas eleitoralmente. As milícias vêm agindo sem qualquer tipo de repressão específica para sua ação.
Um parêntese, sobre o crescimento da ultradireita
De fato, a atual dinâmica do capital não necessita mais manter as ilusões democráticas. Ao contrário, precisa de um Estado de guerra, para tornar os territórios disponíveis para a espoliação. A organização das cadeias flexíveis de acumulação em escala planetária conta com cada vez mais segmentos extraindo riquezas por despossessão, ainda que o destino dessas riquezas seja a acumulação do capital e os fundos de investimento se beneficiem delas. Não se trata da assim chamada “acumulação primitiva”, não se trata apenas da despossessão permanente das periferias, e nem sequer dos saltos discretos da espoliação próprios de momentos de superação de um modelo de acumulação por outro. Trata-se da aceleração do aumento e da intensificação da pilhagem necessário para compensar a queda tendencial da taxa média de lucro. A pilhagem só se sustenta com a violência e a cumplicidade dos segmentos das cadeias. A ação legal e ainda a ilegal das instituições do Estado e de sua mão sinistra, de organizações narcos e milicianas, que aplica o terror contra os territórios. Por outro lado, a posição dentro das cadeias de é disputada por grupos empresariais, e também por indivíduos trabalhadores para a pilhagem de sua própria força de trabalho, resignados à atual lógica do mercado de trabalho.
A queda livre das condições de vida em sociedades tão estratificadas como as de nosso continente faz com que, ainda em queda livre, as camadas melhor posicionadas queiram manter distância das imediatamente inferiores, com as que não querem se confundir. Pretendem manter a distinção, já que não podem manter as condições de vida. Isso é o caldo de cultivo para a fragmentação social e o ódio para com os debaixo, substrato de subjetividade fascista. As mulheres, as dissidências, os racializados são alvo preferencial dessa subjetividade agressiva.
E os governos progressistas…
Por outro lado, os governos progressistas, para assegurar sua governabilidade, aplicam, de maneira envergonhada, políticas que facilitam o extrativismo espoliador, argumentando que é desses grandes investimentos para extrair commodities de onde saem os recursos para as políticas sociais. Assim é que se alimenta o círculo vicioso: espoliação, expulsão dos territórios que gera miséria, políticas compensatórias da miséria. Isto é, os progressistas realizam aquilo para o qual o capital precisaria de governos fascistas, só que com discurso manso e amigável. É a isso que se referem eleitores que dizem que a direita é brutal, porém sincera, enquanto o progressismo age de maneira hipócrita.
E por fora da bolha eleitoral?
Porém, por fora da política institucional e as redes sociais, as comunidades vêm realizando retomadas e recuperações, de terras e de relações de solidariedade, com graus diferentes de autonomia. Sem barulho, ainda que permanentemente ameaçadas por pistoleiros. Para essas comunidades, não é a mesma coisa que o fascismo se sirva da totalidade dos recursos do Estado. Será muito difícil remontar tal derrota eleitoral do primeiro turno. Um governo de Flávio Bolsonaro é o governo dos pistoleiros, diretamente. As gentes precisam esquivar o radar de pistoleiros e governo. Se, por um acaso, Lula ganhar no segundo turno, a ultradireita encorajada agirá de maneira mais ampla e intensa, nas instituições e fora delas. Já estão ocorrendo uma série de atentados após o primeiro turno.
Vamos ter que agir com a sabedoria do quero-quero: gritar, para distrair o agressor, num lado, quando atacam o companheiro em outro. Até que o grito venha de tantos lados, que se torne ensurdecedor.
