Posted on: 24 de setembro de 2020 Posted by: Rafique Nasser Comments: 0

Este texto surge da necessidade de dialogar com todo o nosso povo – preto, originário, trabalhadores – que segue o caminho espiritual de Cristo.

Texto escrito por Rafique Nasser a partir de diálogos com o Pastor Isaías Cobra.

Jesus Cristo foi um jovem dedicado a um projeto revolucionário. Descontente com a forma como os poderosos agiam no seu tempo, rompeu a normatividade e a lei a fim de salvar vidas e construir comunidades. Seu legado se estende desde o seu nascimento, na Palestina, até às formas de interpretação de sua mensagem nos dias atuais. Sua história, infelizmente, foi manipulada por impérios, líderes e governos com valores similares aos que ele combateu em vida, interpretada ao gosto de homens religiosos que perpetraram socialmente atitudes e dogmas nocivos a um conjunto enorme de pessoas.

Jesus não escreveu uma linha em papel pois vivia em uma peregrinação constante, atendendo os órfãos e as viúvas, dialogando com os considerados pecaminosos, trocando saberes com aqueles considerados impuros em sua época. Era um jovem cuja trajetória se desenvolveu em Nazaré, um lugar de exclusão – “Nazaré? Pode vir alguma coisa boa de lá?” (João 1:46).

A sua moral: o Amor. A sua lei: o Amor. O seu fim: por Amor.

Destacando a experiência de Cristo – documentada, provavelmente, por alguns de seus discípulos – observamos o caminho de alguém que abdicou de quase tudo por uma causa coletiva. A nação judia, seu berço, vivia sob o jugo impiedoso de Roma e os sacerdotes se emaranhavam com a corrupção. A população era violentada por uma doutrina severa e os impostos da capital matavam de fome os mais pobres. Um cenário próximo com o que vivemos hoje no Brasil.

Os maiores responsáveis pela morte de Jesus, os saduceus, eram grandes proprietários de terra e, embora não se relacionassem diretamente com o povo, conduziam os sinédrio com mão de ferro. Intransigentes e intolerantes, a ordem pública era a bandeira que guiava suas atividades. Ordem para manutenção do sistema de exploração, é claro.

Após séculos de sua vinda, igrejas de variadas denominações dominaram o mundo e muitas mentes. Sob o seu nome reinos escravizaram pessoas, arrastaram outras para o julgamento, cometeram genocídios, exterminaram povos, criaram colônias. Mas, tendo em vista toda atuação de Cristo em prol da liberdade, realmente podemos confiar num cristianismo que barbarizou a história? Eu não acredito que Jesus navegaria numa caravela portuguesa, por exemplo.

Foi sobre esses eixos que eu troquei uma ideia com o Pastor Isaías Neto, conhecido como Cobra, um cineasta e missionário que tem como objetivo propagar a palavra do evangelho libertário, em contramão ao discurso de líderes religiosos de megadenominações – a quem chama de fariseus, em referência ao conjunto de homens que pediram a cabeça de Cristo ao poder imperial.

Cobra tem passado a quarentena em casa, com suas filhas e companheira. No quintal, o tanque de 1000l onde ele realiza batismo – conforme fazia o profeta João Batista, sobre o qual falaremos mais à frente – e árvores frutíferas. Um terreiro largo onde ele, enquanto trabalha, reflete sobre sua experiência de fé e luta.

Isaías Neto, o nosso querido Pr. Cobra, é missionário de formação com atuação na América Latina. Na juventude contribuiu junto ao MST na luta pela terra. Cobra acredita que o projeto de Jesus se baseia em excluir as desigualdades do mundo e que sua mensagem representa um conflito direto contra os poderosos.

Quando falamos de um pastor, logo lembramos de alguém vestindo um terno, gravata, calçando sapatos sociais e falando alto – pedindo dízimo na televisão ou pregando energicamente contra minorias. Cobra é o contrário. Quem o vê na rua, tatuado, usando um chapéuzinho, não o liga à fé em Cristo de primeira vista. Confesso que, mesmo tendo o conhecido em 2017, no processo de produção de um disco, só descobri sobre seu pastorado mais ou menos um ano depois.

Logo quando começamos, veio o aviso: “A minha troca de ideia é assim, eu sou povo e só posso falar como povo. Não vou ficar citando autores, quase não lembro datas”. Cobra, como o seu mestre central, Yehoshua, é um homem da oralidade. Gosta de olhar nos olhos, se emocionar, conversar, como ficou demonstrado na live que fizemos com ele no canal Diálogos com os Povos.

Entre intervenções de Amaya, filha do pastor, nós conversamos sobre como toda experiência está localizada em um tempo e em um espaço submetido a condições políticas, históricas e sociais. Assim, a vida e vinda de Jesus não é diferente. Nascido em uma comunidade onde se concentravam movimentos contrários ao poder de Roma, o jovem palestino fez a escolha de atuar em favor dos oprimidos, dos considerados menos capazes de alcançar a Deus, dos desprezados pelo poder.

Em vez de seguir o caminho estabelecido, do julgamento pela dura lei, direcionou sua energia contra aqueles a quem, de fato, escravizava o povo: os próprios sacerdotes, servos do governo central dominante. Jesus foi combativo, e ensinou com a prática aos seus discípulos. Não somente pregue contra a fome mas alimente.

Na verdade, para o pastor Isaías, os escritos bíblicos são repletos de trajetórias insurgentes com as de Cristo. Os reis odiavam os profetas, assim como os ricos de hoje odeiam aqueles que querem mudar a estrutura. Pessoas comprometidas com a libertação do povo eram trancadas, jogadas aos leões, escalpeladas, e, enfim, crucificadas.

Atualmente, o que se reflete nas igrejas cristãs foge do entendimento deste Jesus e destes profetas comprometidos com a política. A experiência espiritual, transcendente, supera, nos discursos, e até mesmo torna invisível, o esforço concreto daqueles que iam ter com os reis, organizavam o povo em marcha contra escravizações, e uniam a oração aos seus com a ação para melhorar suas vidas terrenas. A quem interessa o apagamento da história política de Cristo e de seus antecessores?

Cobra me diz, logo no começo do papo, que, se a gente fizer uma exegese bíblica – um estudo de textos – veremos que o carnal não se separa do espiritual. O povo se enche do espírito, mas no final do sermão da montanha os discípulos identificaram que a multidão estava faminta, daí Jesus resolve a situação gerando comida. O que tem dito a Teia? É preciso fazer nascer o alimento cheio de ancestralidade, espiritualidade, para alimentar o povo.

Poderá parecer ao leitor muito estranho o que ouvi do pastor e compartilho contigo: Jesus tinha partido. Naturalmente, não advogava em uma organização parecida com as que vemos atualmente. Seu partido era o dever para com os órfãos e as viúvas, os flagelados de sua terra. Se os que seguem a Cristo têm o dever de agir como ele, então esse deveria ser o partido de todos os cristãos.

Me pergunto, depois de conversar durante três horas com Cobra, se Jesus poderia se sentar à mesa dos líderes evangélicos em suas convenções ou se ensinaria, como fez Edir Macedo, técnicas para envolver emocionalmente os fiéis, a fim de convencê-los a lhe entregar uma parte de seu salário – na maioria das vezes tão pouco.

Reflitamos juntos. Será que Jesus, com toda a sua profundidade espiritual, apoiaria a construção de um templo imenso, como o Templo de Salomão da IURD, enquanto muitos de sua terra não têm habitação?

Os líderes da estrutura religiosa que se denomina cristã, esses rostos conhecidos do tele-evangelismo brasileiro, não podem fazer multiplicar os pães e os peixinhos, pois estão dedicados ao roubo da fonte de alimento do povo – não apenas quando extraem o dinheiro diretamente, mas quando apoiam e conduzem os seus à apoiarem projetos políticos cujo objetivo é, simplesmente, fazer com que os trabalhadores sofram ainda mais.

“Vinde a mim todos os que estão cansados e sobrecarregados, eu vos aliviarei” (Mateus 11:28), disse o mestre. Quem são os cansados e sobrecarregados dos nossos dias senão os trabalhadores, o povo preto que sofre historicamente com as chagas do racismo e da escravidão nunca abolida verdadeiramente, os camponeses atacados pelo agronegócio, os índigenas cujas terras foram roubadas, os LGBTQIa+?

O povo do evangelho, caso queira seguir Cristo de fato, quererá aliviar os que sofrem, não fustigá-los ainda mais. Há uma tarefa deixada por Jesus aos seus. O Ide envolve o cuidado, a vida comunitária e, sobretudo, o amor ao próximo. Que a raiva seja destinada à direção apontada pelo próprio mestre – aos vendilhões do templo.

Como uma árvore ruim não pode dar bons frutos, percebemos facilmente quem são os maus. Espiritualidade e aproximação com o divino requerem necessariamente que sejamos livres para alcançá-las. Quem atrapalha a autonomia das pessoas? Aqueles que vieram para roubar, matar e destruir. Roubar a liberdade e a capacidade de libertação. Matar os sonhos. Destruir a vida coletiva, ensinada por Jesus, que podemos constituir.

II

Para falar de Jesus Cristo, temos que falar antes de João Batista.

Falar de João Batista é falar de uma escolha pela radicalidade, de uma convocação à ruptura. Assim como os grandes revolucionários conhecidos por nós , Batista via que a estrutura dominante de sua época precisava vir abaixo para que o povo sobrevivesse.

O terceiro capítulo do primeiro livro do evangelho, Mateus, é claro quanto a isso quando diz no décimo versículo que “o machado já está posto na raiz das árvores. E toda árvore que não der bom fruto, será cortada e jogada no fogo”. Antes, no sétimo versículo, ele aponta quem são os maus frutos. “Quando viu muitos fariseus e saduceus vindo para o batismo, João disse-lhes: Raça de cobras venenosas, quem lhes ensinou a fugir da ira que vai chegar?”.

Portanto, o início deste ministério aponta um caminho: O da não conciliação. Os interesses das elites são o oposto direto dos interesses do povo. Daí, vem um princípio central que guiará o caminhar de Cristo. A justiça. À sua comunidade, Jesus dispensava amor, cura, ajuntamento. Aos vendilhões do templo, aos sacerdotes estabelecidos, expunham as vísceras de suas perversidades.

A política conciliatória orquestrada pelos saduceus na Palestina era um problema enorme para aquela comunidade. Com receio de perderem seus cargos e ocupações, suas posições na condução da exploração, procuravam abafar qualquer possibilidade de revolta. A religião, para eles, devia ser orientada somente pela lei escrita.

O batismo de João se tornou um símbolo de revolução. Morrer para o mundo dado, renascer para a construção de uma terra nova. Vê, o que pregava aquele profeta do deserto senão tudo o que envolve o abandono das velhas práticas? A ganância, o poder, o autoritarismo, a alienação religiosa liderada por falsos servos de Deus – Nada disso poderia entrar nos novos planos. Como diz o pastor Cobra, o projeto do Evangelho é antagônico às intenções do capitalismo.

Precisamos – nós que crescemos aprendendo o Pai-Nosso a partir de nossas avós, que fomos levados à catequese e à escola bíblica, aos que decidiram conhecer Jesus como uma forma de aliviar suas dores, de reorientar o modo de vida – combater o bom combate (2 Timóteo 4:7-8). Para fazer o trabalho, precisamos mapear os inimigos.

Enquanto líderes religiosos e políticos que se dizem cristãos – e o são, de fato, se pensarmos a história disso que se denominou cristianismo – induzem nossa gente à ilusão de que os oprimidos do nosso contexto são os inimigos do povo de Deus, precisamos garantir que essa mentira diabólica – como define o Pr. Isaías – seja desfeita. Reafirmar nunca é demais: Cristo veio para os pequeninos. “Feliz os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados” (Mateus 5:6).

Logo no quinto capítulo de Mateus temos o cenário do Sermão da montanha, o que nos diz que a pregação de João Batista tem um efeito direto na assembleia que definiu o programa de Cristo.

A verdadeira igreja, depositada em Pedro, que constituiu comunidades, é aquela que serve para fortalecer os enfraquecidos. Em Hebreus, capítulo doze, versículo doze, essa missão estava dada. “Sendo assim, fortalecei as mãos enfraquecidas e os joelhos vacilantes”. Portanto, vamos nos fortalecer e fazer valer o ide. Chorar com os que choram, nos alegrar com os que se alegram (Romanos, 12:15). Lutar junto aos pequeninos protegidos por Cristo, por quem ele de verbo – promessa – se fez carne.

Aos militantes: façamos dos nossos companheiros de luta nossos irmãos e irmãs, nossa família (Mateus 12: 46-50).

Não ao cristianismo das caravelas, da homofobia, do ataque às minorias, da ilusão, da legitimação do fascismo do roubo de nossas provisões e potências! Pelos ensinamentos do Jesus palestino – Palestina essa que ainda hoje sofre nas mãos do império.

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