por Ane Xukuru
Esse texto é o prefácio à edição brasileira de As soluções já estão aqui: estratégias para a revolução ecológica vindas de baixo de Peter Gelderloos. Você pode comprar o livro através desse link.
A chamada crise ecológica, longe de ser um evento estritamente ambiental, é, na verdade, resultado de uma série de violências impetradas ao planeta terra nos últimos séculos, com raízes que se entrelaçam profundamente ao modelo de produção capitalista. Esta crise é, na verdade, uma crise de justiça, exploração e desigualdade que segue rumando para um “ponto de não retorno”, pois sob o capitalismo. No entanto, apesar de parecerem óbvias essas associações, às vezes, e com muita frequência, ouvimos um argumento particularmente convincente ao senso comum, o de que seria possível algum tipo de justiça ambiental ante o mesmo sistema que condena a todos às catástrofes diversas, principalmente os mais pobres, em nome do lucro. As soluções propostas por governos e corporações não dão conta de resolver, e, em muitos casos, sequer de mitigar a avassaladora destruição ambiental que presenciamos em nosso tempo histórico.
Em As soluções já estão aqui: estratégias para a revolução ecológica vindas de baixo, Peter Gelderloos mergulha nas complexidades dessa crise e enuncia que as saídas de emergência dela não são aquelas organizadas pelos bancos, pelas grandes corporações ou mesmo pelos Estados-nações, residem nos trabalhos rebeldes, contínuos e comunitários de uma diversidade de povos que protagonizam lutas por terra e território, os quais que ressoam no mundo inteiro. O desafio proposto, considerando a gravidade de nossa situação, é de nos mantermos otimistas, esperançosos e, sobretudo, dispostos a nos implicar em tentativas de re-encantamento do planeta por meio dos diferentes exemplos que ele conheceu e que nos apresenta como caminhos possíveis.
Com o enorme aumento do dióxido de carbono atmosférico, o aquecimento global e suas consequências — como as virulentas tempestades que já vivenciamos, as inundações, as secas severas e os incêndios florestais — são apenas a ponta do enorme iceberg que nos cerca. Enquanto a desertificação avança e os oceanos acidificam e perdem oxigênio, a diversidade de espécies despenca a taxas alarmantes, com mais de um milhão delas sob risco de extinção. Nenhum destes fenômenos, contudo, são acidentes isolados, mas sintomas de um sistema violentador, que tem como mote a acumulação infinita em um planeta finito, transformando diversas áreas em “zonas mortas” — ecossistemas devastados pela mineração, agricultura industrial e poluição química.
O que são as minas a céu aberto no Deserto do Atacama? Ou a Sierra Minera de Cartagena? E as minas da Vale na floresta nacional de Carajás, em Parauapebas, no Pará? Quais são os fins, não as finalidades, destes ambientes destroçados que ilustram a brutalidade da extração capitalista, que esgota recursos hídricos e deixa paisagens inóspitas à vida?
As respostas institucionais são falaciosas, ineficazes e, muitas vezes, cúmplices. Isto é, inventam mirabolantes encontros como a COP ou realizam acordos como o de Paris e diversas outras iniciativas para fingir que se importam, quando, na realidade, suas simples presenças sabotam a possibilidade de futuro na terra. Na prática, impedem que os povos se organizem e se orientem mediante seus próprios saberes e modos de vida, assaltam nossos territórios, violentam nossos povos, expropriam o fruto do trabalho milenar da construção das florestas, erguidas pelo apoio mútuo e pelas relações de cuidado entre os seres vivos e imateriais, habitantes destes lugares.
O reducionismo nos discursos governamentais e as soluções do mercado são praticamente “propagandas publicitárias” que não resultam em enfrentamentos reais à crise que vivemos. O surgimento de projetos de “bioeconomia” e de “economia verde” são frequentemente apenas novas roupagens para a expansão do capital sobre comunidades e territórios, perpetuando a exploração e a degradação ambiental sob um verniz de sustentabilidade. Como é possível acreditar que ONGS ambientalistas financiadas por grandes corporações têm soluções para a crise climática, mas o povo Pataxó, que segue sendo assassinado pela milícia agrária em seu território sagrado no extremo sul da Bahia, não tem? Como podemos confiar nas narrativas de greenwashing, que apenas desviam nossa atenção para continuar silenciando as violências nas disputas por território? A resistência a essas falsas soluções não deve se dar unicamente na denúncia de seus mecanismos, mas também na construção de alternativas reais, baseadas na autonomia e na autodeterminação dos povos.
Gelderloos nos oferece esperança, anima quem luta, e, como um chaski inca, nos anuncia boas novas:, nos mostra a imensa onda revolucionária já existente em diversas partes do mundo ao nos apresentar suas lutas. A exemplo dos povos Dayak Tomun e Tamambaloh na Indonésia, que enfrentam a devastação com ações diretas e luta popular, e o povo Sámi, no norte da Europa, que defendem suas terras e tradições contra projetos extrativistas colonizadores. A ZAD, na França, e os movimentos de defesa florestal na Alemanha, que evidenciam a valentia de ocupações, que se utilizam de táticas diversas para barrar infraestruturas ecocidas. No México, o povo de Oaxaca resiste aos parques eólicos industriais, inspirando profundamente as lutas na caatinga brasileira, que vem sendo espezinhada com a investida final do capitalismo extrativista, pois deseja roubar aquilo que a região tem em abundância: sol e vento. Ao mesmo tempo, os Mapuche no Chile e os Maxakali no Brasil, juntamente com a Teia dos Povos, replantam florestas nativas em um ato de criação de soberania contra as monoculturas. Todos estes exemplos são, efetivamente, lutas históricas já conhecidas, sobretudo na América Latina, em defesa da diversidade da vida na terra. Eles servem como inspirações, que, graças às interações com outras regiões do mundo, estimulam uma florescente capacidade de readaptação e inovação, fazendo do velho novo, para construção de ecossistemas de revolta na luta pela vida.
Essas lutas, muitas vezes apagadas e tidas como insignificantes, são a legítima esperança para a mãe terra. Se caracterizam pela independência estrutural dos órgãos responsáveis pelo ecocídio, pela experiência de forçar o Estado a recuar, pelo acesso a fundamentos específicos, pela propensão de romper barreiras, pois criam, com isso, uma aliança global que resiste a todas as formas de opressão no ato de compartilhar saberes. A territorialidade, o ecocentrismo, a sobrevivência, a ilegalidade, o caráter comunitário, a heterogeneidade, a interseccionalidade, o anticolonialismo e a autonomia são pilares dessas resistências, pois sabemos que parte substancial dos lutadores e das lutadoras contra o capitalismo e a favor do território não se organizam mais apenas pelas suas categorias de trabalho, mas também pelos povos quais pertencem e/ou defendem.
Podemos dizer que as comunidades indígenas, quilombolas e campesinas são a linha de frente desta resistência. Nossas lutas não são apenas pela posse da terra ou pelo direito de produzir e trabalhar, mas, acima de tudo, pela manutenção de modos de vida que são naturalmente opostos à lógica globalista do capital. Nós defendemos a soberania alimentar e a cura ecológica, ao mesmo tempo, protegemos nossos territórios, pois são “espaços” de vida, em diversidade e reprodução cultural. Aqui em Xukuru do Ororubá, fortemente inspirados no Limolaygo Toype, o modo de vida dos velhos, uma filosofia nos lembra que não vivemos sós, apenas nós, os humanos, mas toda uma diversidade de seres que dependem de uma relação de equilíbrio para o bem viver em abundância, para produzir, comer e curar, a nós,os nossos espíritos e todos os seres não humanos.
No contexto indonésio, os povos Dayak Tomun e Dayak Tamambaloh resistem à expansão das plantações de óleo de palma, que devastam florestas e liberam milhões de toneladas de dióxido de carbono. Suas ações diretas, como a apreensão de equipamentos pesados e o bloqueio de estradas, demonstram a eficácia da resistência de base contra o aparato de poder corporativo e estatal. Essas lutas são intrinsecamente anticapitalistas, pois, ao defendermos nossos territórios e modos de vida, tentamos tornar impossível a continuidade do ecocídio em escala global. Por outro lado, as terras no Brasil estão intrinsecamente ligadas à história da concentração fundiária: 70% das terras agricultáveis atualmente estão sob controle do agronegócio, enquanto a agricultura familiar e camponesa concentram apenas 30% das terras. A desigualdade é brutal! Ela expõe a lógica perversa do capitalismo dependente, que desterritorializa populações inteiras para alimentar um “exército industrial de reserva”.
Quando o As soluções já estão aqui foi lançado, em 2022, enfrentávamos as milhares de mortes em decorrência da pandemia de COVID-19, e, naquele momento, apenas conseguimos pensar no que iria acontecer conosco. Este livro nos convida a imaginar um mundo livre da estrutura hierárquica que se organiza através da exploração, em que as relações com os territórios são constantemente renovadas e as necessidades ecológicas são prioridade. As experiências de comunidades autossuficientes, que quebram com a lógica da propriedade intelectual e alteram recursos, se organizando de forma horizontal, em solidariedade, apontam um caminho a ser trilhado em uma tentativa de transmutação total da existência humana, sem o capitalismo. É uma semente que germina por intermédio de práticas reais de construção de poder comunitário popular, não de ideias e utopias, em que a defesa dos territórios em seus modos de vida únicos correm o mundo irradiando as lutas de base, que redefinem o possível da transformação global.
