Posted on: 17 de março de 2021 Posted by: Teia dos Povos Comments: 0

Nas Cozinhas Comunitárias de Uberlândia (MG) é preparado um alimento vital para nosso movimento, com o qual nossa luta se nutre e se fortalece.
O que sai das panelas no fogão é a imprescindível aliança entre os sem terra e os sem teto, entre os assentamentos rurais e as ocupações nas periferias urbanas, entre o pequeno agricultor familiar e as grandes massas sobrevivendo na miséria.
Uma logística capaz de dar sustento tanto à população em condição de rua como a trabalhadores em movimentos grevistas.
O estimulante cheiro da comida não só abre nosso apetite, principalmente nos impede de esquecer que apenas avançaremos acompanhados de soberania alimentar.

Cozinhas de alianças e solidariedade

Sou o Jairo dos Santos Ferreira.

Faço parte da Coordenação Nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST). Estou também na Coordenação Estadual do Movimento. Moro na Ocupação Fidel Castro, em Uberlândia (MG).

Queria relatar um pouco dessas estratégias de resistência, que surgiram e foram elaboradas aí no decorrer desse momento difícil, desse momento dramático para o nosso povo, que tem sido a pandemia.

Essa pandemia que coaduna nela uma crise sanitária e uma crise econômica. E que é intensificada, adensada, por uma radicalização do neoliberalismo. Proposto e executado por um governo proto-fascista, um governo ultraliberal.

O MTST tem em Minas Gerais algumas ocupações de perfis muito distintos.

Então tem a Ocupação Beira Rio que fica no município de Fronteira, no limite com o Estado de São Paulo. É uma ocupação periurbana, com 138 famílias.

Tem núcleo urbano adensado, mas ela também tem áreas de produção rural. Onde a gente trabalha uma nova concepção de ocupação urbana, em cidades menores.

Imaginando que a urbanidade é algo que está além da configuração territorial, e que a ruralidade também não se detém somente ao uso e a destinação do solo.

A gente pode ter então arranjos produtivos dentro de ocupações urbanas, principalmente essas ocupações periurbanas de cidades menores.

Então tem essa experiência bacana em Fronteira (MG).

Lá a gente estruturou as feiras da agricultura familiar e também as cestas básicas que são distribuídas para moradores da periferia.

Trabalhamos com uma iniciativa muito interessante de resistência neste período de pandemia, que é tratar da segurança alimentar nas ocupações urbanas em bairros periféricos.

Em Uberlândia construímos cozinhas solidárias. São cozinhas comunitárias que bebem muito na experiência dos movimentos de combate à fome da década de 1990.

Estão construídas cozinhas solidárias nas ocupações Maná, Fidel Castro, Santa Clara e Glória.

E o que a gente tem notado? A cozinha solidária tem sido uma iniciativa que integra a luta dos povos do campo e dos povos da cidade.

E começa a diluir essa barreira fictícia, elaborada entre as lutas.

No decorrer da implementação das cozinhas, se produz uma integração entre a resistência dos movimentos de luta pela reforma agrária e a resistência na produção dos territórios urbanos do MTST, do movimento de luta pela reforma urbana popular.

A cozinha funciona com a articulação da produção rural, dos assentamentos de luta pela terra, e a ação de voluntárias na produção de marmitas, de refeições prontas, nas áreas periféricas de Uberlândia, Montes Claros, Diamantina, Contagem, Ituiutabá, Frutal. Cidades em que hoje a gente tem cozinhas solidárias.

As cozinhas solidárias tem esse eixo de articulação muito importante, a produção agroecológica de alimentos junto com essa vertente de trabalho da economia solidária, que são produção das marmitas, das quentinhas para alimentar a população de rua e a população de baixa renda nas periferias.

Isso tem dado um sentido, quando a gente começa a rememorar os instantes da ocupação, quando a gente está começando a nossa entrada e consolidação nos territórios.

Faz a gente relembrar essa história viva da luta nos territórios, porque toda ocupação começa com cozinhas comunitárias, com cozinhas coletivas.

Então, as cozinhas solidárias, que é uma iniciativa da MTST em todo o Brasil, tem conseguido também promover esse rememorar do início da luta nesses territórios periféricos.

Então colocaria também a importância do MTST estar trabalhando na articulação com diversos movimentos sociais, pensando que a conformação de uma frente política se dá mais na prática.

Ela é muito mais um arranjo de enfrentamento do que uma produção discursiva.

Por exemplo, temos articulado o MST (Movimento Sem Terra), a CMP (Central dos Movimentos Populares), a CUT (Central Única dos Trabalhadores), e diversas outras instituições, organizações, que tem se articulado em torno dessa iniciativa de produção e distribuição de alimentos.

Para se ter uma idéia, o Sindicato dos Eletricitários tem nos ajudado com a doação de gás. O Sindicato dos Professores tem nos ajudado com o combustível. O Sindicato dos Técnicos da Universidade Federal de Uberlândia nos ajuda com as marmitas, os vasilhames.

O MTST articula as cozinheiras, os cozinheiros, as companheiras nos territórios para produção desses alimentos prontos.

A CMP tem contribuído muito na ajuda da formação através de uma cartilha com um programa de saúde popular, com defesa do SUS. E também no acompanhamento das ações da cozinha.

O MST, e outros movimentos de luta pela terra, cooperativas de pequenos produtores, tem nos ajudado muito com doação de alimentos. E fazemos também aquisição de alimentos desses produtores

A CPT (Comissão Pastoral da Terra) tem ajudado muito como agente articuladora de todas essas entidades, e promotora desse trabalho bonito das cozinhas solidárias.

A resistência que se dá nos nossos territórios vem muito dessas iniciativas de autogestão. E que começam a produzir elementos de auto-organização das comunidades.

A cozinha solidária tem elementos firmes dessa emancipação que a gente propõe para o futuro, porque ali começa a se gerar a coletividade que a gente tanto precisa para construir novas etapas da luta social no país.

É uma iniciativa de combate à fome, é uma iniciativa de combate à insegurança alimentar, mas também é uma iniciativa de articulação em rede desses diversos movimentos sociais, dessas forças vivas da sociedade que pretendem e promovem a segurança alimentar nas áreas periféricas.

A cozinha virou também um centro de produção e de acesso ao direito. Na cozinha se tem a orientação jurídica, na cozinha se tem também trabalhos de prevenção à violência contra a mulher.

Acho que Minas Gerais tem isso na sua conformação, na sua história, que a cozinha é a parte mais importante da casa. Então, a gente resolveu pensar que a cozinha é a parte mais importante de uma comunidade.

E ali vai se conformando, uma resistência feminina. Essas mulheres além de cumprirem essa tarefa importante da solidariedade, também passam por experiências de empoderamento. Uma vez que elas se tornam referências comunitárias. E isso tem sido muito pra nós.

A cozinha nasce também com iniciativas de hortas comunitárias nas ocupações urbanas. Isso vai sendo feito pouco a pouco.

Então queria deixar aqui o relato. E agradecer por contar com essa experiência de divulgação, troca, partilha. E receber também informações de outras iniciativas de resistência e promoção da luta do povo nesse momento tão difícil.

Fé na luta! Venceremos! Seguindo em frente!

Ver também:

As cozinhas solidárias do MTST: refeições gratuitas e afeto nas periferias do Brasil – MTST

Cozinhas comunitárias do MTST: solidariedade, alimentação e resistência durante a pandemia


Por que eu quis ajudar a manifestação dos motoristas?
Dona Cida, da Ocupação Maná.
Porque nós precisamos unir com eles. Quando eu vi essa greve, eu falei pro Arthur: “Eu quero ajudar!”
Se não fosse essa pandemia, a gente ia lá também fazer greve junto com eles, fazer manifestação junto com eles.
Quando eles verem que a gente da comunidade está ajudando, ele vão se sentir importantes, né?
Então, eu também não gosto de injustiça. Todos nós devemos ser tratado igual.
Tôu na luta há 1 ano. Com 250 marmitas, de segunda a sexta. E ajudo com alimento, ajudo com verdura, corro atrás de remédio pro povo. E é 24 horas a minha cozinha aberta. Tôu aqui na luta.
Tôu nesse movimento prá ajudar, para fazer a diferença do povo. Para que todo mundo seja igual. né? Todo mundo tenha igualdade, porque hoje nós estamos num Brasil muito ruim.



O que me emociona neste trabalho?
Cida, da Ocupação Santa Clara
Olha, prá ser honesta tem muita coisa que me incentivou, que me deixa orgulhosa.
Como? As pessoas todos os dias sabem que naquele horário, elas tem comida prá comer. É só ir na casa da Cida que elas tem comida, doação de roupas.
Então é uma coisa que me deixa muito orgulhosa de fazer.
E surpresa, pessoas que bebiam muito e conversando estão parando de beber. Tão andando mais bem arrumadinho, não estão tão sujos.
Muda. É falta de carinho, né? De alguém que desse atenção prá eles. E eu dou atenção, eu dou carinho. Eu converso.
Fico emocionada em ver as crianças que vem buscar a marmita. Tudo de máscara. Mantendo distância da outra.
As senhorinhas de idade que vem de longe prá me ver. Aparecem aqui fora de hora prá tomar um café. Prá conversar. Como se eu fizesse parte da vida delas. Como se eu fosse parte da família.
Isso é muito emocionante. Me dá prazer. Não faço mais porque eu não tenho como, porque se tivesse eu faria.



Cacica Kawany, da Cozinha Solidária do Glória.
Neste tempo de pandemia o que estamos vivendo não é fácil. Há muitas pessoas e famílias passando necessidade.
A pior coisa na vida é você olhar para os lados, e não ter pelo ao menos um pedaço de pão para matar a fome dos filhos.
Eu já vivi isso com os meus filhos quando pequenos. Sei muito bem o que é a fome.
Estou muito feliz de todos os dias, juntamente com as nossas voluntárias, fazer estas refeições prá distribuir com a nossa comunidade.
É maravilhoso ver as crianças com os olhares de satisfação, vendo a mãe ou o pai levando as marmitas prá casa prá encher as barriguinhas.
GRATIDÃO! GRATIDÃO a todos que contribuem prá esta cozinha solidária funcionar.



Um tempero diferente: a greve dos motoristas
Por Arthur de Melo Sá.

Ao longo da semana, do dia 08 a 12/03/2021, foi possível organizar uma grande frente para garantir a segurança alimentar dos rodoviários em greve.

Participaram dessa frente: Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Central de Movimentos Populares do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba (CMP), Comissão Pastoral da Terra (CPT), Sindicato dos Trabalhadores Técnico-Administrativos em Instituições Federais de Ensino Superior de Uberlândia (SINTET), o Coletivo dos Atingidos pelo Coronavírus em Uberlândia, os gabinetes das vereadoras Dandara Tonantzin (PT), Amanda Gondim (PDT) e Cláudia Guerra (PDT) e movimentos estudantis, como o Centro Acadêmico do curso de história da UFU.

A Teia dos Povos contribuiu com a articulação dessa frente, em uma aliança de solidariedade entre campo e cidade, para que fossem entregues mais de 300 refeições, assim como doações de legumes e verduras, fruto de cultivo agroflorestal nos assentamentos do MST, e de cestas básicas.

O objetivo dessa frente de solidariedade é garantir a segurança alimentar das famílias atacadas pelos oligarcas e pelo estado e deixados à própria sorte pelo sindicato.

E através dessas ações conseguimos garantir que 60 famílias não ficassem entregues à fome a ao desespero, o que possibilitou que a luta se estendesse.

É importante destacar que a efetividade dessa frente foi possível graças à atuação das cozinhas comunitárias, organizadas por MTST, CMP e CPT, e dos assentamentos rurais organizados pelo MST.

O projeto das cozinhas comunitárias começou em 2020, diante do avanço da covid-19 e do descaso do estado em todos os seus níveis em relação à população.

Os movimentos de luta popular conseguiram construir ao todo seis cozinhas comunitárias, sendo que cinco delas ficavam dentro das próprias comunidades: as ocupações Santa Clara, Maná, Fidel Castro, Glória e Dom Almir.

Havia ainda uma cozinha na sede da CMP que atendia as ocupações Bela Vista, Irmã Dulce e Canaã.

Ao longo de 2020, as cozinhas produziam ao todo mais de 2000 refeições por dia. E boa parte dos alimentos que recebiam eram fruto de doações de institutos, sindicatos, movimentos e partidos de esquerda.

Aqui também se via a atuação dos assentamentos do MST: Emiliano Zapata, Flávia Nunes, Eldorado dos Carajás, Canudos e Florestan Fernandes.

Esses assentamentos garantiam o estoque de legumes, verduras e frutas das cozinhas comunitárias. É importante destacar que esses assentamentos têm toda sua produção em sistemas agroflorestais.

Nesse sentido, além de contribuir com a segurança alimentar, é possível levar alimento saudável e sem nenhum tipo de veneno para as mesas de moradores das ocupações e das grevistas, dos grevistas e de suas famílias.

Neste ponto gostaria de destacar o papel de uma das responsáveis pelas refeições: Dona Cida, que coordena a cozinha da ocupação Maná.

A Dona Cida mora na ocupação Maná em uma casa erguida com a ajuda do pai, Seu Zezinho. Ela lutou muito para conquistar seu terreno e construir a casa. Com ela moram o esposo, as filhas e netos. E todos os dias ela recebe outras crianças da ocupação, que precisam de cuidados enquanto pais, mães e responsáveis saem para trabalhar.

Em 2020, a Dona Cida se prontificou a coordenar uma cozinha comunitária no Maná.

Através da arrecadação de materiais de construção e alimentos, foi possível construir a cozinha comunitária na parte da frente do terreno onde mora. Desde então, todos os dias Dona Cida e diversas voluntárias que também moram no Maná cozinham o almoço de pelo menos 200 pessoas.

No sábado, dia 06/03, ao saber da situação das grevistas e dos grevistas, a própria Cida se prontificou a preparar as refeições. A frente de solidariedade ainda nem havia sido organizada, e Dona Cida já estava contribuindo para a construção autônoma e solidária da segurança alimentar de motoristas em greve.

Dona Cida é o coração e a força na construção da luta autônoma por território e por uma vida digna na ocupação Maná.

E, nos momentos de crise, Dona Cida esteve e está junto das motoristas e dos motoristas em greve, lutando em solidariedade contra o capital e contra o estado.


A função da comunicação
O movimento das Cozinhas Comunitárias de Uberlândia utiliza um interessante recurso de registro: vídeos curtos armazenados na plataforma TikTok.
Documentar nossas lutas é vital para os movimentos, por 3 motivos principais:
– sem o registro, em texto ou áudio-visual, é como se nada houvesse ocorrido;
– funciona também como uma retro-alimentação das lutas, fortalecendo o próprio movimento;
– através de sua divulgação, serve como exemplo inspirador para outros movimentos.
Os vídeos podem ser acessados aqui.

vídeo: D. CidaOcupação Maná
A Luta continua! Contra a doença, contra a morte, contra a fome!



sobre Caminhar para a Autonomia:

  • aborda casos concretos de comunidades e territórios com lutas e experiências em seu processo de conquistar autonomias;
  • um passo além dos Diários da Pandemia, até mesmo porque muito embora a pandemia prossiga é impositivo florescer territórios para além dela;
  • envolve também um diálogo com o livro “Por Terra e Território: os Caminhos da Revolução dos Povos no Brasil”, com as caminhadas que este propõe, para divulgar não só situações já existentes como aquelas que surjam a partir de sua leitura.

acesse a série completa: aqui


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