Posted on: 3 de agosto de 2026 Posted by: Teia dos Povos Comments: 0

Com a bênção dos nossos mais velhos e das nossas mais velhas.

Dos mais velhos do que os nossos mais velhos.

Com a força daqueles que caminharam antes de nós e seguem vivos nas montanhas, nas águas, nas matas, nas sementes e na memória dos povos.

Em respeito à mãe terra (Nhandecy), que tudo sustenta.

Em respeito ao Sol (Nhamandu), que tudo ilumina.

Em respeito ao Ara Pyau, tempo de renovação do povo Guarani Mbya, quando a vida recomeça em sintonia com os ciclos da Terra.

Em respeito à Mata Atlântica, aos rios, às nascentes, aos animais, às plantas medicinais e aos espíritos que guardam este território.

Falamos desde a Tekoá Tava’í, território Guarani Mbya, onde aprendemos mais uma vez que sem território não existe modo de viver.

Aqui, onde a reza continua viva.

Onde as crianças aprendem com os anciãos.

Onde a floresta ainda ensina.

Onde a Terra continua sendo mãe e não mercadoria.

Foi neste território que, entre os dias 24 e 26 de julho de 2026, povos indígenas, quilombolas, comunidades de terreiro, camponesas, ocupações urbanas, coletivos populares, guardiões de sementes, educadores, juventudes e demais comunidades em luta se encontraram para realizar a 1ª Pré-Jornada de Agroecologia da Teia dos Povos em Luta de Santa Catarina.

Viemos de diferentes histórias, mas carregamos uma mesma memória. Antes de sermos separados pelas cercas, pelas fronteiras, pelo racismo, pelo latifúndio e pelo capitalismo, já éramos povos da mesma terra. Nossa ancestralidade nos ensina que a vida não se sustenta na competição, mas na reciprocidade; não no lucro, mas no cuidado; não na mercadoria, mas na comunidade.

Realizar esta Pré-Jornada dentro de uma Tekoá Guarani Mbya possui um profundo significado político. O lema que orientou nosso encontro — “Sem Tekoá, não há Tekó” — nos lembra que não existe cultura sem território, não existe espiritualidade sem floresta, não existe autonomia sem terra, nem futuro para os povos quando seus modos de vida são destruídos.

A emergência climática, o avanço do agronegócio, da mineração, dos grandes empreendimentos e da especulação sobre os territórios revelam que o capital continua sua guerra contra os povos e contra a natureza. Enquanto transforma rios em mercadoria, florestas em monocultivos e sementes em propriedade privada, multiplica a fome, a violência e a expropriação.

É diante desse cenário que reafirmamos a construção da Teia dos Povos em Santa Catarina como uma aliança entre territórios em luta da cidade, do campo, das águas e das florestas. Surgimos para demonstrar que, apesar do avanço do fascismo em nosso estado, Santa Catarina é um estado combativo e de luta, que acumula tradições de resistência ao mesmo tempo em que gesta novos enfrentamentos e formas organizativas. Vimos provar que nosso estado pertence aos territórios e ao povo organizado. Somos uma articulação política que nasce das comunidades, das retomadas, dos quilombos, das aldeias, dos assentamentos, das ocupações e dos espaços onde o povo organiza sua própria sobrevivência. 

Durante estes dias compartilhamos experiências, escutamos nossos mais velhos, fortalecemos a juventude e as crianças, celebramos a espiritualidade, construímos alianças e reconhecemos que nossa principal força está na capacidade de caminharmos juntos.

Assumimos o compromisso de fortalecer permanentemente a Rede de Sementes da Teia dos Povos em Santa Catarina, ampliando a produção, a multiplicação e a circulação de sementes crioulas e nativas como fundamento da soberania alimentar.

Assumimos igualmente o compromisso de fortalecer a articulação das mulheres dos territórios, reconhecendo seu papel histórico na defesa da vida, dos conhecimentos ancestrais, da cura, da alimentação, da espiritualidade e da organização comunitária.

Assumimos o compromisso com a autodefesa de nossos territórios como uma práxis de resistência coletiva, onde a união entre os povos, a soberania alimentar e a memória ancestral garantem a proteção da vida e a continuidade de nossas lutas sem dependências institucionais.

Seguiremos construindo uma comunicação popular comprometida com os povos, capaz de registrar nossas memórias, romper o silenciamento imposto pelo colonialismo e fortalecer nossas próprias narrativas.

Afirmamos também a necessidade de ampliar os processos permanentes de formação política e popular, fortalecendo os intercâmbios entre territórios por meio da Universidade dos Povos e as escolas da terra. Assumimos o conceito de território-escola, partindo da premissa de que a roça, o rio, a floresta e a comunidade formam o espaço real de aprendizado e de construção de saberes enraizados na realidade dos povos. 

Reafirmamos que nossa autonomia será construída pelo trabalho coletivo, pela solidariedade entre os territórios, pela agroecologia, pela autogestão, pela geração de renda e fortalecimento da economia solidária, pela valorização dos saberes, pela cultura e pela espiritualidade. 

Sabemos que os desafios são grandes. Mas sabemos também que nenhum povo resiste sozinho.

Por isso, seguiremos realizando nossas Pré-Jornadas em diferentes territórios de Santa Catarina, fortalecendo os vínculos entre aldeias, quilombos, assentamentos, comunidades tradicionais, periferias urbanas e todos aqueles que fazem da luta por terra e território um compromisso cotidiano.

Que esta carta seja mais do que um registro deste encontro.

Que ela seja um compromisso político.

Uma convocação permanente.

Uma palavra lançada àqueles que acreditam que outro mundo não apenas é possível, mas já está sendo construído onde os povos permanecem organizados.

Seguiremos tecendo alianças.

Seguiremos plantando sementes.

Seguiremos defendendo nossos territórios.

Porque sem Tekoá, não há Tekó.

Aguyjevete!

Tekoá Tava’í – Canelinha (SC)
26 de julho de 2026
Teia dos Povos em Luta em Santa Catarina

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