Posted on: 15 de dezembro de 2020 Posted by: Erahsto Felício Comments: 1

Estamos uma vez mais diante de mais de cento e oitenta mil mortos. E nós não sabemos o que é mais assustador se este número ou não há reação à altura por parte do povo brasileiro. A razão é que talvez este povo nunca existiu. A nação brasileira é uma engenharia colonial cujo objetivo central é extrair riqueza daqui e remetê-la para enriquecer estrangeiros. Nessa engrenagem o povo é um obstáculo, de modo que as elites construíram um Estado anti-povo, sabotando cada tentativa de nascimento deste, degolando libertadores, perseguindo sonhos de justiça e paz o quanto podiam. O patrono do exército ser um “herói” que matava os povos pobres do país diz muito sobre isto. Então não devemos cobrar do povo uma resposta. Porém devemos seguir perguntando, como parar esta máquina que mata e esconde corpos?

Cada etnocídio que ocorreu desde a colonização até estes que estão em curso hoje nunca houve uma resposta à altura dos povos contra as elites. Enquanto o agronegócio mata os Kaiowás, a mineração persegue e mata os Yanomami no Brasil de 2020. Há 22 anos mataram Xikão Xukuru. Todas as autoridades sabiam que ele era ameaçado por fazendeiros que resistiam à demarcação das terras do povo Xukuru do Ororubá em Pernambuco. A instituição que mais funciona em nosso país é a conivência com as mortes dos de baixo. É só lembrar que até pouco nós não contávamos as mortes dos indígenas na ditadura militar e que, é claro, são mais numerosas do que aquelas cometidas contra as vanguardas guerrilheiras. A última ditadura – sejamos claros – se tratava de um golpe contra a reforma agrária, de uma ação emergencial em defesa do latifúndio.

Quantos povos morreram em razão do mesmo latifúndio e da mesma mineração em nossa história? Recordemos dos povos originários ou nações da diáspora africana como Benguela, Hauçá, Malê, Nagô, Jêje ou Cabinda, o claro fato é que nunca paramos de matar povos. Governos de direita e governos de esquerda seguiram e seguem matando povos no Brasil, porque o problema nosso não é a cor da bandeira do partido, mas de suas alianças com os inimigos dos povos: latifúndio e, agora, os bancos. Os Juruna e os Arara que padecem com a Usina de Belo Monte são tão testemunhas da violência dos governos progressistas do PT como os Quilombos de Alcântara no Maranhão. Esta engenharia social de assassinato e descarte é um contrato social desde cima. Qualquer governo só tem direito de governar o país se referendar esta violência, qualquer desacordo gera um golpe. E olha quantos golpes tivemos por estas e outras razões? O desenvolvimentismo aqui é filho de um colonialismo sem qualquer disfarce.

Ao falar isto não estamos igualando os partidos de direita e esquerda, estamos falando que ambos fecham acordo com os inimigos dos povos, os primeiros por ideologia, os últimos por covardia e falta de dignidade política. Nós temos alguma notícia de governador de esquerda que tenha mudado a segurança pública e deixado de tratar os pretos e todos os povos favelados como inimigos do Estado? Acaso vimos qualquer político de esquerda ou direita na “redemocratização” colocar como prioridade a democratização da terra? Não há pensador de esquerda no Brasil que não veja o latifúndio como estrutura de desigualdade social, porém não há partido de esquerda no poder que execute qualquer política que entre em colisão com o latifúndio. E se a desigualdade social aprofunda as mortes por COVID-19 e por violência, então esta é uma das raízes mais profundas e não enfrentadas. Sabe o que os partidos de esquerda vão nos falar? “Vamos juntos nas eleições para parar o fascismo”. Acaso vimos eleições parar fascistas na história? Há uma completa ausência de programa com tarefas claras para uma luta que nos coloque em marcha contra nossos inimigos. Mas agora as pessoas peguntam como enquanto povo vamos reagir. Gente, as coisas não funcionam assim.

Há uma memória coletiva e uma ideologia de cima conversando ininterruptamente conosco. A memória coletiva nos avisa que protestar contra aumento da tarifa de transporte pode resultar em violência policial, prisão, quem sabe sequelas da violência para o resto da vida. Essa memória está ativa desde o massacre do Cururupe em Ilhéus na Bahia (1559) até o extermínio de Palmares (1695). Ela seguiu viva na perseguição aos cabanos no Pará (1840), nas execuções dos rebeldes da Balaiada no Maranhão (1841), na traição de Porongo no Rio Grande do Sul (1844), no genocídio de Canudos na Bahia (1897), na repressão da Revolta da Vacina no Rio de Janeiro (1904), no bombardeamento do Caldeirão de Santa Cruz do Deserto no Crato cearense por aviões do Exército Brasileiro (1937) até o massacre do Carandiru em São Paulo (1992). Este é o país onde a cidade de Desterro é reprimida pelo Presidente Floriano Peixoto com o fuzilamento de 184 pessoas, e a cidade muda de nome para homenagear o seu assassino. Então não é fácil para as maiorias olhar para um movimento social organizado que está disposto a se rebelar contra o mal governo e dizer “vou me juntar a eles e lutar”. A primeira imagem que vem é a possibilidade de perder emprego, sofrer violência ou morrer. A esta memória soma-se as ideologias de cima dizendo que invés de se manifestar o pobre pode empreender, mudar de vida com seu esforço, que tudo depende dele. E mesmo que falemos que o assassinato por forças policiais de Ágatha Sales (8 anos) em 2019 no Rio ou o de Micael Silva (12 anos) este ano em Salvador desmentem toda farsa do mérito, o medo de lutar segue alimentando todo discurso de empreendedorismo e meritocracia.

Então nós estamos normalizando mortes há muito tempo. Isso tá firme em nossa (de)formação. Quando matamos 43 mil pessoas de arma de fogo em 2016 nós não choramos o luto das famílias. Justificamos quase todas como sendo pessoas que de alguma forma mereciam morrer por serem criminosos. Isso foi feito em cada jornal de exposição criminal que passa na TV aberta, por cada jornal comportado do horário nobre. Neste mesmo ano morreram 93 mil pessoas de forma direta ou indiretamente ligadas ao álcool. Estas sequer foram noticiadas pois suas mortes são resultados de lucros absurdamente fantásticos da indústria responsável por tornar Lemann o homem mais rico do país. Quem paga a publicidade da TV dá a política do jornal, não é? E tem sido assim que ano após ano nós normalizamos esta montanha de mortos pelo álcool, por exemplo, e criamos uma política pública de combate às drogas que extermina a população preta e pobre das periferias todos os anos. E assim ocorre mesmo que nenhuma droga consiga sustentar esta montanha de mortos que o álcool produz anualmente.

Nós sabemos que corpos estão aí. Uma maioria absurda de corpos pretos e indígenas, de pessoas vulneráveis em periferias com péssimas condições de vida. Gente traumatizada com medo do carro da polícia, com medo de helicóptero, que conhece o olhar do segurança do shopping, do segurança do banco. Gente com medo da “brincadeira” dos brancos, gente que nunca esqueceu Galdino Pataxó queimado por playboys de Brasília! São nestes corpos onde as maiores violências podem ser perpetradas e onde a punição será sempre mais branda se houve punição. Ninguém sério ignora o etnocídio dos Kaiowás, mas que grandes empresas do agronegócio foram punidas? Sabemos que após as queimadas na Amazônia vem o pasto e o gado, mas quantos frigoríficos foram fechados? Quantos latifundiários grileiros foram presos? Não há justiça porque ao menor sinal de reparação, o ódio racial usa toda sua rede de defesa dos brancos ricos e de seus interesses para atrasar a justiça, tirar da pauta do jornalismo ou criminalizar as lideranças de luta que a estão cobrando. E para quem acha que elegendo bons governantes podemos mudar isto, a pergunta que fica é: acaso não olham para a América Latina? Não veem o golpe que Evo levou admitido por um dos maiores interessados nas reservas de lítio daquele país, o bilionário Elon Musk? Não veem que se instalou uma conjuntura de golpes e sabotagem que atingiu Brasil, Paraguai, Venezuela e outros? Podemos ganhar a eleição e jamais levar o poder, pois poder de fato é terra, riqueza e força.

Só há, portanto, um jeito de não apagarmos a memória destes mortos e isto nada tem que ver com a conversa dos historiadores que a lata do lixo da história está reservada aos algozes. Ou pior, que vamos redimir os condenados da terra ao escrever suas histórias. A única coisa que pode manter viva na memória de todos e provocar um verdadeiro nascimento do povo é obtermos justiça, se vingarmos os mortos derrotando nossos inimigos. Não podemos confiar esta tarefa às instituições de Estado porque elas tem lado e jamais enfrentaram o latifúndio ou pararam a máquina de mortes que nos consome. Esta é uma tarefa que somente nós desde baixo podemos fazer. E estamos falando com clareza: retomar as terras numa luta histórica e com greves poderosas por vida, dignidade e paz. Que parem as mortes pelo Estado, que cessem a devastação do meio ambiente! Nós não queremos a vida uberizada, terceirizada, precarizada. O sustento nosso e dos nossos não pode significar a destruição de nossa dignidade.

Hoje, infelizmente, poucas organizações teriam capacidade de começar isto. E nenhuma, certamente, poderia fazê-la sozinha. Então o que estamos falando sobre vingar nossos mortos construindo uma nova sociedade é tarefa de aliança entre organizações, movimentos sociais, povos e territórios. Só um grande arco de aliança dará conta já que as pautas dos grandes sindicatos não apontam horizonte rebelde há muitos anos. Estão entrincheirados em sua sobrevivência, não na transformação do mundo. Mas são fundamentais como todos os movimentos sociais. Trata-se de uma questão de vontade e determinação para fazer. As condições objetivas nossas são que, se deixarmos, morrerão duzentos mil dos nossos, ou mais, até que chegue uma vacina. E nós podemos decidir se haverá mais mortes para mudar nossa sociedade ou para mantê-la nas mãos das elites assassinas de sempre.

Que possamos ainda escutar a prece feita ao plantar o corpo de Xikão Xukuru na serra:

Acolha teu filho, minha mãe natureza! Ele não vai ser enterrado, ele não vai ser sepultado, e sim ele vai ser plantado para que dele nasçam novos guerreiros, minha mãe natureza. (…) Porque a nossa luta não para!

Zenilda Araújo Xukuru, viúva do cacique Xikão
Xikão Xukuru [reprodução]

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