Entre 1683 e 1713, os sertões do Nordeste foram atravessados por uma longa sequência de guerras entre povos indígenas e forças coloniais. O episódio ficou conhecido como Confederação dos Cariris, mas também aparece nas fontes portuguesas como Guerra dos Bárbaros. Por trás desses nomes estava uma disputa que ia muito além dos combates: a expansão da colonização sobre terras indígenas.
Na segunda metade do século XVII, depois da expulsão dos holandeses, a ocupação portuguesa avançou para o interior. A criação de gado foi uma das principais responsáveis por esse movimento. As fazendas precisavam de grandes áreas e foram se espalhando pelos sertões, principalmente pelas regiões que hoje correspondem ao Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco. A expansão encontrou territórios ocupados por diferentes povos indígenas.
Os chamados Cariris não eram um grupo único. O território reunia diferentes povos, entre eles Cariris, Janduís, Paiacus, Icós, Canindés, Jenipapos, Tremembés e outros grupos classificados pelos portugueses, muitas vezes de maneira genérica, como “Tapuias”.
E aqui está uma das primeiras questões que precisam ser colocadas.
“Confederação dos Cariris” não significa necessariamente que todos esses povos formassem um único exército ou uma organização política permanente. O historiador Pedro Puntoni, em A Guerra dos Bárbaros, questiona justamente essa interpretação. Para ele, o que existiu foi uma sequência de conflitos, alianças e rupturas envolvendo diferentes povos indígenas, colonos, soldados, missionários e representantes da Coroa portuguesa.
Isso não diminui a resistência. Pelo contrário: mostra que os povos indígenas tomavam decisões próprias diante das circunstâncias, estabeleciam alianças e também podiam entrar em conflito entre si.
A terra que virou fronteira colonial
A criação de gado teve um papel central nessa transformação.
Diferentemente da agricultura canavieira do litoral, a pecuária avançava para áreas cada vez mais distantes das cidades e dos engenhos. As fazendas ocupavam grandes extensões e alteravam os espaços utilizados pelos povos indígenas para caça, circulação, cultivo e moradia.
A expansão não acontecia sobre uma terra vazia.
Os colonizadores encontravam comunidades que já conheciam aqueles territórios e que tinham suas próprias formas de ocupação. Quando as fazendas avançavam, a presença indígena passou a ser tratada como um obstáculo à colonização.
É nesse contexto que aparece a expressão “Guerra dos Bárbaros”.
“Bárbaro” não era o nome utilizado pelos povos para se definirem. Era uma classificação colonial. Nos documentos portugueses, indígenas que resistiam à ocupação, à catequese e ao controle da Coroa eram frequentemente apresentados como inimigos ou “bárbaros”. Pesquisas recentes chamam atenção justamente para o problema de reproduzir essa linguagem sem questioná-la.
A palavra ajudava a construir uma justificativa: se aqueles povos eram apresentados como uma ameaça à ordem colonial, combatê-los poderia ser apresentado como uma necessidade.
A guerra também foi uma política de ocupação
A violência não ficou restrita aos confrontos.
A Coroa portuguesa utilizava a chamada “guerra justa” como instrumento jurídico para autorizar campanhas contra determinados povos indígenas. A guerra poderia ser considerada legítima quando os indígenas fossem classificados como inimigos ou como aqueles que haviam resistido à autoridade portuguesa.
Na prática, isso abriu espaço para expedições militares, captura de indígenas e ocupação de novos territórios.
Quando as forças locais não conseguiam conter a resistência, a Coroa recorreu também a tropas de outras capitanias. Bandeirantes paulistas foram contratados para participar das campanhas, entre eles Domingos Jorge Velho, conhecido posteriormente também por sua atuação na destruição do Quilombo dos Palmares.
A guerra, portanto, não foi apenas uma reação espontânea de colonos contra ataques indígenas. Ela também foi parte de uma política de expansão territorial.
Resistir também era permanecer
Os povos indígenas conheciam os sertões de uma maneira que os soldados enviados pela Coroa não conheciam.
As expedições coloniais precisavam atravessar rios, serras e extensas áreas de difícil acesso. Os grupos indígenas utilizavam esse conhecimento do território para atacar, recuar, se deslocar e reorganizar suas forças.
Por isso, a guerra se prolongou durante décadas.
Não houve uma única batalha capaz de decidir o conflito. Foram sucessivos confrontos em diferentes regiões, com períodos de maior e menor intensidade.
Em alguns momentos, povos indígenas também fizeram alianças entre si. Em outros, negociaram com os colonizadores ou estabeleceram relações com missionários. Havia diferentes estratégias de sobrevivência diante do avanço colonial.
Essa dimensão é importante porque impede que os indígenas apareçam na história apenas como vítimas passivas.
Eles negociaram, lutaram, fizeram alianças, recuaram, atacaram e reorganizaram suas comunidades diante da invasão de seus territórios.
O fim da guerra não significou o fim da violência
Por volta de 1713, as forças coloniais conseguiram enfraquecer decisivamente a resistência em diferentes regiões.
Mas o que veio depois não foi simplesmente paz.
Muitos indígenas foram mortos, capturados ou deslocados. Outros foram levados para aldeamentos e missões religiosas. A documentação colonial registra ainda processos de “desnaturalização”, termo utilizado para designar a retirada forçada de indígenas de seus territórios. Estudos recentes mostram que ordens coloniais chegaram a determinar o deslocamento de prisioneiros indígenas para outras regiões.
Essa palavra — desnaturalização — talvez seja uma das que melhor revelem o que estava acontecendo.
Não era somente derrotar um povo em uma batalha. Era retirá-lo do lugar onde vivia.
A guerra abria caminho para que novas fazendas ocupassem aquelas terras e para que o sertão fosse incorporado de maneira cada vez mais profunda à estrutura colonial.
A história que ficou registrada pelo lado de quem venceu
Grande parte do que sabemos sobre esses conflitos vem justamente dos documentos produzidos pela administração portuguesa, pelos militares e pelas missões religiosas.
Isso cria um problema para quem tenta reconstruir a história.
Sabemos muito sobre aquilo que os colonizadores disseram que os indígenas fizeram. Sabemos menos sobre aquilo que esses povos disseram sobre a guerra, porque suas próprias narrativas foram muito menos registradas pelas instituições coloniais.
Por isso, ler essa história exige também desconfiar das palavras utilizadas nos documentos.
Quando um documento chama um povo de “bárbaro”, é preciso perguntar: bárbaro para quem?
Quando uma expedição é apresentada como uma “guerra justa”, é preciso perguntar: justa para quem?
E quando a ocupação de uma terra aparece como expansão da colonização, é preciso lembrar que aquela mesma expansão significava a retirada de quem já vivia ali.
A chamada Confederação dos Cariris terminou militarmente no início do século XVIII, mas seus efeitos permaneceram no território. A pecuária avançou, as terras foram repartidas e novos núcleos coloniais se estabeleceram onde antes existiam diferentes formas de ocupação indígena.
A história chamou de “Guerra dos Bárbaros” a resistência de povos que não aceitaram a perda de seus territórios. Mas talvez seja preciso inverter essa narrativa: antes de serem chamados de inimigos, eles eram povos defendendo a terra diante de uma colonização que avançava sobre ela.
FONTES
- PUNTONI, Pedro. A Guerra dos Bárbaros: povos indígenas e a colonização do sertão Nordeste do Brasil, 1650-1720. São Paulo: Hucitec; Edusp, 2002. https://pt.scribd.com/document/668554688/PUNTONI-Pedro-a-Guerra-Dos-Barbaros?utm_source
- PERRONE-MOISÉS, Beatriz. “Índios livres e índios escravos: os princípios da legislação indigenista do período colonial”. In: CUNHA, Manuela Carneiro da (org.). História dos Índios no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.
- DANTAS, Beatriz G.; SAMPAIO, José Augusto L.; CARVALHO, Maria Rosário G. de. “Os povos indígenas no Nordeste brasileiro: um esboço histórico”. In: CUNHA, Manuela Carneiro da (org.). História dos Índios no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.
- ABREU, Capistrano de. Capítulos de História Colonial (1500-1800). Brasília: Senado Federal.
