Desde a sua primeira edição, realizada em 2012, a Jornada de Agroecologia da Bahia escolheu o Assentamento Terra Vista, em Arataca, como sede. Fruto da luta pela reforma agrária do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), o Assentamento foi fundado oficialmente em 1994, mas a ocupação da terra, que fica às margens da BR 101, iniciou em 8 de março de 1992, como homenagem ao Dia Internacional das Mulheres.
Com 913,6 hectares e 55 famílias assentadas atualmente, o Terra Vista é referência em preservação ambiental, agroecologia e produção de mudas de espécies da Mata Atlântica, como Jacarandá, Ipê Amarelo, Pau-Brasil, Jatobá e Cedro. Desde o início da ocupação, foram recuperados 90% da mata ciliar do Rio Aliança, que passa pelo assentamento, além da manutenção de 34% da reserva legal da área, que fica no entorno da Unidade de Conservação do Parque Nacional Serra das Lontras.

O Terra Vista possui psicultura, cultivo de frutíferas e hortaliças, reconhecidas como Produção Orgânica pelo IBD Certificações, e um viveiro que produz 150 mil mudas por ano. É também referência na produção de cacau orgânico. Conversando com os assentados, é fácil escutar histórias de luta, autonomia e fé. Seu Edvaldo, assentado desde 1995, é um dos agricultores que aprenderam a cultivar orgânicos e vivem unicamente do que é produzido no Terra Vista:
“Quando cheguei em 1995 isso aqui era horrível, eu mesmo fiquei duvidoso. Mas quem chama Deus não cansa. Deixei o patrão e a fazenda que eu trabalhava e vim pra cá. Como é um assentamento construído com luta, optamos por confiar nos orgânicos. Foi aqui que aprendi a plantar assim. Crio meus filhos e meus seis netos no assentamento. Isso aqui é lugar pra viver”.

Odete Silva de Jesus, conhecida como Dona Dete, é uma das assentadas e militantes mais antigas da agrovila do Terra Vista. De Ilhéus, a convite da irmã deixou o trabalho de lavadeira e faxineira, em 1993, para trabalhar no campo e criar os filhos e netos no assentamento. Hoje, aos 63 anos, relembra as dificuldades e se alegra pelas batalhas vencidas:
“Peguei minhas roupas e minhas panelas e vim morar aqui, quando ainda era tudo mata. Passamos muito dificuldade pra chegar onde chegamos. Teve época que a gente só tinha jaca verde pra comer, além dos cinco despejos que a gente já recebeu. Muitos desistiram, mas outros ficaram e hoje temos toda essa riqueza. O ar livre das árvores e dos passarinhos é o meu remédio. Só saio daqui quando eu morrer mesmo.”
Além do trabalho no campo, o Terra Vista tem a Educação como foco de transformação socioambiental. Lá, funcionam dois centros educacionais com cursos do ensino fundamental, profissionalizantes e de nível superior, inclusive pós-graduação na área de Agroecologia. Mais de 800 pessoas, entre assentados, comunidade de Arataca e de outras regiões estudam no Centro Integrado de Educação Florestan Fernandes e no Centro Estadual de Educação Profissional no Campo Milton Santos.


No vídeo abaixo, assentados contam histórias sobre a formação do Assentamento Terra Vista:
Saiba mais acessando o SITE OFICIAL do Assentamento Terra Vista.

Candidatura para estágio em agroecologia e organização comunitária
Prezadas companheiras e prezados companheiros do Assentamento Terra Vista e da Teia dos Povos,
Meu nome é Edoardo Da Silva Orlandini, sou ítalo-brasileiro, filho de mãe baiana, e atualmente estou concluindo o mestrado em Estudos Performativos e de Gênero na Universidade Iuav de Veneza, na Itália.
Estou entrando em contato porque gostaria de saber se existe a possibilidade de realizar um estágio internacional junto ao Assentamento Terra Vista, à Teia dos Povos ou a algum projeto ligado à rede de vocês. Minha disponibilidade seria, aproximadamente, do final de novembro de 2026 até o final de abril de 2027.
Em minha dissertação, estou pesquisando a regeneração da Mata Atlântica e as práticas agroecológicas e agroflorestais como formas de cuidado com o território, fortalecimento comunitário e construção de autonomia. Interessa-me compreender como a agricultura pode participar de processos de soberania alimentar, recuperação ambiental e organização coletiva, criando relações de reciprocidade entre comunidades humanas, animais, plantas, águas e solos.
Conhecer a experiência do Assentamento Terra Vista e da Teia dos Povos despertou profundamente o meu interesse pela maneira como vocês articulam agroecologia, luta pela terra, defesa dos territórios, educação popular, saberes tradicionais e autonomia dos povos. Gostaria muito de aprender com essas práticas por meio da participação concreta na vida cotidiana, nos mutirões e nas atividades de agrofloresta, cultivo, recuperação de nascentes, produção de alimentos e formação comunitária.
Ainda não possuo experiência prática na agricultura. Tenho muita disposição para aprender, trabalhar coletivamente e contribuir com as necessidades definidas pela comunidade. Minha intenção principal é adquirir experiência no trabalho com a terra e compreender como a agroecologia se desenvolve dentro de um processo político e territorial mais amplo.
Minha formação também me proporcionou experiência em pesquisa, comunicação, fotografia, vídeo, escrita, produção cultural e criação de conteúdos. Posso colocar essas competências a serviço dos projetos de vocês sempre que forem consideradas úteis, respeitando as prioridades do coletivo e a forma como as próprias comunidades desejam registrar e comunicar suas lutas e seus conhecimentos.
O estágio seria financiado por uma bolsa Erasmus+ da minha universidade, no valor de 700 euros mensais. Para que a experiência seja reconhecida, preciso encontrar uma organização legalmente registrada que possa assinar o Learning Agreement e indicar uma pessoa responsável pela supervisão das atividades. Como a bolsa possui um valor limitado, também gostaria de saber se existe alguma possibilidade de alojamento e alimentação a custos acessíveis ou por meio da participação na vida coletiva.
Tenho consciência de que o Assentamento Terra Vista e a Teia dos Povos são territórios e articulações construídos por longos processos de luta, resistência e organização. Aproximo-me com o desejo de escutar, aprender e contribuir, reconhecendo que as comunidades possuem suas próprias histórias, prioridades e formas de conhecimento.
Minha ligação com a Bahia também atravessa essa busca. Cresci na Itália e desejo retornar ao estado de minha família para conhecer mais profundamente o território, construir relações responsáveis e participar de práticas que cuidem da Mata Atlântica e das comunidades que a defendem.
Caso não seja possível realizar o estágio diretamente com vocês, agradeceria muito qualquer indicação de assentamentos, associações, comunidades ou projetos aliados que possam me acolher.
Posso enviar meu currículo, uma apresentação mais detalhada da pesquisa e as informações administrativas do programa Erasmus+.
Agradeço muito pela atenção e pelo trabalho que vocês realizam.
Um abraço,
Edoardo Da Silva Orlandini
Universidade Iuav de Veneza
Itália