Posted on: 17 de outubro de 2020 Posted by: arkx Brasil Comments: 2

Desde criança meu sonho era mexer com roça. Depois fui me interessando por agroecologia, sem veneno, sem adubo químico.

Ainda na minha infância, um primo meu tinha um terreno, volta e meia eu ía lá. Também meu avô cultivava uma horta bem grande, eu ajudava. A horta era cercada de bananeiras. Hoje o terreno está ocupado por umas oito casas.

Sempre trabalhei em oficina mecânica. Comecei cedo junto com meu tio.

Quando meu sogro faleceu, o terreno foi dividido para os filhos. Então tive a oportunidade de ir mexer com a terra.

Procurei a EMATER em Baependi. Foi assim que conheci o Engenheiro Agrônomo André Henriques.

Estava até meio preocupado, porque normalmente não é incentivada a agricultura orgânica, o que eu pretendia fazer.

Quando fomos conversar, o André me perguntou o que eu queria plantar. Respondi que pretendia cultivar café.

– Mas qual o sistema que você vai adotar?

– Orgânico e agro-florestal.

-Você é o primeiro aqui que eu vejo falar isto!, exclamou o André com um sorriso de satisfação.

O André tem muito conhecimento e muita experiência nesta área. Até já ganhou alguns prêmios pela EMATER. Tornou-se uma referência.

A partir de então, se iniciou uma grande parceria entre nós dois. Começamos a conversar muito. Ele sempre me apoiando e me incentivando. Não falta empolgação para ele, sempre muito agitado.

Comprei 2 mil mudas de café. Plantei. Sempre com o André me dando assistência pela EMATER. Depois plantei mais 2 mil mudas.

Meu cunhado Ronaldo Maciel também plantou no terreno que coube a ele pela herança. Começou com 2 mil mudas. Mais tarde plantou mais 1 mil.

No primeiro dia do plantio caiu uma chuva muito forte. Ficamos abrigados debaixo de uma lona, nem deu tempo de correr para casa. Terminamos no dia seguinte. Foi a melhor coisa, plantamos com a terra já bem encharcada.

Em seguida, meu concunhado, Giovani, plantou 2.200 mudas de café, no terreno contíguo ao meu e o do Ronaldo.

Assim formamos uma área contínua de cafezal, o que nos facilita bastante. Tanto no manejo, como na repartição dos custos. Trabalhamos os três sempre em conjunto.

A medida que a plantação foi dando certo, surgiu entre nós a idéia de criar um grupo formalizado de agricultores familiares agroecológicos. Inclusive para ser reconhecido como orgânico pelo MAPA (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento).

Isto foi no final de 2018.

O André propôs uma conversa nossa com a Angela Vasques para criar uma OCS (Organização de Controle Social), já que ela coordenara a criação de duas outras aqui em nossa região.

Você conhece a Angela?, perguntou o Andre. Ela tem um sítio aqui em Baependi e mora no Rio. O sítio é aqui em frente, atrás do morro.

– Acho que não, respondi.

Uma OCS (Organização de Controle Social) é um grupo de autogestão de controle da produção de orgânicos, fundamentado na confiança recíproca e na auto-fiscalização. Destina-se exclusivamente para venda direta ao consumidor.

Marcamos a reunião. E quando cheguei lá, logo ao entrar na sala cumprimentei a Angela.

– Ué! Vocês já se conheciam? surpreende-se o André.

– A gente se conhece do meu serviço, na oficina. Ela sempre vai lá.

A documentação foi encaminhada. Mas coincidiu de ser na mudança de governo. Demorou bem mais do que normalmente.

Em meados de 2019, chegou o registro de criação da OCS AFAB (Agricultores Agroecológicos Familiares de Baependi), com os respectivos diplomas de produtores orgânicos.

Além dos produtores de café, havia se integrado ao nosso grupo o Vinícius Seixas, que produz o primeiro lúpulo orgânico reconhecido do Brasil, com o qual ele faz uma saborosa cerveja artesanal – a Barruka.

Faz parte do sistema da OCS realizar visitas periódicas entre os participantes, com objetivo de conhecer os trabalhos, trocar experiências e aferir a conformidade do produtor com as regulamentações legais.

Estamos usando o SAF (Sistema Agro-Florestal).

No meio do café tenho 8 qualidades de banana. As bananeiras além do sombreamento servem como quebra-vento, conservando a umidade do ambiente.

Também plantei mamão, tanto o caipira como o tipo Formosa (grande e comprido).

Em volta da plantação tem 20 pés de pocã, 8 laranjeiras, 5 abacates, 4 mangueiras, 5 ipês.

No meio do cafezal plantei Acácia Mangium. De rápido crescimento, fornece matéria orgânica e nitrogênio para solo, além de também ser um quebra-vento.

Nas ruas do café, usamos feijão de porco.

Uma leguminosa que suporta muito bem sombreamento. Útil também para adubação verde. A cada vez que floresce, nós roçamos. Porque é o melhor momento para depositar nitrogênio na terra. Além de tudo, funciona como um inseticida natural contra as formigas.

Já fiz duas colheitas, sempre comercializando aqui na cidade. Este ano, apesar da praga da ferrugem ter atingido toda a região, colhi 14 sacas.

O preço atual é R$ 30 o kilo. Só que os custos com torrefação aumentaram muito, vou ter que aumentar para R$ 36.

Então veio a pandemia. Prejudicou o relacionamento do grupo, ficamos todos isolados.

Baependi fechou de início por 10 dias. Em seguida, a barreira sanitária continuou ativa. Recentemente, houve aumento de casos e a cidade entrou em quarentena de novo, por uma semana. São 4 óbitos no total até o momento.

Em Agosto, eu e o Ronaldo passamos um final de semana trabalhando juntos em nossas plantações, puxando termofostato orgânico para adubar o cafezal.

Então, o Ronaldo já não estava se sentindo bem. Reclamou de dor de cabeça e dor no peito, espirrando, com indisposição. Teve uma crise de tosse muito forte, até não conseguiu almoçar direito.

Durante a semana, o sogro do Ronaldo ficou doente. Deu entrada no hospital local. Quando fizeram o teste, estava com COVID.

No dia seguinte, o Ronaldo também fez o teste com resultado positivo. Ficou 15 dias em quarentena em casa. Em uma semana se recuperou. Não teve sequelas.

O meu teste veio negativo. Acho que dei muita sorte. E o meu filho de 5 anos tinha ficado em contato com o Ronaldo, mas não apresentou nenhum sintoma.

Por causa da pandemia, a orientação do MAPA foi pela suspensão das visitas entre os produtores, e consequentemente também da inclusão de novos integrantes ao grupo.

Com isto um produtor de mel já aprovado pelo grupo para participar, ainda não foi incluído.

Infelizmente um dos integrantes, o Alessandro, teve que se desligar por motivos pessoais.

Um grupo de São Paulo veio morar em Baependi, na área rural, com objetivo de produzir alimentação no sistema orgânico. E se mostraram interessados em participar do AFAB.

A perspectiva é o grupo ampliar e se fortalecer.

Minha idéia é aumentar minha produção. Pretendo plantar nesta estação da chuva mais 1.000 pés de café. Sempre dentro do SAF.

Pretendo diversificar com maçã, pêra e kiwi.

Assim que iniciei meu plantio, bem no começo, muita gente aqui duvidou se eu conseguiria ter produção, por não usar adubo químico e veneno.

Diziam que eu era maluco.

Quando plantei as árvores, os abacates, as mangas, chegaram a me questionar: – Você tá plantando café, ou fazendo uma floresta?

Hoje já comentam que estou colhendo um dos melhores cafés aqui de nossa cidade.

É o que procuro conversar com todos. É preciso tempo para chegar ao equilíbrio do solo.

Mas vale a pena!

Assim sabemos que estamos comendo alimentos saudáveis. E estamos colocando alimentação saudável na mesa das outras pessoas.

Marcelo Santos

Coordenador do grupo AFAB (Agricultores Agroecológicos de Baependi).

vídeos:


sobre os Diários da Pandemia:

  • Embora seja tb um trabalho jornalístico, se propõe a muito além disto.
  • Tem como objetivo principal tecer uma rede de comunicação entre as diversas lutas localizadas.
  • De modo a circular as experiências, para serem reciprocamente conhecidas numa retro-alimentação de auto-fortalecimento.
  • Não se trata de tão somente produzir matérias, e sim tornar as matérias instrumento para divulgar conteúdo capaz de impulsionar os movimentos.
  • Em suma: colocar a comunicação a serviço das lutas concretas.

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  1. Bem interessante esse caso, ilustra que pode manter uma cultura comercial de forma agroecológica e estruturando um embrião de SAF em volta. Há trabalhos defendendo que, dependendo da escala, a produção agroecológica é maior que a de monocultura. Acho que saíram umas reportagens recentes na Globo sobre o tema. Que a qualidade é melhor, isso é indiscutível, café agroecológico e orgânica é muito bom!

    1. Para viabilizar a presença na terra é necessário construir um território. Entre as tarefas primordiais está a geração de renda. Sem isto o processo não se sustenta. Por outro lado, é também vital compreender que não se trata de uma postura eminentemente “comercial”. Até pelo contrário. Pois a perspectiva é no rumo de uma economia para além do Capital.

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