Posted on: 7 de dezembro de 2020 Posted by: arkx Brasil Comments: 1

“Sem hipocrisia, essa PM mata pobre todo dia!”

Um único tiro de fuzil e duas vidas são exterminadas. Duas crianças: pretas, pobres e periféricas. Com apenas 4 anos de idade, uma delas teve o crânio esfacelado pelo impacto do projétil. Estavam ambas brincando na porta de casa. Não houve confronto. Os PM atiraram em direção à rua. Apesar do STF ter proibido operações policiais durante a pandemia, elas continuam acontecendo. E matando: pobres, pretos e periféricos.

Poucos dias antes um homem preto foi espancado pelos seguranças até a morte, nas dependências de uma grande rede de supermercados. O fato provocou de imediato comoção e protestos.

Como política de reparação a empresa cria um Comitê de Diversidade e Inclusão, com verba de R$25 milhões. Intelectuais ativistas pretos da luta contra o racismo se aliam à iniciativa. Em seguida a empresa anuncia o abandono do uso de segurança terceirizada.

Quanto vale uma vida?

A vida de um preto nas dependências do Carrefour está precificada, pelo valor correspondente ao prejuízo causado à marca da empresa.

Quanto vale a vida de cada um do nós?

Depende da avaliação do compliance anti-discriminatório e da estratégia de negócios sociais corporativos.

Quanto vale a vida de pretos, pobres e periféricos? É a carne mais barata do mercado.

O genocídio perpetrado pela classe dominante no Brasil não é improvisado, vem de séculos de barbárie.

O que fazer? E como fazer?

A megalópoles são inviáveis, Babilônias sem remissão, gigantescas necrópoles onde impera o lema sinistro do Capitalismo: “Viva a Morte!”.

Mais do que nunca, chegou o momento de uma Grande Marcha: o  êxodo das favelas e periferias em direção à Terra.

Escapar dos guetos e campos de extermínio rumo aos quilombos. Erguer zonas de autonomia, territórios de emancipação. Terras do futuro, enraizadas no presente.

Só assim temos alguma chance de sobreviver ao genocídio em curso.

“Não há outra alternativa senão lutar contra o Capitalismo. E o ponto sagrado do Capitalismo é a propriedade privada.

É a terra! Só com terra é possível ter liberdade.

Precisamos ter coragem. Nós precisamos acreditar que é possível um outro mundo. Que venham os pobres da cidade! Venham os pobres do campo! Venham os indígenas! Venham os quilombolas! Venha todo o povo pobre do mundo! Unidos na luta pela terra, território e poder!”

Joelson FerreiraV Jornada de Agroecologia da Bahia – 2017


Ato por Rebeca e Emylly – 06/12/2020 – Duque de Caxias (RJ)

Relato de Marilza Barbosa Floriano, integrante da Rede de Mães e Familiares Vítimas de Violência da Baixada Fluminense:

Muito triste você ir acolher duas famílias destruídas. As meninas são da mesma família. Você tem o pai perdendo a sobrinha.

Para mim o mais difícil é crescer vendo isso acontecer. Por toda a minha vida.

E agora, em pleno 2020, você ir nesse território, no mesmo bairro em que eu moro, você adentrar neste espaço e ver as condições que as pessoas vivem. No meio da lama!

Acabamos de passar por uma eleição, em que candidatos a vereadores e prefeito entraram nestes lugares para prometer melhorias. Conseguiram se reeleger. E sabemos que não vai acontecer nada.

E não só com estas famílias. Também com todos nós que moramos aqui, nesse território chamado periferia da periferia. Totalmente abandonado, esquecido.

Só é lembrado em período de eleição. Então eles vêm, promete, elegem, ganham em cima da nossa desgraça. E nos mantém reféns. E alvos! Porque somos alvos.

Isso é muito triste, isso é muito difícil, porque você não tem o que falar para essas famílias. E nem para quantos mais já passaram, e vão passar, por isso.

Os familiares das meninas assassinadas eram acompanhados pelo Movimenta Caxias. Foram cadastrados para recebimento de cesta básica. Então isso viabilizou o acesso, para o acolhimento.

O primeiro acolhimento foi dado pelo Movimenta Caxias, na figura do Wesley, do Vitor, do Jeferson, entre outros componentes.

Eu fiz o acompanhamento também, o acolhimento como Rede de Mães, oferecendo um acompanhamento psico-social.

A gente fez todo o encaminhamento via Defensoria Pública e Comissão de Direitos Humanos da ALERJ. Também vamos fazer uma vaquinha online, porque uma das famílias não tem recurso nenhum, vivem numa situação muito precária. Moram num cenário de extrema miserabilidade.

Para prestar solidariedade a família, o Movimenta Caxias convocou um ato. Conseguiu um ônibus para levar os familiares.

Decidimos fazer na Praça do Pacificador, no centro de Duque de Caxias, para não voltar muito os olhos para dentro da comunidade, já que essa família fica vulnerável, fica exposta.

Pretendemos organizar um ato, alguma atividade, no dia 23/12, que seria a festa de aniversário de uma das meninas.

Marilza Barbosa Floriano
Assistente social, articuladora de território, integrante do Movimenta Caxias e Rede de Mães e Familiares Vítimas de Violência da Baixada Fluminense.


sobre os Diários da Pandemia:

  • Embora seja tb um trabalho jornalístico, se propõe a muito além disto.
  • Tem como objetivo principal tecer uma rede de comunicação entre as diversas lutas localizadas.
  • De modo a circular as experiências, para serem reciprocamente conhecidas numa retro-alimentação de auto-fortalecimento.
  • Não se trata de tão somente produzir matérias, e sim tornar as matérias instrumento para divulgar conteúdo capaz de impulsionar os movimentos.
  • Em suma: colocar a comunicação a serviço das lutas concretas.

acesse a série completa aqui neste link

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