Posted on: 28 de julho de 2020 Posted by: arkx Brasil Comments: 0

Acompanhando a quarentena junto ao Povo da Rua, os mais desassistidos e vulneráveis, aqueles cuja casa é a própria rua.

27/03/2020

Três quentinhas a serem distribuídas uma vez por semana para pessoas em situação de rua. Esta foi a orientação recebida em julho de 2016 por Lúcio Sanfilippo, da força chamada Seu Tranca Rua das Almas.

Assim começou um trabalho que frutificou. Quase 4 anos depois, hoje são distribuídas semanalmente cerca de 80 quentinhas.

Para quem vive em situação de rua, a dificuldade de conseguir água potável é quase como estar num deserto. A cidade é hostil. Ficam desesperados de sede.

Mesmo com a quarentena, não podemos deixar de estar presente junto com nossos irmãos nas ruas. Vestimos nossas máscaras e nossas luvas, e fomos ao encontro deles.

Há um caráter didático na presença do COVID-19. Uma pedagogia da solidariedade. O vírus exige que cada qual olhe para o outro, ou ninguém sobreviverá sozinho. Compreendamos que não há nenhum “outro”, somos todos parte integrantes de um mesmo todo.

18/04/2020

Nossa ciranda continua a girar, agora se adaptando aos tempos de distanciamento social.

Como somos poucos na ação, desde o começo da pandemia, estamos nos readequando.

Nas semanas anteriores, montamos mini-cestas, — com alimentos crus (arroz, feijão, óleo, macarrão, sardinha em lata e biscoito), sabonete e detergente – e entregamos aos grupos que cozinham.

Essa estratégia não funcionou muito bem, pois percebemos uma grande disputa entre membros do mesmo grupo, cada um querendo receber individualmente a quantidade que reservamos para todos.

Decidimos, então, voltar aos lanches individuais e alimentos prontos. Outra coisa que combinamos foi de, em vez de uma única saída, sempre levar conosco uma quantidade de lanches a cada vez que precisarmos ir às ruas para qualquer necessidade.

Outra resolução que tomamos foi a de repassar recursos a outras ações que sabemos funcionar e de acordo com as urgências.

Como já atuamos há quase quatro anos entregando refeições aos irmãos de rua, muitas pessoas tem nos procurado a fim de doar mantimentos, produtos de higiene, roupas e dinheiro. Dessa forma, nossa ciranda e todos os que fazem parte dela podem dar as mãos a outras mãos, formando uma rede em expansão.

Assim, durante esta semana, pudemos contribuir com dez cestas básicas e material de limpeza a uma ocupação na rua do Lavradio, além de repassar recursos a outras duas ações, uma de Florianópolis, a Feijovegan, e outra, a Kasa Invisível, de Belo Horizonte.

Também colaboramos adquirindo material e doando para a confecção de máscaras de tecido que estão sendo feitas e distribuídas pelo coletivo Linhas do Rio a várias comunidades do Rio e arredores. Até o momento, já foram entregues cerca de 1.500 máscaras.

Durante a ronda de hoje, tivemos boas surpresas. Vimos instaladas três pias portáteis, feitas pelo pessoal do Pias do Bem. É da mesma galera que fazia o Banho da Alegria, um chuveiro portátil sensacional. Eles sempre precisam de voluntários, então, vai o contato deles e outros contatos nos links.

Também vimos, hoje, em vários pontos, carros distribuindo comida. As pessoas estão se sensibilizando. Existe um movimento crescente de “Não morreremos e não deixaremos morrer. Vamos fazer nós mesmos”.

Seria muito bom que houvesse uma forma de identificar quais grupos e/ou iniciativas estão atuando em quais lugares e dias. Isso otimizaria as ações e poderíamos saber onde estão as maiores demandas e atuar nesses pontos.

Oxumarê está no céu. Arroboboi! Que venha a transformação.

28/04/2020

Ontem, fizemos mais uma saída, para entregar 50 sanduíches, embalados individualmente, e água aos irmãos em situação de rua.

Eles recebem os sanduíches muito bem, pois, se já conseguiram alguma refeição, podem guardá-los para comer mais tarde.

Água continua a ser a maior necessidade. Todos demonstram alegria, alívio e gratidão enormes ao receber uma simples garrafa.

Continuamos a repassar recursos a outras ações. Desta vez, escolhemos:

– a Pias do Bem, que constrói e instala pias portáteis para atender a população em situação de rua;

– a Marmita Solidária, que acontecerá no dia 01/05, no Armazém do Campo;

– a MALOCA, de Duque de Caxias, que precisava adquirir material para a confecção de máscaras para a comunidade do Morro do Sossego;

– e a Escola de Rua que está atuando diretamente em auxílio de irmãos em necessidade urgente.

Assim, nossa ciranda segue seu giro, readequando-se ao atual momento.

13/06/2020

Nossa Ciranda foi às ruas mais uma vez, graças ao apoio de muitos e muitos braços tortos de quem entende que a única forma de viver/sobreviver é através da cooperação mútua. Cuidar do outro é cuidar de si.

O número de irmãos em situação de rua não para de aumentar e a gente tenta otimizar ao máximo os recursos. A carência de água para beber continua muito grave.

Como vínhamos constatando, praticamente todos os grupos estão cozinhando.

Cada mini cesta foi composta de arroz, feijão, macarrão; óleo, biscoito, leite, salsicha, sardinha, tempero completo, molho de tomate, sabonete, pasta de dente e laranjas.

Desta forma, com o conteúdo das mini cestas, garantimos que tenham asseguradas refeições para mais alguns dias.

Além das ações de rua, na última quinzena, a Ciranda dos muitos Braços Tortos pôde repassar recursos para:

– Cestas básicas para moradores do Morro do Sossego, em Duque de Caxias;
– Kits higiene e lanches infantis para ação do MALOCA, também no Morro do Sossego;
– Cestas básicas para moradores do Morro dos Macacos, Vila Isabel, através da ação promovida pelo pré-vestibular comunitário Vive;
– Campanha de apoio aos artesãos da Feirinha de Teresópolis;
– Campanha de apoio a artistas de rua, através da Escola de Rua;
– Lãs para a confecção de gorros, cachecóis e mantas, para população em situação de rua, confeccionados pelo Linhas do Rio;
– Kits de pintura/leitura para crianças de Morro Agudo e Providência;
– Escolinha de Arte Guará, da aldeia de pescadores Araçagy, em São Luís, MA;
– Campanha Máscaras para os povos Paumari, Jamamadi e Apurinã, no Médio Purus;

Laroiê, seu Tranca Rua. Axé.

27/05/2020

Garimpos

Um verbo muito utilizado pelos irmãos em situação de rua é garimpar. Sair para garimpar, no meio urbano e contemporâneo, significa ir atrás de alimento, gêneros de necessidade ou ítens que possam ser vendidos e revertidos em algum dinheiro.

Todos garimpam. Todos trabalham. Quem nunca os viu com seus imensos sacos pretos, catando latas e garrafas ou revirando lixo?

Hoje, 27 de maio de 2020, há mais de 60 dias do início da quarentena, fomos às ruas mais uma vez. Refeições, água, sabonetes para os irmãos em situação de rua e ração para seus fiéis amigos caninos.

Então, foi nossa vez de garimpar. Onde estão? Mas, neste Rio de Janeiro, Brasil, o nosso garimpo é bem mais fácil e, quase de imediato, foi entregue a primeira quentinha. Depois outra e outra.

E, quase invariavelmente, nosso garimpo resulta em sorrisos, bênçãos, agradecimentos e alguns pedidos.

A garimpagem é em mão dupla, porque eles também nos alimentam. Nossos braços tortos nos alimentam mutuamente.

Esta é a grande lição que a gente tira e que fazemos questão de compartilhar com todos que nos dão as mãos. Muito obrigada por se unir a nós. Sem as suas mãos, não seria possível. Esta nossa ciranda só se realiza coletivamente.

Continuamos nos readequando e repassando recursos a outras cirandas que também estão atuando: Feijovegan, Maisamor Menoscapital, Hydras do Terra, Escola de Rua, e ocupações Paraisópolis e Elma, de mulheres e crianças, no centro do Rio.

Não morreremos! Não deixaremos morrer!

24/06/2020

“Vamos fazer as cestas esta semana?”

“Estamos com problema para conseguir um dia para sair para a entrega. De quinta a segunda que vem, não vai dar. Queria mesmo era fazer uma canjiquinha pra comemorar São João, amanhã, mas ficou em cima.”

“Se fizesse amanhã, ia ser lindo.”

“Não sei se o mercado entrega. Os pedidos precisam ser feitos até às 11h30, já passou do horário. Vamos tentar.”

Comida no fogo, hora de desenhar as tampas das quentinhas e escrever nelas os desejos daqueles que estão na ciranda, mas não na linha de frente. Uma forma de levar suas vozes a quem recebe as quentinhas.

Vão uma, outra e várias refeições. E vem sorrisos, histórias, agradecimentos, bênçãos. Uma troca intensiva.

O rapaz que já almoçou, mas aceita a água, o outro que pede uma pra mulher, o homem da camisa do Corinthians que diz que a comida tá muito boa e pede outra, o que fala que já almoçou, mas queria o doce.

Muitos estão de máscaras, quase todos evitam se aproximar, respeitando o distanciamento. Alguns, vestem a máscara antes de se chegar.

Há, também, várias senhoras, avós, que dizem que levarão para filhos e netos.

O peruano chega no final, a comida acabou, pega um doce e uma lata de sardinha, diz que veio pra cá e não deu muito certo, conta que tem um filho pequeno com ele. “Toma, leva mais um doce pra ele”.

Antes, veio a mulher com um bebê no colo e um gurizinho pela mão. A menina tem dois meses, de macacãozinho vermelho. Chama-se Maju. O menino, Gabriel. O próprio arcanjo, em corpo e inocência, sorrindo na nossa frente. “Toma, leva mais um doce pra comer depois”. Ele abre ainda mais o sorriso, espalma a mão. “Bate aqui”. Tem como negar? É só uma criança, como todas as outras. Bate!

No dia de São João, tão rico de significados, foi uma benção poder cozinhar e entregar comida de milho a nossos irmãos. E, em troca, receber tanto deles.

Viva a Ciranda dos Braços Tortos! Viva São João! Kaô kabiesilé, Xangô! Saravá, Seu Tranca Rua!

30/06/2020

Acorda! Mercado entregou as mini-cestas ontem. Hora de preparar os lanches.

Põe ovo pra cozinhar, corta o pão, lava as frutas, enche as garrafas. Sanduíche de mortadela, ovo cozido, laranja, maçã. Só falta o doce, está com o Lucio.

Seguir para a casa dele. E, de lá, para a Glória, fazer as entregas. Nos dois carros, além dos sanduíches, cerca de 40 litros de água e 120 quilos de mantimentos.

Começa o nosso garimpo.

Adentramos num outro mundo (ou outra realidade) que coexiste com a chamada “normalidade”. Nesse outro mundo, invisível para tantos, valem outras formas de organização e sobrevivência, outras regras e normas sociais.

Nele, coisas simples como encher uma garrafa de água ou escolher o que se vai comer ou que roupa vestir se tornam, cotidianamente, tarefas difíceis ou impossíveis.

Sempre é comovente. Sempre impressiona. Sempre é um grande aprendizado.

Um pouco antes de chegar ao primeiro ponto de parada, um homem puxa uma carroça, desviando de alguns automóveis com motoristas impacientes e incomodados.

“Aceita um lanche?” Ele abre um sorriso. “Opa! E quem foi que disse que a vida não é boa?”

Já no caminho de casa, a última sacolinha de lanche vai para um velhinho, com um saco nas costas, em frente ao Maracanã. Ele agradece, abençoa.

Mais à frente, dois rapazes carregando peças enormes, de madeira, como móveis desmontados, nos vêem parados e vem correndo.

“Acabou tudo, amigos. Só tem esses dois doces.”

“A gente aceita. Estamos vindo da Praça da Bandeira. Morrendo de fome. Tem água?”

Ainda restavam duas garrafinhas e a alegria dos dois não dá para descrever. Só vendo mesmo.

Sempre termina certo.

O trânsito está pesado, quase “normal”, motoristas nervosos e apressados buzinam. São mundos paralelos coabitando o mesmo espaço.

Façamos o nosso mundo! Que a gente consiga construir os alicerces de um outro mundo, mais justo e menos cruel e violento.

Muito obrigada por estar conosco nesta ciranda. Em julho, serão quatro anos.

11/07/2020

“Dificilmente chega uma coisa nova na mão deles… Porque quem é que quer usar uma cueca usada? Ou as mulheres terem que usar uma calcinha já usada? São coisas que na nossa cabeça nem passam…”
Padre Julio Lancellotti

Com a chegada do inverno, recebemos doação de cobertores e roupas. As amigas do Linhas do Rio também estão confeccionando peças de lã em tricô e crochê e nos entregaram uma boa quantidade delas.

Desta vez, graças à generosidade dos muitos braços tortos que apóiam a Ciranda, pudemos comprar cuecas, calcinhas e meias novas, por atacado e direto das confecções.

Partimos para a Glória, iniciando o percurso de cerca de um quilômetro e inúmeras histórias e realidades coabitando o mesmo espaço.

Começamos pelo largo, no ponto onde fica o Yasser. Agora, ele tem uma barraca de camping, permanentemente armada. Parece um iglu azul e amarelo, no meio do gramado mal cuidado pela Prefeitura, aos pés do Outeiro da Glória.

Feitas as entregas naquele ponto, paramos mais adiante, onde fica outro grupo. Uns querem almoço, “hoje é lanche”. Outros só querem a água, pois já comeram.

Infelizmente, tínhamos pouca roupa masculina para a enorme demanda (precisamos muito!). Vem um homem só de bermuda, larga, caindo. Pede calça, não tem. Leva uma sacola com duas camisas.

Todos, sem exceção, abrem um sorriso ao receber a sacolinha com o kit cueca e meia. E se alegram mais ainda, quando a gente conta que são novinhos. Os olhos brilham.

Chega um rapaz, seu nome é Eliel. Veio do Paraná, é pizzaiolo e lancheiro, tinha emprego certo, mas a pandemia atrapalhou tudo.

A moça vem, senta no meio-fio, ao lado do carro. Recebe a bolsa com as roupas femininas, gorro, cachecol. Abre a sacola com a calcinha, sorri, encantada. Diz que vai se produzir.

Seu nome é Renata. “Vamos tirar uma foto, Renata”. “Espera eu me arrumar”. Veste o gorro e o cachecol. “Arrasou!”. Pede pra ver. “Nossa! Arrasei mesmo!”

A ciranda continua a girar. Não morreremos! Não deixaremos morrer! Viva a Ciranda dos Braços Tortos! Saravá, Seu Tranca Rua!

Glaucia Garcia e Lúcio Sanfilippo,

pela Ciranda dos Braços Tortos.

vídeo: Ciranda: Comida para o Povo da Rua


sobre os Diários da Pandemia:

  • Embora seja tb um trabalho jornalístico, se propõe a muito além disto.
  • Tem como objetivo principal tecer uma rede de comunicação entre as diversas lutas localizadas.
  • De modo a circular as experiências, para serem reciprocamente conhecidas numa retro-alimentação de auto-fortalecimento.
  • Não se trata de tão somente produzir matérias, e sim tornar as matérias instrumento para divulgar conteúdo capaz de impulsionar os movimentos.
  • Em suma: colocar a comunicação a serviço das lutas concretas.

ver também em Diários da Pandemia:

Movimento Unido dos Camelôs – MUCA-RJ

na linha de frente – Alto Xingu

Wesley Teixeira – Movimenta Caxias (RJ)

Opetahra e a ressurgência do Povo Puri

Luciene Silva e a Rede de Mães da Baixada Fluminense (RJ)

“Sim! Eu Sou do Meio” – Belford Roxo (RJ)

junto ao Povo da Rua no Rio de Janeiro (RJ) – 02

na tríplice fronteira Norte (Brasil-Colômbia-Peru) (AM)

KM 32 – na profundidade da periferia – 02

na linha de frente – Salvador (BA)

Morro do Sossego, Duque de Caxias (RJ) – 02

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