Posted on: 5 de julho de 2020 Posted by: arkx Brasil Comments: 2

Na periferia da periferia da periferia, o Morro do Sossego, no bairro do Pantanal, cidade de Duque de Caxias (RJ).

Meu nome é Marilza. Sou moradora do Morro do Sossego, localizado no bairro Pantanal, 2o. Distrito do município de Duque de Caxias (RJ), que é um dos 13 municípios da Baixada Fluminense.

Aqui em Duque de Caxias temos um histórico de violência, de violações de Direitos Humanos e, principalmente, de militarização da vida.

Tenho 53 anos e desde a minha infância eu acompanho esta situação no território.

Neste período de pandemia fica bem clara a nossa situação e como sempre tivemos que nos virar por nós mesmos. Então, para nós moradores do Morro do Sossego, não está sendo tão difícil no sentido de contarmos uns com os outros, já que historicamente sempre foi assim.

Não temos creches, há pouquíssimas escolas públicas, não temos Posto de Saúde, não temos água potável e saneamento básico.

Sempre tivemos que lutar para sobreviver, porque este na verdade é o termo, é a nossa realidade. Aqui a luta é pela sobrevivência.

Somos uma população que para gerar renda precisamos ir ao centro da cidade do Rio de Janeiro. Então, com o passar do tempo aprendemos a nos virar no território mesmo.

Muitas pessoas por não terem tido acesso à educação, acabaram perdendo espaço para concorrer vaga de emprego no centro do Rio. Por isto muitas delas acabaram fazendo bicos pelo território e investir em pequenos negócios.

Neste período da pandemia nós acabamos tendo que nos reinventar. Entendemos também que só não dá para ficar sem comer. Neste sentido, participamos de campanhas de doação de cestas básicas.

Aqui no Morro do Sossego conseguimos apoio de diversos coletivos, e isto nos vem mantendo nestes meses. Sobrevivendo através da doação de cestas básicas, dividindo o que temos com os outros.

Assim estamos sobrevivendo nos unindo mais, com mais atenção pela situação de nossos vizinhos, do nosso entorno, e vendo como somos abandonados pelo poder público.

Está caindo a ilusão de que Prefeito, Vereador, Deputado, Senador, Presidente estejam preocupados com a nossa situação. Na verdade só nos vêem como devotos para eles se promoverem.

E também os empresários sempre nos vêem apenas como mão-de-obra. E como mão-de-obra descartável. Já que a primeira providência de muitos empresários nesta pandemia foi suspender o pagamento de seus empregados.

Temos aqui um cenário de diversas pessoas que estão em casa sem receber. Enquanto outras começaram a ser demitidas.

O que nos fortalece é a solidariedade, é a coletividade, é um enxergar o outro. Estamos conseguindo ver melhor o nosso território. Entender as necessidades dos nossos.

E também ter um tempo de olhar para o céu, de olhar a natureza em nosso entorno. Algo que durante anos, em nossa correria, em nosso dia a dia, de sair muito cedo para trabalhar e só chegar de volta à noite, não conseguíamos observar.

Na verdade, nos foram tiradas muitas fases de nossas vidas.

E agora estar aqui no Morro do Sossego é nos sentir protegidos neste cenário de COVID-19. Pelo menos, é assim que eu me sinto. Me sinto protegida, me sinto acolhida, me sinto podendo contar com meus vizinhos.

Com os meus me sinto parte deles, neste território. Eu não tinha este sentimento.

Vai se criando uma ilusão de que somos coisas e acabamos correndo muito atrás de consumo, de ter mais e mais, e de nos endividarmos para alimentar a riqueza de uma minoria.

E assim vamos seguindo, aguardando esta fase passar. Mas consigo ver que para mim ela mudou o meu olhar para compreender que não preciso de tanta coisa para ser feliz. E muito menos para sobreviver.

Tem sido muito importante esta inflexão para desapegar e também sair desta ilusão.

Temos que nos cuidar mesmo, que nos fortalecer, porque não temos rede pública a nos dar suporte. Passamos meses sem a Prefeitura atender sequer com uma cesta básica à população dessas áreas mais carentes.

Ficou bem claro quem é de fato o nosso inimigo.

Que possamos nos unir e nos fortalecer para transformar o território. E investir em modos sustentáveis, para que não fiquemos debaixo do pé de um sistema econômico que só serve para nos escravizar.

Marilza Barbosa Floriano
Assistente social, articuladora de território, integrante do Movimenta Caxias e Rede de Mães e Familiares Vítimas de Violência da Baixada Fluminense.

vídeo:

Referências:

M.A.L.O.C.A. – Movimento Alternativo Libertário e Organizado em prol da Cidadania é um coletivo de mulheres da periferia de Duque de Caxias.

https://www.facebook.com/pg/malocadacidadania/about/?ref=page_internal


sobre os Diários da Pandemia:

  • Embora seja tb um trabalho jornalístico, se propõe a muito além disto.
  • Tem como objetivo principal tecer uma rede de comunicação entre as diversas lutas localizadas.
  • De modo a circular as experiências, para serem reciprocamente conhecidas numa retro-alimentação de auto-fortalecimento.
  • Não se trata de tão somente produzir matérias, e sim tornar as matérias instrumento para divulgar conteúdo capaz de impulsionar os movimentos.
  • Em suma: colocar a comunicação a serviço das lutas concretas.

ver também em Diários da Pandemia:

Diários da Pandemia: Morro do Sossego, Duque de Caxias (RJ) #1

Movimento Unido dos Camelôs – MUCA-RJ

na linha de frente – Alto Xingu

Wesley Teixeira – Movimenta Caxias (RJ)

Opetahra e a ressurgência do Povo Puri

Luciene Silva e a Rede de Mães da Baixada Fluminense (RJ)

“Sim! Eu Sou do Meio” – Belford Roxo (RJ)

junto ao Povo da Rua no Rio de Janeiro (RJ) – 02

na tríplice fronteira Norte (Brasil-Colômbia-Peru) (AM)

KM 32 – na profundidade da periferia – 02

na linha de frente – Salvador (BA)

Morro do Sossego, Duque de Caxias (RJ) – 02

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